Solidariedade

Aluna faz vaquinha na Rodoviária para pagar mensalidade da faculdade

O dinheiro também é para ajudar na conclusão do TCC

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postado em 11/08/2017 18:39 / atualizado em 11/08/2017 22:00

 

 

A Rodoviária do Plano Piloto faz parte da rotina de cerca de 700 mil pessoas de todo o Distrito Federal e do Entorno. Quem frequenta o local sabe que há muitos pedintes em busca de alguns trocados para garantir a própria sobrevivência, cada um com uma história de vida única e, na maioria das vezes, triste. Mas tristeza não é o traço marcante no semblante de Valquiria de Sousa, 29 anos. Sempre risonha e entusiasmada, a estudante do último semestre de artes cênicas na Escola de Artes Dulcina de Morais passa boa parte do seu dia no terminal e nos ônibus de transporte coletivo da capital. Ela pede ajuda para conseguir pagar a mensalidade da graduação e para bancar as despesas com o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). A proposta do TCC é levar arte e educação para crianças em escolas e creches do Distrito Federal com a música da lendária Clara Nunes, uma das maiores cantoras da história da Música Popular Brasileira (MPB).

 

E a rotina dela não é fácil. Ela passa as segundas e quartas-feiras trabalhando com crianças no Instituto Amama, localizado em Taguatinga Norte. A entidade presta apoios psicológico e jurídico para mulheres em situação de vulnerabilidade social e portadoras de câncer buscam ajuda na organização. Valquiria dá aulas de dança para os filhos das assistidas pelo Amama. O ritmo é o jongo, dança de batuque de origem africana, uma das bases musicais do samba. Nas terças, quintas e sextas-feiras, vai para as aulas pela tarde. De manhã, ganha as ruas em busca de solidariedade: “Eu vou para todo lugar: Ceilândia, Samambaia, Valparaíso, Taguatinga e para a Rodoviária do Plano Piloto, sempre com a minha caixinha de som e o microfone. Às vezes, vou até com a saia de chita e já faço uma apresentação de dança para os presentes conhecerem o nosso trabalho”, relata. Apesar de fazer tudo sozinha, quando se refere aos feitos do projeto, ela sempre usa “a gente” ou “nosso”: “Deus está sempre comigo, me ajudando”, explica. O Projeto Clara Nunes é fruto da paixão da estudante pela intérprete. A moradora de Samambaia afirma que levar a obra da artista para as crianças é uma maneira de resgatá-las por meio da cultura. “A gente também compra roupa e material escolar para a garotada que está precisando dessa força”, conta.

 

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press

A infância e adolescência de Valquíria não foram fáceis. O pai morreu quando a mãe ainda estava grávida dela e, aos 10 anos, teve que sair de casa para morar em um internato de crianças. Na segunda casa para qual se mudou, aos 15, na Asa Sul, teve o primeiro contato com o teatro: encenou algumas peças com temáticas religiosas. A instituição era gerida por freiras. “Apesar disso, nunca cheguei a fazer nem a primeira comunhão”, confessa. Aos 18, ela foi morar sozinha no Pedregal, bairro do Novo Gama, no Entorno. Trabalhou em diversas lojas de departamento, como vendedora e auxiliar de caixa, mas sempre com o sonho de subir no palco e atuar. Em 2014, aos 26 anos, finalmente, ingressou na Escola de Artes Dulcina de Morais e começou a graduação em artes cênicas. O curso, que tem duração de seis semestres, deveria ter sido concluído na primeira metade de 2017, não fosse o período em que foi forçada a trancá-lo por falta de dinheiro. “Passei um semestre sem poder pagar as mensalidades”, lembra.

 

Uma aventura

 

A futura atriz descobriu a vida e a obra da intérprete Clara Nunes em 2014, mesmo ano que ingressou na escola de teatro. A paixão foi tamanha que, ano passado, decidiu viver uma aventura: ir à terra natal de Clara, Caetanópolis, em Minas Gerais, conhecer a irmã da artista, Maria Gonçalves Silva, mais conhecida como Bimbinha ou Mariquita. A única informação que tinha era a cidade onde Mariquita morava. Foram cerca de dez horas de ônibus para chegar ao destino e o desembarque ocorreu de manhã cedo, às 7h15. Sem saber o endereço, a estudante passou a buscar a informação nas ruas, com transeuntes e comerciantes locais. Em uma cidade cujo município conta com cerca 10 mil habitantes, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), chegar à casa da irmã da cantora não foi difícil. “Eu falei que vinha de Brasília e que estava ali só para conhecê-la. Ela me recebeu muito bem, como se eu fosse uma parente”, lembra Valquiria. Foram quatro dias hospedada na residência de dona Mariquita. Além de abrigo, comida e a visita ao Museu da Clara Nunes, a candanga aventureira também teve o privilégio de ter acesso aos objetos pessoais de Clara que não estavam disponíveis ao público. “Chorava e tremia muito. Meu coração não cabia dentro do peito. Era a realização de um sonho”, recorda. Valquiria e dona Mariquita passaram a manter contato por telefone uma vez por semana até a morte da velha moradora de Caetanópolis, em 10 de maio deste ano.

 

Uma missão

 

Valquiria de Souza/Divulgação
Clara Nunes teve a derradeira primavera em 1983, por conta de uma reação alérgica a uma substância presente na anestesia usada para um procedimento cirúrgico para retirada de varizes. A morte prematura da cantora a impediu de realizar o sonho de ter uma creche. Ela gostava muito de crianças, mas não podia ter filhos. Durante a viagem a Caetanópolis, Valquiria conheceu a creche que levou o nome da cantora como homenagem e tomou para si uma missão: levar arte e educação para crianças de escolas e creches do DF. E não é só isso: ela transformou o sonho em projeto para o trabalho de conclusão de curso dela. “Quero levar a obra de Clara para todas as pessoas e resgatar as crianças culturalmente, com a dança e com a música. Cultura em Brasília é cara e não precisa ser assim. Ela pode ser para todos”, afirma.

 

Catarina Gonçalves de Azevedo é professora e orientadora da futura atriz na Dulcina de Morais e diz estar curiosa para ver o resultado do trabalho da aluna. “Eu tenho boas expectativas. Não é um projeto fácil, mas ela está correndo atrás”, afirma. Valquiria é um exemplo de tenacidade e força para fazer o bem: “A mensagem que eu quero deixar é: se você tem um sonho, corra atrás, agarre com todas as forças, pois é isso o que eu estou fazendo”, conclui a estudante. Os interessados em ajudá-la a chegar à formatura e a levar para frente o Projeto Clara Nunes, podem entrar em contato pelo telefone: (61) 9 9872-6331 ou pelo perfil do facebook “Clara Nunes Proj”. O telefone do Instituto Amama é (61) 3355-6331 e o link para a página do facebook é 

www.facebook.com/iNSTITUTOAMAMA/.

 

 

 

*Estagiário sob supervisão de Ana Sá