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MP é acionado após protesto

Cidadão quer responsabilizar uma das ativistas que participou de manifestação na sexta por incitar a violência. Ela diz que não há provas. Centros acadêmicos fazem ação hoje

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Zuleica de Souza
Os ataques homofóbicos e racistas sofridos por alunos na Universidade de Brasília (UnB) fizeram com que a comunidade acadêmica agisse. Os alunos prometem para hoje um ato contra o discurso de ódio, fascismo e violência no câmpus, principalmente após a manifestação na noite de sexta-feira, quando um grupo de cerca de 30 pessoas invadiu a instituição para protestar contra a “doutrinação esquerdista” e alguns integrantes xingaram estudantes. Representantes da sociedade civil também reagiram às agressões verbais. No Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), uma representação responsabiliza a ativista Kelly Bolsonaro. Ela se defende, afirmando que não incitou violência no local.

O ato organizado pelo Centro Acadêmico de ciências políticas, apoiado por mais 32 CAs da UnB, está marcado para as 12h, no espaço conhecido como Ceubinho, localizado dentro do Instituto Central de Ciências (ICC). A intenção é reunir toda a comunidade estudantes, professores e funcionários. O presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Gabriel Bertone, afirma que a instituição apoia os estudantes e também repudia qualquer discurso de ódio ou violência. “Foi uma agressão direta à comunidade acadêmica, independentemente de posicionamento político. Nós queremos prezar pelo respeito, tolerância e diálogo”, afirma.

A possibilidade de greve de parte dos professores da UnB no segundo semestre, motivada pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, é apontada como um dos motivos do protesto da última sexta-feira. O secretário-geral da Associação dos Docentes da UnB (AdUnB), Carlos Vidigal, afirmou que, no entanto, o movimento ainda é indefinido. Ele ressalta que, na assembleia ocorrida em 8 de junho, a proposta de levar o indicativo de paralisação foi aprovada e seguirá para análise no Sindicato Nacional. Vidigal reiterou o posicionamento geral da comunidade acadêmica. “Nós não aceitamos qualquer tipo de manifestação que se valha de ameaças, coerção ou que incite a violência. Somos a favor do diálogo, do respeito à democracia e à diversidade”, afirma o professor.

A estudante Luiza Calvette, representante do CA de Ciência Política e vice-presidente regional da União Nacional dos Estudantes (UNE), aponta que a universidade deve ser um espaço de todos e que não pode tolerar nenhum tipo de preconceito ou discurso de ódio, qualquer que seja a ideologia. “A UnB é um espaço de reflexão e debate em relação ao nosso país. Nós vimos naquela noite um discurso contra a nova universidade, contra as cotas, com palavras homofóbicas. Nós, dos centros acadêmicos, vemos isso de maneira muito preocupante. Então, organizamos esse ato para amanhã porque achamos que não é razoável deixarmos passar em branco”, declara a estudante.

Denúncia
O ato que resultou em agressões verbais na UnB virou alvo de denúncia no Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). A ação protocolada responsabiliza a ativista conhecida como Kelly Bolsonaro. O autor do documento, o relações públicas George Marques, 26 anos, defende que o grupo incitou o terror no espaço acadêmico. “A universidade não é um espaço para a violência. Todos têm o direito de se manifestar; o problema é quando se cria ares de terror. A Justiça tem que ser convocada para ter uma resposta desse grupo”, ressaltou.

Em entrevista ao Correio, a ativista afirmou que não era uma das organizadoras do protesto. “Não havia um líder. O movimento veio a partir da união de pessoas, incluindo também alunos da instituição. Não posso ser imputada como organizadora, uma vez que não exerci essa função”, afirma Kelly. Ela reconhece que houve excesso por parte de alguns integrantes, mas que não é responsável por incitar violência. “Em nenhum dos vídeos, em nenhum momento, eu apareço ofendendo alguém”, defendeu. Sobre a representação no MP, a ativista preferiu não comentar sobre o assunto.

 

Reitoria afirma que sindicância não para


 

O professor Paulo Henrique de Oliveira, da faculdade de Direito (FD), afirma que os envolvidos podem ser processados por racismo e injúria racial, crimes de discriminação por raça e orientação sexual, além de discurso de ódio. Se for constatado que, dentro do grupo, há alunos da universidade, e for comprovada a presença de injúria, racismo ou homofobia, eles estão sujeitos a medidas de punição e disciplinares, podendo chegar à expulsão. “As pessoas que carregam esse ódio veem a universidade como um centro que eles precisam combater ou até destruir, porque enxergam na liberdade e na reflexão acadêmica democrática uma oposição a esse discurso de ódio. E realmente a universidade vai sempre se opor a esse tipo de ataque e discurso. A gente lastima muito que isso aconteça lá dentro”, afirma o professor.

A Universidade de Brasília continuará com a sindicância sobre o caso. “Vamos avaliar as imagens com cuidado e ouvir os estudantes e funcionários para saber se de fato temos alunos da UnB envolvidos em ações de racismo ou homofobia”, afirmou o reitor, Ivan Camargo. Ele também se posicionou a favor dos estudantes que estão organizando o ato de hoje. “É ótimo que eles, representados pelos centros acadêmicos, se posicionem com clareza no combate à violência dentro do câmpus. Neste momento, a UnB tem que servir de modelo não somente para Brasília, mas também para o país. Aqui é lugar de diversidade”, declarou. A Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual ou contra Pessoa Idosa ou com Deficiência (Decrin) da Polícia Civil investiga o caso. O órgão deve ouvir os envolvidos e analisar imagens ao longo da semana.

 

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