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Correio Braziliense

A revolução pelo estudo

Não há fórmulas milagrosas para conquistar uma carreira bem-sucedida. Contamos histórias de quem perseguiu a excelência por meio do caminho mais promissor, embora às vezes esquecido: os livros

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postado em 26/03/2017 14:30 / atualizado em 26/03/2017 14:37

Minervino Junior

Bacharel em direito pela última turma a se formar na Escola de Direito de Brasília, do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), Daniel Lucas Silva Santiago, 24 anos, é dessas pessoas cuja história de vida precisa ser contada. Dificuldades, superações, trabalho e sacrifício são elementos comuns na rotina do jovem. Morador do Recanto das Emas, terceiro de quatro irmãos, educado pela mãe, que é auxiliar de limpeza, e por uma avó, sem a presença do pai, ele se inspirou nas duas para vencer cada desafio que enfrentou. Desde cedo, tomou para si a responsabilidade de cuidar da família, e viu nos estudos o melhor caminho para cumprir a missão. A história de vida do rapaz, que agora cursa economia na Universidade de Brasília (UnB), tornou-se pública durante a colação de grau da turma, no IDP, há uma semana, quando um colega, Frederico Augusto Teixeira da Rocha, 47, que também tem uma trajetória de luta, o citou como um exemplo e como uma inspiração para todos.



Luis Nova

Entre as memórias mais antigas de Daniel, estão uma delegacia de polícia, onde a mãe trabalhou, e perguntas. Muitas perguntas. Questionamentos de uma criança que sentia fome de aprender: “Como eu faço uma universidade? Que cursos existem? Qual é o melhor?”. A estrutura familiar também o impeliu. “Meu pai me abandonou quando eu tinha 1 ano. Sempre pagou pensão, mas nunca quis contato. Minha mãe levava uma vida digna, mas difícil. Eu via que era necessário fazer alguma coisa para melhorar a condição e via no estudo a solução”, explica. Daniel completou os ensinos fundamental e médio da melhor forma que pôde, e aplicou muita força de vontade em uma subida íngreme.

Minervino Junior

Estudando, o universitário constatou que as chances de quem estuda em escola pública não são iguais às de quem estuda em uma particular. “Há uma diferença muito grande na qualidade de ensino. Na faculdade, o começo foi difícil, em partes, por isso. Vim de uma escola no fim do Recanto das Emas, e estava ao lado de gente de escolas importantes, algumas estudaram nos Estados Unidos. Era difícil acompanhar as discussões. Tive que me esforçar mais para entender conceitos. Mas nunca me senti rejeitado”, relata. Bolsista do Programa Universidade para Todos (ProUni), ele tinha que terminar o curso dentro do prazo, sem atrasar matérias e com boas notas.

Exemplos


No segundo semestre de 2016, fazendo o trabalho final do curso de direito, ele passou em economia na UnB. Saía de casa às 6h. Ia para a UnB. Depois, às 12h, para o estágio. Entrava no IDP às 18h30 e ficava até as 23h. Voltava para casa meia-noite e estudava até as 2h. “Temos que fazer alguns sacrifícios, mas não sou exemplo pra ninguém. Eu corro atrás dos meus sonhos. Peço às pessoas negras e pobres, que vivem com dificuldades e precisam de ajuda do poder público, que acreditem que podem alcançar seus objetivos. Minha meta é a magistratura”, declara.

Frederico Augusto Teixeira da Rocha prefere ser chamado de Fred. No discurso de conclusão de curso do IDP, ele citou a história de Daniel Lucas. A homenagem reflete admiração, mas também um reconhecimento dos próprios esforços na atitude positiva de Daniel. Servidor do Tribunal Superior do Trabalho, Fred lembra que conseguiu entrar no Colégio Militar de Brasília aos 15, em 1984, o que lhe deu base para começar duas universidades. A jornada para manter o nível do estudo, no entanto, era pesada. Ele saía de casa, em Taguatinga, às 5h, pegava o ônibus, descia na Torre de TV e ia a pé para a escola na Asa Norte. “Meus pais davam aula de manhã e à tarde e faziam graduação à noite. Era uma infância pobre. A caminhada da Torre para o colégio era um gelo. Hoje, tenho um filho de 15 anos e acho que isso que passamos é inacreditável”, compara.

Fred conseguiu entrar para dois cursos, ciência da computação e estatística, mas passou em um concurso para o Superior Tribunal de Justiça e acabou largando a segunda faculdade. Posteriormente, passou em outro concurso, no TST, como analista de sistemas. Não satisfeito, fez o curso de direito do IDP e, desde o segundo semestre de 2016, trabalha diretamente com os ministros do órgão. Questionado sobre o motivo de ter citado Daniel em seu discurso na formatura, ele ressalta as qualidades do amigo. “O Daniel está sempre sorrindo. Sempre ajuda todo mundo. Quando soube do sacrifício dele, vi uma pessoa que nunca perdeu a ternura, sempre participou de grupos de estudo e pesquisa, teve boas notas e recebeu os melhores valores da mãe, que é auxiliar de limpeza.”

O sonho de Daniel é um caminho já percorrido por outros que também precisaram vencer imensas dificuldades financeiras. Um exemplo é o do juiz federal da 21ª Vara de Brasília do Tribunal Regional Federal da 1ª região, Rolando Valcir Spanholo. Natural de Sananduva (RS), município distante 307km de Porto Alegre, ele trabalhou com o pai em uma borracharia; com a mãe, costurando; vendeu cortinas para se manter e ajudar na renda doméstica. Rodava cerca de 184km por dia para ir à faculdade de direito, em Passo Fundo, e voltar para casa, em meados de 1993. Discreto, ele não superestima o esforço. “É lógico que tenho orgulho da minha trajetória. Mas acredito que todas as pessoas têm uma história de vida, seus méritos e superam desafios. São caminhos tão importantes quanto o meu. Não sou melhor do que ninguém”, destaca.

Terceiro de cinco filhos, Spanholo, que não gosta de exposição, também atribui aos pais e ao estudo a força motriz de transformação. Ele conta que o ingresso do primeiro irmão em uma faculdade de direito foi um marco que transformou a vida de todos. O trabalho de costura tomou corpo de uma pequena empresa em que todos colaboraram. “Minha família tem uma origem simples, humilde. Nosso único caminho para prosperar era pelos estudos. Meus pais são semianalfabetos e minha mãe batalhou muito para não desistirmos. Não tem mistério. Não sou excepcional e nunca fui um aluno brilhante. Sempre acreditei que, se me esforçasse o necessário, superaria minhas barreiras”, explica. O magistrado passou em diversos concursos, sempre com a meta de ser um juiz federal, realizada em 2014. Hoje, ele faz mestrado no IDP. Uma das novas metas é se tornar professor. “O foco, não sei se terei capacidade profissional, é trabalhar na docência e, talvez, escrever obras.”

Referência


No último semestre de direito da Escola de Direito de Brasília do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), Daniel Lucas Silva Santiago viveu mais um dilema. Aprovado no curso de economia da Universidade de Brasília (UnB), ele não poderia continuar como beneficiário do Programa Universidade para Todos (ProUni). Mas isso inviabilizaria sua formatura. Alguns amigos disseram que ele não deveria se manifestar, mas, em vez disso, o estudante procurou a coordenação do IDP, que o desligou do ProUni, mas o manteve gratuitamente na instituição particular. O coordenador do curso de direito, Marcelo Proença, explica que a responsabilidade social é um dos focos da instituição. “Fazemos o máximo de esforço para que quem quiser estudar no IDP e merecer isso pelas qualidades pessoais e acadêmicas consiga, mesmo que não tenha condições financeiras”, explica.

Proença destaca que a história de Daniel não se resume ao sucesso acadêmico. “É uma história de sacrifício pessoal para conseguir se formar em uma faculdade de direito de primeira linha. Para uma pessoa com muitas limitações, de repente, o céu é o limite. O próprio ministro Gilmar Mendes, que era patrono da turma, se emocionou com o discurso que homenageou o universitário”, lembra. “Essas pessoas estão, agora, ingressando no mercado de trabalho. Mas tiveram grande sucesso acadêmico. Somos uma faculdade de direito muito nova, e esses alunos estão ocupando funções de altíssimo nível, de ponta, além do primeiro lugar na OAB”, completa. Coordenadora adjunta da graduação de direito, Dulce Furquim concorda. “Como somos pequenos, temos condição de identificar as qualidades e necessidades dos alunos”, ressalta.

No ranking do Conceito Preliminar do Curso Contínuo (CPC) — indicador do Ministério da Educação (MEC) que avalia os cursos de graduação do país — a Escola de Direito de Brasília está em 1º lugar geral no Distrito Federal no ano de 2015. Já no nacional, a EDB ocupa a 14ª colocação. A avaliação leva em conta o grau de satisfação dos alunos e a avaliação de desempenho deles, a infraestrutura, o corpo docente e os recursos didático-pedagógicos usados. Para Dulce Furquim, o nível dos professores, a atualização constante da grade curricular e o trabalho em equipe foram responsáveis pelo bom desempenho. Outro motivo é o incentivo a pesquisas acadêmicas, para que os alunos desenvolvam “uma visão crítica”. Além disso, estudantes da instituição obtiveram as maiores notas do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) do DF.

"Tenho orgulho da minha trajetória, mas não sou melhor que ninguém"


Rolando Valcir Spanholo, juiz federal