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Correio Braziliense

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Um basta ao assédio

Estudantes de jornalismo e de publicidade participam de concurso sobre o tema. Depois de seis meses de trabalho, criaram várias plataformas de comunicação para alertar sobre a importância da denúncia

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postado em 29/07/2016 11:00 / atualizado em 29/07/2016 12:41

Camila Costa

Carlos Vieira/CB/D.A Press
 

 

Sexual, moral, psicológico, simbólico. O assédio pode se vestir de várias formas. Pode estar em vários ambientes e, de tão popular, sequer ser notado. E mais, ele não tem sexo. Prefere as mulheres, mas pode escolher os homens. Mais atual que nunca, o tema foi o mote escolhido para um concurso da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Católica de Brasília (UCB). Alunos de jornalismo e de publicidade se debruçaram em cima da hashtag #MeuÚltimoAssédio para criar produtos relacionados à temática e levantar a discussão: falar da última vez em que foi assediada ou assediado pode fazer com que, de fato, seja a última vez.

Depois de seis meses de trabalho, o resultado premiado foi uma campanha para diversos meios de comunicação, como televisão, jornal impresso, além de formatos para as redes sociais, produzida por oito estudantes. O conceito aborda o valor da denúncia. Quando uma vítima se cala, uma luz se apaga. “Precisamos de luz para combater o silêncio. Muitas vezes, por não enxergarem o assédio como um assédio, o tema não tem a visibilidade que deveria. E a luz é a denúncia. Um grito para acabar com o silêncio”, justificou Iago Martinho Kieling, 18 anos, aluno do 4º semestre de jornalismo. Segundo Iago, a pesquisa foi intensa. Muito das técnicas usadas veio de influências do expressionismo — movimento artístico que procura retratar as emoções e as respostas subjetivas.

Uma das peças é um vídeo. Uma moça, interpretada por uma atriz, sugere vários tipos de assédio até não aguentar mais. Nessa hora, ela grita. O vídeo não tem muitos sons; o grito, principalmente, não aparece. Mas foi o jeito encontrado para mostrar, mais uma vez, a importância de não se calar diante de um assédio. “A gente sempre ouve falar de assédio. É até comum. Mas, quando vimos o conceito, aqui, durante o trabalho, a concepção muda. Você começa a perceber que o assédio está do lado e você não percebe”, afirmou Caio Eduardo Almeida, 20, que está no 4º semestre de jornalismo. Segundo outro participante, Benny da Silva Leite, 18, do 4º semestre de publicidade, apesar de as meninas serem minoria no grupo — apenas três dos oito integrantes —, elas foram mais ouvidas na hora da produção das peças.

Para Benny, é impossível falar do que não se viveu. “Infelizmente, o assédio ainda acontece mais com as meninas. E foram elas que nos ajudaram a ter o olhar correto em cima do tema, com sensibilidade para que abordássemos da melhor forma. Elas indicavam os detalhes, com cuidado para que a realidade fosse retratada de verdade”, explicou. Em uma outra peça, os alunos produziram uma foto, na qual a vítima aparece agachada, retraída, de costas. “Fomos atrás de destacar todos os sentidos — visão, audição, tato —, em uma campanha que fosse séria, sem brincadeiras ou descontração, para conscientizar”, resume Iago.

Os estudantes receberam um troféu, feito pelo designer Caê Penna em parceria com a Galeria Ponto; certificados de participação; e ganharam, ainda, uma festa. Terão uma visita agendada na Agência Heads e um jantar com profissionais da área de comunicação.

 

“Precisamos de luz para combater o silêncio. Muitas vezes, por não enxergarem
o assédio como um assédio, o tema não tem a visibilidade que deveria.
E a luz é a denúncia. Um grito para acabar com o silêncio”

Iago Martinho Kieling, 18 anos,
estudante de jornalismo, 4 º semestre.


"A gente sempre ouve falar de assédio. É até comum. Mas, quando vimos
o conceito, aqui, durante o trabalho, a concepção muda.
Você começa a perceber que o assédio está do lado e você não notas"

Caio Eduardo Almeida, 20 anos,
estudante de jornalismo, 4º semestre


"Infelizmente, o assédio ainda acontece mais com as meninas. Temos garotas
no grupo e foram elas que nos ajudaram a ter o olhar correto sobre o tema,
com sensibilidade para que abordássemos da melhor forma"

Benny da Silva Leite, 18 anos,
estudante de publicidade, 4 º semestre.

 

Elas ainda são as mais vulneráveis

Uma pesquisa do Instituto Avon/Data Popular com 1.823 universitários de todo o país, entre setembro e outubro de 2015, conclui que:

52%
foram humilhadas, xingadas ou ofendidas

56%
sofreram assédio sexual, comentários com apelos sexuais indesejados, cantadas ofensiva ou abordagens agressiva

28%
sofreram estupro, tentativa de abuso enquanto estavam sob efeito de álcool ou foram tocadas sem consentimento e forçadas a beijar veteranos

42%
já sentiram medo de sofrer violência no ambiente universitário

36%
deixaram de fazer alguma atividade na universidade por medo de sofrer violência

18%
foram coagidas a ingerir, à força, bebida alcoólica e/ou drogas, foram drogadas sem conhecimento ou forçadas a participar em atividades degradantes, como leilões e desfiles

10%
sofreram agressão física

49%
sofreram desqualificação intelectual ou piadas ofensivas, ambos por serem mulheres

63%
admitem não ter reagido quando sofreram a violência

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