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SAÚDE »

Formados para o público

Uma das alternativas para salvar a assistência médica no Distrito Federal é apostar na formação de profissionais dedicados à área. Mesmo com dificuldades, a Escs tem esse papel. Os estudantes aprendem e aplicam a teoria nos hospitais da capital

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postado em 05/06/2016 16:41 / atualizado em 05/06/2016 18:00

Otávio Augusto

Hélio Montferre

“Desde pequeno, eu via o descaso com os pacientes e no atendimento na rede pública. Sentia que faltava algo, que poderia fazer melhor. Isso me influencia muito.” A afirmação é de Abel Costa, 25 anos. Ele cursa o quinto período de medicina na Escola Superior de Ciências da Saúde (Escs), entidade ligada à Secretaria de Saúde. Ele e oito colegas fazem parte do grupo que circula nos corredores do Hospital Regional de Taguatinga (HRT). Como eles, há outros 507 estudantes de medicina e 261 de enfermagem inseridos no sistema de saúde público para aprender a clinicar. O objetivo, além de formar profissionais, é fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) e a atenção primária.

Eles nadam contra a corrente. Os graves problemas estruturais dos hospitais públicos, como a falta de insumos e medicamentos e o sucateamento dos equipamentos das unidades, afastam os novos profissionais. Em 2014, dos 488 médicos aprovados e convocados, 285 se recusaram a assumir a vaga. No ano passado, o número de desistências foi maior: das 1.242 nomeações, 311 pessoas não tomaram posse. Isso significa que 25% dos aprovados no último concurso abriram mão do serviço público.

Para interromper o processo de desidratação do sistema de saúde, a Escs fomenta aspectos ético, moral e de organização do serviço público. Diferentemente das escolas tradicionais, os estudantes são imersos desde o primeiro ano de curso na realidade dos pacientes e da estrutura do governo. “Somos mais humanos, amigos. Sabemos como tratar um paciente. Começamos a aprender que não basta só medicar; é preciso conversar, entender. Isso é muito positivo”, explica o futuro médico Abel.

“Tentamos formar um médico com uma visão mais abrangente, humana e inclinados a permanecerem na rede pública. Boa parte dos novos profissionais prefere virar especialista para ter uma projeção profissional e alta remuneração. Os nossos alunos saem compreendendo a importância do SUS para a cidadania”, explica o cardiologista Paulo Roberto Silva, diretor da Escs.

A preocupação de Paulo Roberto vem das estatísticas. Hoje, a capital federal ocupa posição crítica entre as 27 capitais no ranking que mede a cobertura da atenção primária. Dados do Ministério da Saúde mostram que apenas 27% da população têm acesso ao serviço. Andressa Lorrana de Jesus, 20 anos, cursa enfermagem há três anos e acredita que, nos próximos anos, o cenário pode estar diferente. “A nossa escola é formada pelo SUS e para o SUS. Desde sempre, a gente está em contato com a comunidade. Faço visitas domiciliares com o foco na atenção primária. A saúde encontra-se num processo fragilizado e vulnerável no qual somos a diferença”, conclui.

“É uma dificuldade trabalhar na atenção primária. Além de ser pouco valorizado socialmente, trabalhar isolado, num posto de saúde distante, existe uma dificuldade de chamar esses profissionais. Nossa intenção é formar profissional com este perfil. Não tem correção no sistema que passe por mais hospitais e prontos socorros, mas sim pela estruturação de estratégias, como o Saúde da Família”, reconhece Paulo Roberto.

 

Matheus Oliveira
 

Poucos recursos
A estrutura apresenta falhas. A biblioteca do câmpus Asa Norte está interditada pela Defesa Civil e precisa ser reformada. A falta de educadores também é realidade. O problema se estende desde a fundação, em 2001. No último mês, foi autorizado o ingresso de 10 professores na instituição. Atualmente, são 221 titulares. “O projeto de unir o ensino e a assistência médica enfrenta problemas reais. É um sonho do SUS formar a própria mão de obra, mas existem gargalos. Hoje, por exemplo, estão sendo feitos estudos visando projeto de ampliação de área física”, admite Paulo Roberto.

A dificuldade é real. “Perdemos em laboratório e ficamos apertados na teoria. Vemos pouca anatomia, farmacologia e acabamos vendo na prática. Ao mesmo tempo que atuamos, nós temos que aprender”, conta Abel. Andressa estuda em um câmpus que era para ser provisório. “Não vejo grandes avanços na estrutura. Não tem calçada; para chegar lá, caminhamos no barro. A Escs tem batalhado para dar certo. Estamos no mesmo lote do Conselho Tutelar, um local isolado”, reclama.

Para o exercício de 2016, a Lei Orçamentária Anual destinou R$ 7,7 milhões para as despesas da Escs — valor para manter despesas diretas, bolsas de estudos, fomento à pesquisa e gratificação de docentes. Outros gastos são custeados pela Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciência da Saúde (Fepecs), órgão também ligado ao Executivo local.



“Começamos a aprender que não basta medicar; é preciso conversar, entender. Isso é muito positivo”
Abel Costa, estudante

 

 

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