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Correio Braziliense

O sonho agora é estudar fora do país

SOCIEDADE Talles Faria, o estudante que acusou o Instituto Tecnológico da Aeronáutica de preconceito, tem planos de fazer doutorado de engenharia em redes complexas no exterior. Em nota, a FAB afirma que o formando cometeu transgressões passíveis de punição a qualquer militar

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Quarenta e oito horas depois da repercussão do protesto contra o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), o engenheiro Talles de Oliveira Faria, 24 anos, faz planos de fazer doutorado em redes complexas fora do país. Na última segunda-feira, o site do Correio Braziliense divulgou, com exclusividade, o ato do estudante contra o centro de ensino. Ontem, a Aeronáutica, em resposta a uma demanda do jornal, falou que Talles teria cometido “diversas transgressões disciplinares”, que seriam “passíveis de punição e se aplicariam a qualquer militar”. O jovem, no entanto, afirma que foi pressionado a pedir licenciamento do serviço ativo da Força Aérea.


Segundo a Aeronáutica, o estudante teria feito a opção por formar-se como engenheiro civil e não como engenheiro militar. “Ele alega ter sido pressionado a fazer tal requerimento, no entanto esta foi uma decisão unilateral do próprio ex-militar, com a intenção de permanecer cursando o ITA, uma vez que as diversas transgressões disciplinares que cometeu levariam a um comprometimento de sua avaliação como militar”, diz a nota.


Após o posicionamento oficial da Aeronáutica sobre o protesto, Talles respondeu à nota com indignação. “A resposta (do ITA) é vergonhosa, um insulto claro à minha pessoa. A minha decisão de pedir licença foi baseada na perseguição deles, se eu não fizesse, seria desligado não só da Força Aérea, como militar, mas também do ITA. Corria o risco de perder minha graduação, era óbvio que a única decisão era essa”, afirmou ao Correio.


Faria diz, ainda, que seu objetivo principal é levar os militares a repensaram as rígidas regras dos quartéis e a promover mudanças. De acordo com ele, “começar ensinando as crianças a respeitar a diversidade do outro, que não se deve esconder a opção sexual” é primordial.

 

 

Desde a cerimônia, ocorrida no sábado passado, e com a presença do ministro da Defesa, Raul Jungmann, a aparição de Talles em trajes femininos foi um dos assuntos mais comentados na internet. O engenheiro tem dedicado grande parte do tempo em responder e postar novas mensagens nas redes sociais, acusando o ITA e o ambiente militar de ser “homofóbico, com reações violentas, de menosprezo e desrespeito” à diversidade sexual de seus alunos. O ministro Jungmann não comentará o assunto, segundo informaram seus assessores.


Sobre a justificativa do órgão de que as transgressões por ele praticadas são passíveis de punição para qualquer militar, Talles rebate. “A questão-chave é essa, não é qualquer militar que é punido, outros fazem e não são punidos. Eu fui porque não queriam a imagem da FAB associada a um LGBT, isso incomodava todos os militares homofóbicos. É passível de punição, mas só o LGBT é punido. É o discuso que cabe, porque ou falam isso ou assumem que são homofóbicos, que têm um problema que precisam trabalhar, o que seria muito mais bonito, mas preferem mentir”, pondera.


O saldo da repercussão, para Talles, é positivo. “Não recebi mensagens de ódio, essas ficam no perfil de quem publica e eu procuro nem ler. Mas as que estou recebendo são positivas, várias pessoas querendo saber o que aconteceu de fato, diferentes mídias entrando em contato”, avalia.


De olho no futuro, ele diz que pretende seguir carreira acadêmica. “Estou no processo de doutorado em redes complexas, tentando universidades no exterior; acho que o episódio não deve interferir no futuro porque pretendo estudar fora. Eu queria também, de alguma forma, trabalhar com direitos humanos, a questão LGBT e também uma coisa mais geral, ainda não sei”, finaliza.

* Estagiária sob supervisão de Leonardo Cavalcanti, editor de Política e de Brasil