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Segurança na UnB terá reforço contra ataques

GDF toma conhecimento de supostas conversas de grupo que invadiu a universidade e mobiliza batalhão da PM para evitar atos violentos. Diretório Central dos Estudantes quer que a Polícia Federal investigue o caso. Para reitor, ameaça é real

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postado em 23/06/2016 09:41 / atualizado em 04/07/2016 18:34

Adriana Bernardes , Bruno Lima - Especial para o Correio /

Minervino Junior/CB/D.A Press
Desde a noite da última sexta-feira, quando um grupo de cerca de 30 pessoas invadiu a Universidade de Brasília (UnB), a comunidade acadêmica está em alerta a novos ataques, principalmente por causa de boatos de que novas ações estariam sendo planejadas. O receio aumentou ontem, com a divulgação de áudios e imagens de conversas que teriam sido compartilhadas em uma rede social, da qual fazem parte os manifestantes acusados de terem proferidos ofensas de cunho racista e homofóbica contra os alunos.

A Secretaria de Estado de Segurança Pública e da Paz Social informou que tomou conhecimento das conversas pelo serviço de inteligência. A partir daí, tomou providências e reforçará o policiamento no câmpus Darcy Ribeiro por meio da 3º Batalhão de Polícia Militar (Asa Norte), responsável pelo local. Em nota, a pasta afirmou que “o direito de manifestação é livre, desde que não haja qualquer tipo de violência ou incentivo à intolerância ou à discriminação”.

A reação não é a única desde o protesto de sexta-feira. O Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) recebeu cinco denúncias na Ouvidoria contra o ato solicitando a abertura de investigação. A Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual ou contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência (Decrin) instaurou inquérito para investigar o caso. A delegada responsável ouviu quase 10 pessoas desde segunda-feira, com o intuito de identificar os autores. O promotor Thiago Pierobom, do Núcleo de Enfrentamento à Discriminação do MPDFT se reuniu com a Decrin e solicitou “o empenho usual para esclarecimento dos fatos”. Ele também instaurou procedimento administrativo para acompanhar as investigações policiais em andamento. E, por meio da assessoria de imprensa, informou que é preciso esperar a conclusão das apurações para definir as medidas a serem adotadas diante dos crimes que forem identificados a partir das provas coletadas.

 

Minervino Junior/CB/D.A Press
 

 

Hoje, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) entregará à administração do câmpus uma lista de telefones celulares das pessoas que supostamente planejaram e participaram da manifestação. “Nós queremos encaminhar todos esse áudios para a Polícia Federal. Conseguimos acesso aos números das pessoas e faremos contato com a polícia para eles entrarem no caso. Tem coisas muito graves ali”, apontou o presidente do DCE, Gabriel Bertone. De acordo com as mensagens, homens e mulheres arquitetaram a invasão à universidade por meio do aplicativo WhatsApp. As conversas mostram o grupo combinando levar pistolas de choque elétrico e bandeiras com canos de PVC, para serem usados como arma. Também afirmam terem estourado duas bombas no ato. E se vangloriam de a polícia “ter ficado do nosso lado”.

Não há provas de que os áudios sejam realmente do grupo que invadiu a UnB na sexta-feira. Uma das integrantes do protesto, Kelly Bolsonaro nega os discursos, diz que qualquer pessoa poderia gravá-los e jogá-los na internet e que “a mídia e os estudantes estão fazendo tempestade em um copo d’água (Leia matéria ao lado)”. O reitor da UnB, Ivan Camargo, acredita que as ameaças existem. “Não acho que estejamos fazendo tempestade em copo d’água. A ameaça é real. O dramático é que somos muito vulneráveis por sermos uma universidade aberta no meio da cidade”, afirma. Ele esclarece que as providências necessárias estão sendo tomadas para evitar novas confusões. “Reforçamos a segurança da UnB e a orientação é para chamar a polícia no caso de qualquer ameaça.”

Discussão

As agressões e a divulgação dos atos foram discutidas na tarde de ontem, durante a Assembleia Geral Universitária organizada por professores, estudantes e técnicos da UnB. A vice-presidente regional da União Nacional dos Estudantes (UNE), Luiza Calvette, disse que os ataques geraram medo e preocupação, principalmente nos alunos gays e nas mulheres. “Eu espero que, com as denúncias no Ministério Público, as pessoas parem com esses ataques. Mas, sinceramente, acho que essa história vai se alongar um pouco”. O presidente da Associação dos Docentes da UnB (Adunb), Virgílio Arraes, lamentou o ocorrido. “Tudo o que afronta a democracia deve ser repudiado sem excitação. Nesse sentindo, a Adunb espera que a administração superior, a reitoria, tome as devidas providências para preservar a integridade de todos que são da Universidade”, afirmou.

Entenda o caso

Um grupo de manifestantes invadiu o Instituto Central de Ciências (ICC), conhecido como Minhocão, na noite de sexta-feira. Com roupas pretas e camisas da Seleção Brasileira, gritaram contra a ideia de greve de professores no segundo semestre — em apoio à presidente afastada Dilma Rousseff — e pela liberdade de expressão dentro na UnB. Segundo um dos integrantes, o protesto teve como objetivo “acabar com a doutrinação esquerdista nas universidades”. Outros manifestantes praticaram ataques homofóbicos e racistas a estudantes. Segundo relatos, eles chegaram ao local por volta das 20h, gritando palavras de protesto e exigindo a volta da ditadura militar. Do lado do grupo, representantes afirmaram que poucos membros se exaltaram porque foram muito instigados — um estudante levantou a saia e mostrou as nádegas para uma empresária presente.

 

Bate-boca

Integrante do grupo responsável pelo protesto, a ativista de extrema-direita Kelly Bolsonaro classifica a reação da comunidade universitária como “tempestade num copo d’água”. Ela resume o confronto da sexta-feira passada como um “bate-boca e troca-troca de ofensas dos dois lados”. Ela nega que um novo ato com as mesmas características esteja programado, desta vez no bloco das artes cênicas, mas diz que se algum grupo estiver planejando ação de defesa do país e das pessoas de bem, ela não tem razão para não apoiar.

Kelly demonstra indignação contra o que chama de “criminalização” dos integrantes do grupo responsável pelo protesto. “Nós estamos saindo de criminosos. Essa história da bomba, estão dizendo que fomos nós. Mas o próprio delegado disse que é cabeção de festa junina. Não teve vidro quebrado, não teve ninguém ferido. Existe crime por parte deles. Aquele cara que mostrou as nádegas e mexeu nas genitais pode responder por atentado ao pudor”, ressalta.

Sobre a circulação de áudios supostamente do grupo do qual faz parte, ela ironiza. “Eu posso gravar um áudio, jogar na internet e dizer que foi você que gravou. Estou tranquila. Lá, não tem a minha voz. Não tenho nada para declarar. Não sei quem são e nem de quem são aquelas vozes”, disse. A ativista reforça que, uma semana antes do protesto, um jovem foi “violentado” na universidade por estar com uma camiseta com os dizeres “Fora comunismo”. “Ele é menor de idade. Tem 16 anos e a mãe dele estava conosco. Ela não quer expor o filho, mas disse que vai lutar para que não aconteça de novo”, explica. Kelly também lembrou o episódio de outro estudante hostilizado por defender monarquia.

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