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Intolerância em protesto na UnB

Grupo é acusado de gritos homofóbicos e racistas contra alunos da instituição. Protesto ocorreu na sexta-feira, com objetivo de acabar com a doutrinação esquerdista em universidades. Reitoria e governo repudiam ato e dizem que investigarão os envolvidos

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postado em 19/06/2016 14:48 / atualizado em 19/06/2016 14:54

Thiago Soares , Leonardo Meireles

Zuleika de Souza
Um ato político na Universidade de Brasília, na noite de sexta-feira, tomou contornos racistas e homofóbicos. Um grupo de cerca de 30 pessoas invadiu o Instituto Central de Ciências (ICC), conhecido como Minhocão, com gritos contra greve, por volta das 21h. Eles foram abordados pelos alunos da instituição, que pediam silêncio durante as aulas. As duas partes, então, começaram uma barulhenta discussão. Nas redes sociais, um vídeo mostra pessoas vestidas de preto e com camisas da Seleção Brasileira bradando contra estudantes. “Eu sou empresária, pago imposto caríssimo pra manter esse parasita. Gay, safado, parasita”, grita uma mulher a um aluno. O vídeo também mostra o momento em que uma bomba caseira é lançada na entrada do prédio. A instituição apura o ato, que tem uma conotação maior e reflete o estado de espírito da sociedade: a polarização política.

Entre as manifestantes, aparece Kelly Bolsonaro, ativista de direita, que invadiu o campo do estádio Mané Garrincha durante o jogo entre Flamengo e Fluminense, em fevereiro deste ano. Na ocasião, ela levantou um cartaz exigindo a saída da presidente Dilma Rousseff. Enquanto isso, o aluno de serviços sociais Kaic Ribeiro, que saía de uma reunião com estudantes de serviço social, ouviu o barulho da primeira bomba. Ele afirma ter ficado extremamente assustado quando se encontrou com o grupo concentrado no ICC. “Fiquei muito nervoso e com medo, foi uma cena assustadora. Foram ali para dizer que todos eram vagabundos comunistas. A maioria dos alunos ficou perplexa, sem saber como reagir e eles disseram que isso tudo era só o começo e voltariam com mais. Isso foi uma manifestação fascista”, afirma.

A estudante de artes cênicas Larissa Souza, 22 anos, declara que o discurso de ódio não condiz com o projeto de criação da UnB e afirma: “Quando o fascismo atinge instituições educacionais, devemos rever urgentemente as bases ideológicas desses espaços. Precisamos ampliar nosso discurso àqueles que insistem em deturpar o projeto de universidade democrática de Darcy Ribeiro”. Muitos presentes lembraram a invasão da Polícia Militar em 1968, durante a ditadura, e a ameaça terrorista sofrida pela instituição em 2012 (leia Memória).

Além dos ataques racistas e homofóbicos, alguns alunos também acabaram vítimas de perseguição supostamente por integrantes do grupo. Dois deles foram seguidos por um motoqueiro, após saírem com o carro do estacionamento do Minhocão. “Tudo começou quando estávamos indo pegar o carro. Um grupo de pessoas começou a xingar a gente, chamando de vagabundos e maconheiros. Eles chegaram a provocar para alguma briga física. Vi um deles com uma haste de bandeira na mão”, lembra o estudante, que não quis se identificar. Após entrar no veículo, os alunos ainda foram seguidos por um homem que lançou objetos contra eles. “Foi algo assustador. Nunca pensei que isso fosse ocorrer dentro da faculdade”. A ocorrência foi registrada na 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte), que investiga os fatos.

Outra aluna diz ter sofrido o mesmo tipo de perseguição. Ela foi liberada da aula às 20h50, e saiu assustada com o barulho dos manifestantes. Ele afirma que, ao chegar ao estacionamento, também foi seguida por um motociclista. “Eles estavam agredindo verbalmente os alunos que saíam das aulas, me chamaram de puta, maconheira, jogaram coisas no meu carro. Disse ao homem da moto que, se ele continuasse a me seguir, eu faria um boletim de ocorrência. Eu anotei a placa. Depois disso, jogaram outro objeto no meu carro, eu arranquei e fui embora”, declara a estudante.

“Sem homofobia”
Depois de várias tentativas, a reportagem conseguiu entrar em contato com um integrante do protesto da noite de sexta. Ele pediu para ser identificado apenas como Maurício  por medo de represálias e disse ser amigo e estar ao lado de Kelly Bolsonaro. Maurício repudia a ideia de a manifestação ter qualquer caráter homofóbico ou racista. “Nós nos organizamos pelo WhatsApp para um ato pacífico, com cerca de 40 pessoas, inclusive com estudantes”, afirma. Ele acredita que no máximo 30 pessoas estiveram no Minhocão Sul, todas com o intuito de pedir liberdade de expressão e protestar contra a “doutrinação esquerdista” dentro das universidades. “Dos 30 que estiveram ali, três tiveram um comportamento inadequado. Nós somos contra. Não tem ninguém homofóbico do nosso lado”, resumiu, destacando que também não veio a bomba que explodiu no meio da confusão.

Maurício reconhece que alguns manifestantes estavam mais exaltados. “Eles estavam com medo porque já aconteceu antes de a gente protestar e ser agredido”, afirma. “Uma senhora foi muito provocada. Um cara levantou a saia e mostrou as nádegas para ela. Não precisava xingar, mas, às vezes, não conseguimos nos controlar”, explica Maurício, justificando as palavras de uma das integrantes do grupo. Ele disse também ter repreendido outra pessoa que estava com uma espécie de porrete na mão.


Outro protesto

Em uma página do Facebook, intitulada “Ato contra o discurso de ódio, o fascismo e a violência na UnB”, representantes de diversos Centros Acadêmicos convocam para um ato contra os ataques sofridos pelos estudantes da instituição. A convocação é para amanhã, a partir das 12h, no espaço conhecido como Ceubinho.

Uma universidade dividida


O professor David Fleischer, do Instituto de Ciência Política, afirma que o ato precisa ser discutido dentro da universidade e não pode passar despercebido. Fleischer acredita que o ataque teve motivações políticas, já que a instituição abriga os mais diversos tipos de pensamentos. “Os direitistas encaram a UnB como reduto de esquerda e atacam por conta disso. Mas a UnB é uma entidade que tem milhares de estudantes e professores, não é um espaço monolítico. Há vários tipos de pensamento, não podemos enxergar como um lugar apenas esquerdista”, declara o professor. Fleischer, que entrou na UnB em 1972, acredita que é preciso que grupos de estudantes se mobilizem e que o reitor faça uma declaração condizente, mostrando que esse tipo de ato não será novamente tolerado. “Entre os anos 1960 e 1970, a UnB sofreu muitos ataques do governo militar e de grupos extremos. Para nós, que somos mais antigos, esse tipo de ato causa arrepios”.

O professor José Geraldo Sousa Júnior, ex-reitor da universidade, também aponta a questão política como fundamental na discussão. Para ele, a situação simplesmente repete o que ocorre no Brasil. “Está dentro do clima de polarização e contradição, quando há contrapontos de ideias em toda a sociedade”, diz. Para ele, a manifestação de sexta-feira não é só sobre a greve pretendida pela Associação dos Docentes da UnB (ADUnb), em apoio à presidente Dilma Rousseff, mas por causa da embate política vivido no país.

Segundo Maurício, integrante do grupo de manifestantes da sexta-feira, o principal objetivo do ato foi mostrar que há outras forças políticas dentro da universidade e pedir o fim da doutrinação esquerdista nas instituições de ensino superior. “A greve política que os professores esquerdistas querem fazer no segundo semestre, contra o que eles chamam de golpe, é uma das causas de a gente ter feito a manifestação. Essa foi uma tentativa de iniciar um movimento para diminuir a doutrinação esquerdista dentro das universidades”, aponta. “Durante o ato, muitos estudantes faziam sinal de positivo e nos davam apoio, mas eles fazem isso escondido por medo de serem perseguidos. Hoje, na UnB, a maioria não é esquerda”, argumenta, prometendo que as ações vão continuar e que, em breve, um vídeo com a versão deles será publicado.

Memória

Ameaças e invasão no câmpus

Em 2012, professores, alunos e servidores da UnB viveram o medo de um atentado. Marcelo Valle, 26 anos, e Emerson Rodrigues, 32, ameaçaram promover um massacre contra os estudantes de ciências sociais. Em 22 de março daquele ano, a Polícia Federal deflagrou a Operação Intolerância, que colocou na cadeia dois suspeitos de planejar a ação. Décadas antes, durante o regime militar, ocorreu a invasão mais violenta. Em 1968, os alunos protestavam contra a morte do estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, assassinado por policiais militares no Rio de Janeiro. Agentes das polícias Militar, Civil, Política (Dops) e do Exército invadiram a UnB e detiveram mais de 500 pessoas, entre elas, Honestino Guimarães. O estudante Waldemar Alves foi baleado na cabeça, tendo passado meses em estado grave no hospital.

 

Midia Ninja
 

 

Reitor e Buriti garantem investigação

 

A reitoria garantiu que investigará a atuação do grupo no Minhocão. A equipe de segurança chegou a acionar a Polícia Militar, porém, ao chegar no local, a confusão já havia sido dispersada. “Não podemos admitir nenhum ato como esse. A universidade dever ser um ambiente para diversidade de pensamento. Isso inclui a defesa do posicionamento, mas como um debate claro. Qualquer tipo de violência como ocorreu é repudiada pela instituição”, afirmou o reitor da UnB, professor Ivan Camargo. Ao longo da semana, a Decana de Assuntos Comunitários continuará coletando depoimentos de funcionários e alunos que estavam no ICC no momento das agressões verbais. A Polícia Federal será acionada somente se algum aluno fizer algum pedido formal junto à instituição de ensino.

O governador do DF, Rodrigo Rollemberg (PSB), também manifestou revolta com a situação em uma página na internet. “Determinei à Polícia Civil que apure os casos recentes de ataques a estudantes da UnB com especial atenção. Nosso governo está em sintonia com a sociedade de Brasília, que não aceita atos de intolerância e ódio”, afirmou. Quem cuidará do caso é a Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual , ou contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência (Decrin).

O Diretório Central dos Estudantes (DCE) repudiou a agressão aos alunos da instituição. “A manifestação foi exagerada e completamente inadequada para o ambiente universitário. Eu estava no ICC e vi o momento em que alguns alunos pediram para diminuírem o barulho. Foi quando começaram as agressões verbais. Não acreditei que aquilo estava ocorrendo dentro da universidade”, lembra o presidente do DCE, Gabriel Bertoni. Segundo ele, nenhuma das pessoas envolvidas foram identificadas como alunos da UnB. “O DCE condena essa atitude veementemente, independente do posicionamento político de cada um, o respeito e a liberdade de expressão devem prevalecer”, declarou.

 

Isabella de Andrade

 

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