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Formação ampla

A educação integral vai além da extensão do horário: diz respeito ao cuidado com o aluno em todos os aspectos formativos

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postado em 27/10/2015 13:06 / atualizado em 27/10/2015 13:08


Atividades complementares podem ser pedagógicas e recreativas (André Violatti/Esp. CB/D. A Press)
 

 

Atividades complementares podem ser pedagógicas e recreativas


Aumentar a jornada escolar é apenas um dos aspectos da educação integral. Mais importante do que isso é pensar quais atividades serão importantes para o desenvolvimento do estudante nas mais diversas áreas, e não apenas na acadêmica. A escola deve fazer parte desse processo promovendo ações integradas ao conteúdo formal, de maneira interdisciplinar.

“Essa é uma agenda sempre pendente na educação brasileira, desde o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em 1932”, observa a professora Jaqueline Moll, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), conselheira do Conselho Estadual de Educação do Rio Grande do Sul. Jaqueline explica que espelhar os dois turnos, ou seja, oferecer à tarde o mesmo modelo de ensino ofertado pela manhã, não é o ideal. “É preciso pensar nessa articulação entre os turnos, mas, ao mesmo tempo, não pode ser mais do mesmo”, alerta.

Cláudia Darós, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), explica que a discussão sobre a educação integral tem sido retomada na última década no Brasil, e a partir de um conceito mais amplo: educação integral e em tempo integral. Isso quer dizer que não basta passar mais tempo na escola, é importante se preocupar também com a formação completa dos estudantes. A questão afetiva, cognitiva, ética, estética e o aspecto ecológico são alguns dos exemplos elencados pela especialista.

Outro ponto lembrado por Cláudia é que, dentro desse conceito amplo, a família também tem papel importante e, com a escola, completa a formação das crianças e dos jovens. “Alguns países, a exemplo da Alemanha, estão começando agora a discutir (a educação integral). Até então, não era necessário, porque o aparato social da família e dos bairros dava condições de suprir esse conceito. Não precisa ser necessariamente uma escola”, relata. Nos casos em que os parentes não conseguem dar conta da missão, é papel do Estado suprir essa necessidade.

Esse debate teve reflexo inclusive no Plano Nacional de Educação (PNE). A meta 6 do plano determina a oferta de educação em tempo integral em, no mínimo, 50% das escolas públicas. “Nesse movimento de educação integral em tempo integral, o que tem acontecido, no âmbito público, é que as propostas estão ultrapassando o espaço escolar, buscando parceiras e tentando articular instituições públicas e particulares”, diz.

Demanda dos pais

Na Escola Nossa Senhora de Fátima, o período integral foi implantado em 2005, por demanda dos pais que trabalhavam o dia inteiro e precisavam do apoio da escola no contraturno. “Eles ficam tranquilos ao saber que os filhos estão em segurança e, ao mesmo tempo, desenvolvendo atividades que favorecem o crescimento social, físico e intelectual”, avalia a coordenadora-geral da escola, Maria Izabel Dionysio. Depois das aulas pela manhã, os estudantes fazem uma refeição, com cardápio elaborado por nutricionista. Antes de retomar as atividades, há ainda os momentos de higiene pessoal e de descanso.

Logo após, têm início atividades pedagógicas e recreativas, como xadrez, robótica, capoeira, libras, cinema e música, além de atividades físicas, como futsal, vôlei, basquete, judô e balé. “O aluno, nesse período integral, aprende a ter autonomia para o estudo e organizar o seu material”, conta Maria Izabel.

Na avaliação de Ana Clara Scalco Duarte, responsável pelo período integral na escola, é necessário contar com o apoio de profissionais habilitados — psicólogo, psicopedagogo e professores — para oferecer uma educação integral com qualidade, promovendo a autonomia do aluno e contribuindo para que ele saiba refletir, dar opiniões e criar soluções aos problemas vivenciados no dia a dia do convívio escolar. “Com esse atendimento, a criança só tem a ganhar na sua formação como cidadã capaz de promover a vida de maneira autônoma e com responsabilidade”, detalha.

Mudança
O manifesto foi instituído por um grupo de reformistas da educação brasileira, entre eles, o educador Anísio Teixeira, e é um dos marcos do projeto de renovação da educação brasileira. Defendia a escola única, pública, laica, obrigatória e gratuita, valores até hoje considerados fundamentais no sistema público de ensino.


Para saber mais

Dois modelos no DF


Na rede pública do DF, são adotados, hoje, dois modelos de educação integral: o parcial e o integral. No primeiro, apenas alguns estudantes ficam no contraturno — alguns critérios são levados em consideração para a escolha, como alunos beneficiários de programas sociais, com distorção idade-série ou suscetíveis a vulnerabilidades. No segundo modelo, todos os estudantes passam sete ou 10 horas na escola. O site da Secretaria de Educação passa por manutenção e logo trará mais informações sobre o tema.
 
ARTIGO »
 
Por uma educação de qualidade

Não há um conceito único para definir o que é uma educação de qualidade, mas algumas “pistas” podem servir de orientação. Uma delas é pensar nas quatro dimensões: oferta, permanência, aprendizagem e conclusão escolar. A Constituição Federal estabelece que toda criança e todo jovem de 4 a 17 anos deva ter acesso à escola, da pré-escola ao ensino médio, até 2016. Hoje, estão assegurados, em termos de oferta, apenas os nove anos do ensino fundamental — dos 6 aos 14 anos.

A etapa seguinte seria assegurar a permanência na escola. Além disso, é preciso que este estudante passe pela escola aprendendo o que é esperado ao final de cada ano escolar. E, por fim, esperar que este aluno conclua na idade certa a educação básica, de forma que ele possa dar continuidade aos seus estudos, seja por meio de uma educação voltada para o mundo do trabalho, seja mediante o acesso ao ensino superior.

Olhando esses preceitos, o Brasil ainda está longe de assegurar essas quatro dimensões às suas crianças e seus jovens. Considerando que estamos a um ano de atingir a obrigação constitucional de uma oferta educacional dos 4 aos 17 anos, possivelmente o país não vai conseguir alcançar essa meta, já que este percentual de atendimento é de 93,6%. Isto significa 2,8 milhões de crianças e jovens fora da escola. Longe ainda estamos de assegurar a permanência. Levando-se em conta os dados mais recentes de abandono escolar, cerca de 1,3 milhão de alunos abandonam a escola no ensino regular. Isso significa que a cada 24 segundos um aluno abandona a escola no Brasil, o que provoca uma perda de recursos de R$ 7 bilhões de reais ao ano. Um aluno custa ao país R$ 5.500 ao ano.

No campo da aprendizagem escolar, o país vem melhorando de forma sistemática nos anos iniciais do ensino fundamental, tanto em língua portuguesa como em matemática, ao contrário do que se verifica tanto nos anos finais desta etapa da educação básica como no ensino médio. Nessas duas etapas, o país está literalmente estagnado desde 1999 em termos de aprendizagem escolar, e num patamar muito baixo. Para se ter uma ideia, de cada 100 alunos que concluem o ensino médio apenas 9 aprendem o que seria esperado em matemática. E, de cada 100 alunos que iniciam o 1º ano do ensino fundamental, apenas um pouco mais da metade deles termina o ensino médio.

Disso se conclui que o Brasil ainda precisa fazer um grande esforço para oferecer uma educação de qualidade para todas as crianças e todos os jovens, em condições de prepará-los para os novos desafios do século 21.

*Mozart Neves Ramos é diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna

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