URGENTE

Reitor da UFSC alegava inocência e escreveu artigo em tom de desabafo

Afastado, Luiz Carlos Cancellier negava envolvimento com as irregularidades e chegou a publicar artigo no jornal O Globo há quatro dias, em que dizia-se inocente e questionava os métodos aplicados

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 02/10/2017 14:36 / atualizado em 06/10/2017 12:38

Divulgação
 

 

O reitor afastado da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier, foi encontrado morto na manhã desta segunda-feira (2). Segundo informações do Instituto Médico Legal (IML), ele teria se jogado no vão central do Beiramar Shopping, em Florianópolis.

 

Ele era um dos investigados pela Polícia Federal na Operação Ouvidos Moucos, que apura suspeitas de desvios de recursos de cursos de Educação a Distância (EaD) da universidade. Cancellier chegou a ser preso não sob suspeita de desvios, como informou o Correio anteriormente, mas por suposta obstrução de Justiça na investigação.

 

Em nota, a assessoria do shopping disse que, por volta das 10h30, um homem teria se jogado do andar superior do estabelecimento. Após o ocorrido, a Polícia Civil e o IML foram chamados para atender a ocorrência e constataram que tratava-se de Luiz Carlos Cancellier.

 

Entenda

Cancellier, 60 anos, eleito como reitor no ano passado, estava afastado das atividades desde 14 de setembro de 2017. Ele e outras seis pessoas estão sendo investigadas pela Polícia Federal. Suspeita-se que professores e empresários possivelmente ligados às fraudes, além de outros funcionários da instituição e de fundações parceiras, tenham atuado em conjunto para desviar verbas e fraudar bolsas em cursos de educação a distância. Mais de R$ 80 milhões teriam sido desviados pelo grupo. 

 

Afastado, ele negava envolvimento com as irregularidades e chegou a publicar artigo no jornal O Globo há quatro dias, em que dizia-se inocente e questionava os métodos aplicados. Em tom de desabafo, disse que foi submetido a uma "humilhação e vexame" sem precedentes e descreveu a operação da seguinte forma: "uma investigação interna que não nos ouviu; um processo baseado em depoimentos que não permitiram o contraditório e a ampla defesa; informações seletivas repassadas à PF; sonegação de informações fundamentais ao pleno entendimento do que se passava; e a atribuição, a uma gestão que recém completou um ano, de denúncias relativas a período anterior."

 

UFSC e UNE 

A UFSC lamentou o falecimento e decretou luto de três dias, estando suspensas as atividades acadêmicas e administrativas da instituição. Em nota, a UFSC descreveu a campanha que o levou à reitoria como uma defesa do "modelo de administração que resgatasse a excelência e a eficiência na instituição, apostando na descentralização da gestão e na valorização e participação de todos os centros e unidades da universidade nas tomadas de decisão." A União Nacional dos Estudantes (UNE), também em nota, demonstrou pesar pelo ocorrido e descreveu como "extremamente duvidosa" a investigação, sendo Luiz Carlos Cancellier uma "vítima de uma injusta e arbitrária ação da Polícia Federal."

 

"Nos últimos dias", afirmou ele, "tivemos nossas vidas devassadas e nossa honra associada a uma “quadrilha”, acusada de desviar R$ 80 milhões. E impedidos, mesmo após libertados, de entrar na universidade."

 

 

Confira na íntegra o artigo completo de Luiz Carlos Cancellier, escrito dias antes da morte dele e publicado pelo jornal O Globo:


A humilhação e o vexame a que fomos submetidos — eu e outros colegas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) — há uma semana não tem precedentes na história da instituição. No mesmo período em que fomos presos, levados ao complexo penitenciário, despidos de nossas vestes e encarcerados, paradoxalmente a universidade que comando desde maio de 2016 foi reconhecida como a sexta melhor instituição federal de ensino superior brasileira; avaliada com vários cursos de excelência em pós-graduação pela Capes e homenageada pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Nos últimos dias tivemos nossas vidas devassadas e nossa honra associada a uma “quadrilha”, acusada de desviar R$ 80 milhões. E impedidos, mesmo após libertados, de entrar na universidade.


Quando assumimos, em maio de 2016, para mandato de quatro anos, uma de nossas mensagens mais marcantes sempre foi a da harmonia, do diálogo, do reconhecimento das diferenças. Dizíamos a quem quisesse ouvir que, “na UFSC, tem diversidade!”. A primeira reação, portanto, ao ser conduzido de minha casa para a Polícia Federal, acusado de obstrução de uma investigação, foi de surpresa.


Ao longo de minha trajetória como estudante de Direito (graduação, mestrado e doutorado), depois docente, chefe do departamento, diretor do Centro de Ciências Jurídicas e, afortunadamente, reitor, sempre exerci minhas atividades tendo como princípio a mediação e a resolução de conflitos com respeito ao outro, levando a empatia ao limite extremo da compreensão e da tolerância. Portanto, ser conduzido nas condições em que ocorreu a prisão deixou-me ainda perplexo e amedrontado.


Para além das incontáveis manifestações de apoio, de amigos e de desconhecidos, e da união indissolúvel de uma equipe absolutamente solidária, conforta-me saber que a fragilidade das acusações que sobre mim pesam não subsiste à mínima capacidade de enxergar o que está por trás do equivocado processo que nos levou ao cárcere. Uma investigação interna que não nos ouviu; um processo baseado em depoimentos que não permitiram o contraditório e a ampla defesa; informações seletivas repassadas à PF; sonegação de informações fundamentais ao pleno entendimento do que se passava; e a atribuição, a uma gestão que recém completou um ano, de denúncias relativas a período anterior.


Não adotamos qualquer atitude para abafar ou obstruir a apuração da denúncia. Agimos, isso sim, como gestores responsáveis, sempre acompanhados pela Procuradoria da UFSC. Mantivemos, com frequência, contatos com representantes da Controladoria-Geral da União e do Tribunal de Contas da União. Estávamos no caminho certo, com orientação jurídica e administrativa. O reitor não toma nenhuma decisão de maneira isolada. Tudo é colegiado, ou seja, tem a participação de outros organismos. E reitero: a universidade sempre teve e vai continuar tendo todo interesse em esclarecer a questão.


De todo este episódio que ganhou repercussão nacional, a principal lição é que devemos ter mais orgulho ainda da UFSC. Ela é responsável por quase 100% do aprimoramento da indústria, dos serviços e do desenvolvimento do estado, em todas as regiões. Faz pesquisa de ponta, ensino de qualidade e extensão comprometida com a sociedade. É, tenho certeza, muito mais forte do qualquer outro acontecimento.