Gênero

Conheça a exposição que desconstrói binarismo de gênero no vestuário

A Ultraje ocorre entre 3 e 13 de outubro na UnB e promete causar reflexões acerca de padrões de gênero no público

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postado em 04/10/2017 21:22 / atualizado em 05/10/2017 18:50

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 
 
Uma série de características compõem aquilo que consideramos masculino ou feminino na cultura ocidental. Entretanto, nem todo mundo está disposto a aceitar as normas de gênero impostas pela sociedade. Um dos aspectos que vêm sendo discutidos a fim de desconstruir estas regras é o vestuário. Por que a cor rosa geralmente é associada às roupas para mulheres e o azul para homem?

Esse é um dos questionamentos suscitados na exposição Ultraje, cujo tema é a desconstrução do binarismo de gênero a partir da indumentária. A mostra é promovida pela turma da disciplina museologia e comunicação 4, do curso de museologia da Universidade de Brasília (UnB), e segue até 13 de outubro, na galeria da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UnB.

Fotografias, textos, roda de conversa e exibições cinematográficas são o que os visitantes poderão ter acesso ao longo da mostra, que é aberta para todo o público. A proposta foi escolhida e desenvolvida pelos próprios estudantes da matéria. “Exposições curriculares são o momento de experimentação do curso, em que os alunos têm a oportunidade de dialogar com a sociedade”, explica a professora Monique, responsável pela disciplina.

Abertura
 
 

A abertura do evento ocorreu na terça-feira (3) e contou com apresentações de dançaVogue, lipsync (dublagem) e desfile de moda sem padrões de gênero. Juan Enrique de Araújo Batista, 23 anos, aluno do 10º semestre de engenharia florestal da universidade, foi um dos que desfilou. “Os modelos têm consciência da liberdade de se vestir da forma que quiser. Nós queremos que isso alcance aqueles que ainda não se sentem livres para isso ou os que não entendem ou não respeitam essas formas de expressão”, conta o estudante.
 
 
 
Douglas Ferreria da Silva, 21, graduando do 4º semestre de libras português na UnB, também esteve na passarela. Ele confessa ter sofrido ataques preconceituosos por conta das roupas que vestia em outras ocasiões. “Certa vez, íamos eu e uma amiga para uma festa de transporte público. Quando chegamos na Rodoviária do Plano Piloto, fomos surpreendidos por uma série de xingamentos proferidos por transeuntes no local”, lembra. A estudante do 6º semestre de licenciatura sociologia Gabi Kashuu, 20, conta nunca ter gostado de usar salto alto, vestidos ou roupas coladas e hoje veste aquilo que a faz sentir bem. “O seu padrão é você mesmo quem cria”, define.

O lipsync ficou a cargo de Shayenne Aparecida, 28, drag queen e artista plástica. Ela frisa a atual onda de conservadorismo na política como principal motivo para a relevância do tema escolhido para a exposição. “A moda pode ser fútil, mas também tem a possibilidade de ser uma forma de empoderamento”, conta a artista.

Diversidade e contestação

Na tarde desta quarta-feira (4), os visitantes participaram de roda de conversa com o tema “Vivência, estilo e identidade de gênero”. Uma das convidadas foi a professora do Instituto de Psicologia da UnB Tatiana Lionço. “Eu tenho uma apresentação estética conflitante com os padrões de gênero. Já até duvidaram que eu sou professora”, relata a também coordenadora do Núcleo de Estudos de Diversidade Sexual e Gênero (Nedig) do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam).

Tatiana salienta o protagonismo estudantil acerca das discussões sobre gênero na sociedade e lamenta a ausência do assunto nos currículos acadêmicos. “No entanto, a UnB é uma das poucas universidades que têm um Diretório da Diversidade, que tem como objetivo combater as opressões sofridas pela comunidade LGBT na instituição”, pondera.

O fundador e diretor do Instituto Cultura, Arte e Memória LGBT Felipe Areda também marcou presença na roda de conversa. “Vestuário sempre foi um lugar de expressão e diálogo com os discursos dominantes na sociedade, tanto para reafirmá-lo como para contestá-lo”, explica Felipe. Ele desenvolve pesquisa sobre memória LGBT em Brasília durante a ditadura militar e considera manifestações como a Ultraje corajosas, principalmente por conta do atual cenário político do país.

Não é só sobre gênero que a exposição tenta estimular reflexões. Estudante do 6º semestre de museologia e responsável pela comunicação do evento, Paola Angela Carvalho Lira, 30, conta que os alunos da disciplina queriam dar visibilidade para grupos que não têm tanto aceitação em outros espaços. “Eu sou uma mulher cis gorda e posso dizer que também são impostas regras para nossas vestimentas, como a proibição de listras horizontais, por exemplo”, constata.

Serviço

A exposição ainda exibirá filmes sobre o tema em 6, 9 e 10 de outubro na galeria da FAU. Em 11 de outubro, é a vez da oficina de Vogue entreter o público com o estilo de dança. Para mais informações, acesse a página do Facebook pelo link www.facebook.com/exposicaoultraje ou envie e-mail para expoultraje@gmail.com. Pelo instagram @ultrajebrecho, é possível ter acesso ao brechó virtual, feito para arrecadar fundos para a exposição.
 
 
 
* Estagiário sob a supervisão de Jairo Macedo