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Chegou a hora da separação?

A decisão de deixar os filhos gêmeos em turmas diferentes ou não depende de cada caso. As famílias devem avaliar a situação com a escola

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postado em 10/01/2016 10:00 / atualizado em 08/01/2016 20:01

Mariana Nascimento

 

Gerados, nascidos e criados juntos. As semelhanças entre irmãos gêmeos vão além da fisionomia. As crianças se desenvolvem em ambientes idênticos — a mesma casa, família e rotina. Não é raro que também vistam roupas iguais, comam as mesmas comidas e dividam os mesmos brinquedos. Tanto compartilhamento gera uma afinidade enorme e, quando elas chegam à idade escolar, essa proximidade gera dúvidas para os pais: devem separá-las ou deixar que estudem juntas?


Segundo a psicóloga cognitivo-comportamental Tatiane Ribeiro, especialista em atendimento infantil, esse é um dilema muito comum, mas não há consenso entre profissionais e famílias a respeito. Ela ressalta que sempre haverá exceções e cada caso deve ser observado conforme suas peculiaridades, mas que a orientação geral é que os pais matriculem os filhos em turmas diferentes.


“A separação é importante para que não se crie dependência emocional entre os dois, o que seria prejudicial para a interação com outros colegas e grupos de amigos”, declara Tatiane. Segundo ela, manter as crianças juntas na escola pode ser nocivo também para o desenvolvimento da personalidade. “Muitas vezes, colegas e professores generalizam. As crianças são chamadas de ‘os gêmeos’, o que está errado. Elas devem ser chamadas pelo nome, tratadas como seres individuais, com particularidades próprias.”


Valorizar essa individualidade é imprescindível, de acordo com o professor Carol Kolyniak Filho, vice-coordenador do curso de pedagogia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Mas o caminho que ele aponta é outro: a separação não deve ser forçada, e é menos recomendável ainda que os pais estimulem as crianças a ficarem juntas contra a vontade. O correto a se fazer nesses casos, segundo ele, é respeitar o desejo delas.


“A decisão de separar ou não depende de como as crianças se relacionam, qual sentimento que elas têm uma em relação à outra e à própria condição de ser gêmeo. Não penso que seja recomendável dar um caminho único”, afirma Kolyniak Filho.


Ele ressalta que diversos fatores influenciam o bem-estar de gêmeos. “Crianças muito novas não encaram gêmeos de forma natural. Vai depender de como os colegas lidam com isso e, consequentemente, de como a escola trata essa questão. Se os professores se preocupam em observar como ocorre essa relação e se ela afeta o desenvolvimento dos gêmeos, dificilmente vai haver qualquer prejuízo.”


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Em 2014, quando matriculou os gêmeos Pedro e Artur, na época com 4 anos de idade, no Jardim de Infância 4 do Gama, a professora Aline Cristina Freitas, 33, resolveu seguir as orientações da instituição e os meninos começaram a vida escolar em salas de aula diferentes. “Esse era o projeto da escola. Disseram que, se separássemos os dois, seria mais fácil perceber a individualidade de cada um”, lembra Aline. Para escola e família, pareceu uma boa ideia, mas os garotos não reagiram bem.


Aline conta que, mesmo após quatro meses, as crianças não se adaptaram. Pelo contrário, o desenvolvimento foi prejudicado e ela se viu obrigada a interferir. “Eles choravam muito, não queriam ir à escola, começaram a faltar às aulas. Simplesmente não funcionou. Sugeri que fizéssemos a experiência de colocá-los na mesma sala, o que teve um resultado muito positivo”, avalia.


A mãe dos garotos observou que, juntos, eles se desenvolveram e amadureceram muito mais do que no início, quando foram separados. Esse desenvolvimento ocorreu de formas diferentes em cada filho, o que ela considera um sinal de que a individualidade também não foi prejudicada. “Mesmo juntos, eles não tinham o mesmo ciclo de amizades, não interagiam com o mesmo grupo. Quando um adoecia, o outro comparecia às aulas sem problema algum.”



"A decisão de separar ou não depende de como as crianças se relacionam, qual sentimento elas têm uma em relação à outra e à própria condição de ser gêmea. Não penso que seja recomendável dar um caminho único”

Carol Kolyniak Filho,
vice-coordenador do curso de pedagogia da PUC-SP

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