Na trilha do Enem

Entenda o projeto formativo do exame nacional e como as escolas podem preparar bem os alunos para essa prova

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postado em 27/10/2015 13:31 / atualizado em 27/10/2015 13:44


Vitor Gonçalves acredita que uma boa preparação precisa contar com aulões, simulados e treino de redação
 

 

Vitor Gonçalves acredita que uma boa preparação precisa contar com aulões, simulados e treino de redação



O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) surgiu em 1998 com o objetivo de medir o desempenho dos estudantes dessa etapa do ensino no Brasil e, assim, oferecer dados para balizar a organização do ensino básico. A partir de 2009, o governo federal passou a utilizar o exame também como referência para o acesso a universidades públicas brasileiras e para aquisição de bolsas do Programa Universidade para Todos (ProUni). Visando a implementação de um sistema único de vestibular, o Enem foi se transformando ao longo dos anos, influenciando, assim, o currículo e a metodologia pedagógica das escolas brasileiras.

“A característica fundamental do Enem, desde sua criação, é ser um exame de competências, noção que assumiu o protagonismo pedagógico e curricular, supostamente em substituição aos conteúdos disciplinares, o que levaria à melhoria da qualidade da educação básica brasileira”, afirma o professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) Claudio Fernandes da Costa, especialista em políticas de avaliação externa dos sistemas de ensino. O pesquisador explica que a ideia, quando da criação do exame, era possibilitar a integração curricular em vez de privilegiar o conteúdo das disciplinas tradicionais, o que acabaria por induzir a formação escolar nesse sentido.

Guilherme Girão, professor do Colégio Olimpo, primeiro colocado no ranking do Enem no Distrito Federal em 2014, acredita, porém, que as escolas da cidade ainda não conseguiram efetivar as mudanças necessárias em seus currículos para acompanhar a lógica da prova. “O Enem exige do aluno interpretação e raciocínio, coisas que não são conquistadas apenas repetindo o conteúdo dos livros didáticos e das provas anteriores”, defende.

Para ele, as classificações de escolas oferecidas pelo exame não podem avaliar, de fato, a qualidade das instituições. “Muito mais importante do que a classificação no ranking é conhecer o que a escola faz para chegar aos resultados. As tarefas cotidianas, dentro e fora de sala, precisam despertar no aluno a vontade de aprender, de ler, de escrever e de conhecer o mundo ao seu redor”, afirma Girão.

Já Claudio Fernandes da Costa lembra que, após duas décadas de implementação dessa política pública, a qualidade do ensino brasileiro continua insuficiente. “Diversas pesquisas e, sobretudo, as experiências escolares reais demonstram que não houve melhoria da qualidade de ensino, mesmo quando levados em consideração medidores oficiais”, critica. Segundo o acadêmico, educação de qualidade refere-se a uma formação multilateral e integral para a emancipação política e humana dos sujeitos e da sociedade e escolas que preparam seus alunos dentro dessa perspectiva obtêm melhores resultados, inclusive em outras seleções e vestibulares.

Aprovação e formação

No Colégio Ideal, segundo colocado no ranking do Enem no DF, a metodologia de ensino é direcionada para o ingresso dos alunos nos mais concorridos vestibulares nacionais, segundo o coordenador de processos seletivos da instituição, Américo Silvano. Para isso, são aplicadas avaliações todos os sábados com o objetivo de simular o modelo dos principais processos seletivos. Além disso, também são disponibilizadas, no contraturno, atividades como monitoria, plantão de dúvidas e um projeto de aulas direcionadas para a compreensão das matrizes do Enem e do Programa de Avaliação Seriada da Universidade de Brasília (PAS/UnB).

Américo ressalta, porém, que a escola busca a formação de um cidadão em sua integralidade. “A preparação para os processos seletivos é apenas um dos nossos diferenciais, pois entendemos que a educação não deve se restringir apenas aos aspectos cognitivos, mas também ao social e ao moral”, esclarece.

Pedro Vitor Gonçalves, 17 anos, aluno do 3º ano do ensino médio no Ideal, está se preparando para concorrer ao Enem, ao PAS e ao vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Embora sinta certa pressão para obter um bom desempenho nas provas, ele enxerga isso como um incentivo para seu crescimento. Na visão do aluno, uma boa preparação não pode prescindir de aulões, semanas de revisão, simulados semanais e produção de redações.

Ele está confiante para enfrentar o vestibular, mas diz que todo esse enfoque no Enem não atrapalhou sua preparação para a vida após o ensino médio. “Aqui no colégio temos esportes gratuitos, escola de artes, coral, xadrez, uma simulação das Nações Unidas e até uma escola de robótica. Coisas que não estão relacionadas às provas, mas à sua formação como cidadão”, diz.
 
Eu acho...
Confira o que alguns estudantes do DF pensam sobre o que uma escola deve oferecer para uma boa preparação para o Enem:

 
“Uma escola, para preparar bem os alunos, tem que pesquisar o modo como o Enem aplica a matéria na prova e formatar suas avaliações no mesmo padrão, para que os alunos se acostumem com esse modo e não estranhem na hora que estiverem fazendo o exame”
 
 
“Para mim, uma boa escola tem que parar de focar somente em aprovar o aluno e ensinar mesmo, para que o aprendizado seja completo. Esse é o papel da escola. Com isso, ela está cooperando para que ele passe no Enem. Mas o aluno também tem que fazer a parte dele, estudando, resolvendo provas anteriores etc.”

 
“Eu acho que a maioria das escolas de Brasília é mais focada no PAS e no vestibular da UnB. Isso está mudando, mas acredito que muitos colégios ainda não estão preparando os alunos para o Enem, pois o conteúdo dessa prova é diferente, menos teórico e mais conectado com atualidades”

 
“Para preparar bem os alunos para o Enem, o mais importante é que a escola faça com que o aluno tenha contato com testes e conteúdos parecidos e não tenha surpresas na hora da prova. É necessário ter bons professores, que conheçam o modelo do Enem, para proporcionar simulados e resoluções de questões de exames anteriores, além de mostrar estratégias a seguir na hora de fazer a prova”
 
ARTIGO »
Enem: equívoco desastroso oficialmente cometido e lamentavelmente reproduzido

Ricardo Gauche*


O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) teve novamente divulgados, em 5 de agosto, desastradamente, os supostos resultados do ano de 2014, trazendo danos profundos e irreparáveis às escolas de todo o país. Ratificando um discurso oficial, travestido de autoridade estatisticamente fundamentada, a imprensa acabou por reproduzi-los de modo absolutamente equivocado e igualmente desastroso.

O equívoco que redunda em desastres anuais refere-se basicamente a uma incongruência estrutural do exame, contida entre os objetivos preconizados por meio da Portaria nº 109, de 27 de maio de 2009. Trata-se do item VI, que explicita ser mais um dos objetivos do Enem o de “promover avaliação do desempenho acadêmico das escolas de ensino médio, de forma que cada unidade escolar receba o resultado global”. A questão elementar é: como um exame individual e voluntário pode ser utilizado para avaliar o “desempenho acadêmico” de uma instituição escolar?

A resposta é simples: não pode. Não deveria ser divulgado um “resultado global”, por ser resultado individual e voluntário! E por que é desastroso? Porque expõe escolas e professores a vexatórias “análises comparativas”, que não se sustentam, a não ser na ignorância de quem desconhece o que sejam avaliação institucional, de sistema, entre outras, e até a própria avaliação de sala de aula, quando a elas comparada.

Entre as dimensões da avaliação educacional, para além da sala de aula, podemos apontar: a avaliação institucional, que possibilita analisar a própria instituição, no que se refere à indicação de sua efetividade no cumprimento da função social a ela atribuída; a avaliação de programas, cujo foco são os objetivos e as estratégias atinentes ao programa avaliado, que tem o fim de corrigir ou de aperfeiçoar aspectos identificados em um sistema de ensino; a avaliação de currículo, que visa analisar o valor psicossocial do que é proposto e estudar a efetividade dos processos relativos à sua implementação; e a avaliação de sistemas, por meio da qual sistemas de ensino podem ser analisados, com vistas a gerar subsídios para políticas públicas na área educacional — é o caso do Saeb, da Prova Brasil e do Pisa.

O Enem não se enquadra em nenhuma dessas dimensões, pela natureza mesma de sua concepção e execução. É nefasta a iniciativa do Ministério da Educação em divulgar, anualmente, um resultado que supostamente se refere a escolas, que gera um ranking enganoso de escolas, como se fosse possível comparar projetos pedagógicos e instituições escolares, utilizando unicamente o desempenho individual de estudantes que se dispuseram voluntariamente a participar do Enem.

O mais lamentável é constatar que o suposto ranking é sempre “respaldado” por muitos considerados especialistas da Academia, que acabam por ratificar mitos preconceituosos que têm interesse claro para um segmento do “mercado educacional”.

Até quando se propagará um desejo de valorizar a escola, os professores, enfim, a educação, neste país, cometendo desatinos dessa ordem, especialmente por meio de quem deveria zelar, institucionalmente, para que tal desejo fosse devidamente alcançado?

*Ricardo Gauche é professor do Instituto de Química e coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Avaliação no Ensino de Ciências da UnB