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"Menos intolerância, mais amor" na UnB

Munidas de cartazes e bandeiras, cerca de 500 pessoas tomam o Minhocão para protestar contra grupo que invadiu a Universidade de Brasília na última sexta-feira. Polícia, MP e reitoria investigam o caso. OAB nacional repudia os ataques à diversidade

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postado em 21/06/2016 19:08 / atualizado em 22/06/2016 21:46

Bruno Lima - Especial para o Correio /

Gustavo Moreno

 

Gustavo Moreno

 

 

Os ataques homofóbicos promovidos por um grupo de cerca de 30 pessoas na Universidade de Brasília (UnB), na última sexta-feira, provocou reação de setores da sociedade e do Poder Público. Dois dias depois, a Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual ou contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência (Decrin) instaurou inquérito. Durante o fim de semana, a delegada responsável pelo caso ouviu testemunhas e envolvidos. O Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) também deve acompanhar os desdobramentos da confusão. Ontem, alunos, professores e funcionários fizeram ato “contra o discurso de ódio, o fascismo e a violência na universidade”.

 

Na noite da última sexta-feira, pessoas vestidas de preto e com camisas da Seleção Brasileira de futebol invadiram o Instituto Central de Ciências (ICC), o Minhocão, por volta das 20h. Eles se manifestavam contra a “doutrinação esquerdista” nas universidades federais e criticavam o indicativo de greve aprovado por professores da UnB contra as alterações promovidas pelo novo governo nas áreas da educação e da ciência. A eventual paralisação de estudantes de alguns cursos contrários ao presidente em exercício, Michel Temer, também foi alvo do grupo.

Vídeos feitos no momento da discussão mostram uma mulher proferindo ofensas a estudantes. “Eu sou empresária, pago imposto caríssimo para manter esse parasita. Gay, safado, parasita, maconheiro”, grita a mulher. “Vai estudar, bando de vagabundo”, diz um homem, com o dedo em riste. Os manifestantes, que até o momento não foram identificados como alunos da UnB, também usavam camisetas com o rosto do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e bandeiras do Brasil. Testemunhas relataram que alguns invasores empunhavam cassetetes e armas de choque, apesar de as imagens não mostrarem os objetos.

A UnB emitiu nota de repúdio ao ato da última semana. “A reitoria da Universidade de Brasília reitera a postura de respeito ao direito à diversidade nos seus quatro câmpus e repudia qualquer ato de intolerância e de agressão”, informou. “As ocorrências de natureza agressiva e intolerantes são devidamente apuradas e, quando se trata de ações que extrapolam a alçada administrativa da universidade, os órgãos competentes são acionados”, continua o texto.

Ex-aluno da UnB, o governador Rodrigo Rollemberg (PSB) se posicionou por meio das redes sociais. Em um post publicado no sábado em sua página oficial, o chefe do Executivo local afirmou que determinou à Polícia Civil atenção especial sobre o fato. “Nosso governo está em sintonia com a sociedade de Brasília, que não aceita atos de intolerância e ódio”, escreveu.

“Menos intolerância”


No início da tarde de ontem, cerca de 500 pessoas se reuniram no Ceubinho, no Minhocão, em resposta ao ocorrido na sexta-feira. O protesto, convocado por 34 Centros Acadêmicos (CAs) pela internet, contou com o apoio de professores de diversos cursos, além do Sindicato dos Trabalhadores da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub). Durante mais de uma hora, estudantes se revezaram no microfone, condenando o que chamaram de “ataque fascista da direita conservadora”.

Carregando cartazes com frases como “Aqui não tem espaço pra fascista”, “Abaixo o autoritarismo” e “Menos intolerância, mais amor”, o grupo seguiu para a reitoria, onde cobrou um posicionamento firme da administração do câmpus, além de medidas efetivas para impedir “atos de violência e de ódio contra os estudantes, os LGBTs, as negras e os negros e os estudantes pobres da universidade”.

Para a vice-presidente regional da União Nacional dos Estudantes (UNE), Luiza Calvette, o ocorrido na última sexta é resultado do cenário político nacional e deve ser combatido para que não extrapole e haja agressões físicas. “A gente tem assistido nos últimos períodos um avanço do conservadorismo, e isso se manifestou na UnB na última sexta. Mas nós não vamos aceitar o fascismo dentro da UnB”, defendeu.

A decana de Assuntos Comunitários da UnB, professora Thérèse Hofmann, acompanhou o ato de ontem. Ela lembrou que, durante a ditadura militar, a UnB se tornou símbolo da luta pela liberdade de escolha e ressaltou que a comunidade acadêmica repudia ações de violência dentro e fora do câmpus. “A UnB, como universidade da capital do país, já foi e é exemplo de uma série de ações, que viraram vitrine para outras instituições de ensino superior. A gente não pode ser exemplo de ações homofóbicas, de ações que privam a liberdade de pensar”, argumentou.

A presidente da Comissão da Diversidade Sexual do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Maria Berenice Dias, afirmou que o acontecimento atinge não só os estudantes ou os homossexuais, mas toda a sociedade, por se tratar de um ataque aos direitos individuais. “Eu fiquei estarrecida quando vi as imagens. É inominável. É uma afronta a todos os princípios, inclusive aos constitucionais”, considerou.

Para Berenice, o protesto se torna mais grave por ter sido promovido dentro de uma universidade federal. “As pessoas, independentemente do que pesam, do que acreditam, não podem invadir uma universidade federal e se insurgir contra a instituição, contra os alunos e de uma maneira ofensiva à liberdade sexual”, opina. A OAB-DF preferiu não se pronunciar sobre o caso.

Encontro de professores
Está prevista para amanhã uma Assembleia Geral Universitária, organizada por professores, estudantes e técnicos da Universidade de Brasília (UnB). O grupo se reunirá para discutir a educação na conjuntura atual. No encontro também será abordado o episódio ocorrido no câmpus na sexta-feira. A iniciativa faz parte do movimento promovido pelos três segmentos contra o governo interino de Michel Temer (PMDB). Desde que o Senado Federal afastou Dilma Rousseff (PT) do cargo, parte do corpo docente da UnB tem se posicionado contra o novo governo, principalmente em relação à decisão de extinguir o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A reunião ocorrerá às 15h no Teatro de Arena do Câmpus Darcy Ribeiro, no fim da Asa Norte.

Para saber mais

Unidade especializada

Após ataques a terreiros de candomblé no Distrito Federal e no Entorno no fim do ano passado, o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB), publicou, em janeiro, o decreto que criou a Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual ou contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência. A unidade é a quarta do país a ser criada especialmente para combater os crimes de discriminação e intolerância religiosa. O objetivo é proporcionar às vítimas de tais ataques um local específico ao qual se dirigir a fim de apurar os fatos com tratamento especializado.

 

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