Enem 2017
Apresentado por:

Memes podem cair na prova de 2017

Exame é vanguardista no uso de novas linguagens e deve surpreender com gênero de texto que é febre nas redes sociais, garantem professores

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 11/09/2017 07:00 / atualizado em 11/09/2017 14:16

 

 

As tradicionais brincadeiras que pipocam na internet após a aplicação do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) podem não ser mais os únicos elementos que ligam a temida prova e os divertidos memes. Isso porque a “zoeira” on-line, tradicional nos domingos pós-avaliação, pode figurar agora também entre as 180 questões apresentadas  — de modo bem diferente, é claro, e ancorada no conteúdo crítico exigido nos quatro testes objetivos. É o que garantem os professores de ensino médio e cursinhos, sempre atentos às novas linguagens passíveis de serem utilizadas no exame. De acordo com eles, o Enem é a mais inovadora das seleções que promovem o ingresso ao ensino superior e costuma pregar essas peças. “Na matriz de habilidades exigidas, há abertura clara para esse tipo de texto, então as probabilidades de caírem este ano são bastante reais”, afirma Thiago Braga, professor e autor do material de português do Sistema de Ensino PH.

 

Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press


“O meme, enquanto gênero fundamentalmente digital, se encaixa perfeitamente no conteúdo da prova e é possível encaixá-lo em diversas questões”, esclarece Josino Nery, conhecido entre os vestibulandos como Jota, professor de português das turmas de ensino médio do Centro Educacional Sigma. Maria Habibe, 17 anos, acredita que esse tipo de humor e o Enem têm tudo a ver. “É um exame para o Brasil inteiro, todos têm acesso e possibilidade de interpretá-los”, acredita a aluna de Jota. Maria usa várias redes sociais. A favorita é o Twitter, mais voltada ao entretenimento, segundo ela. Para ler compartilhamentos de textos mais relevantes, ela afirma que o Facebook pode ser o melhor local. Bruno Fracaro, 17, colega de Maria, concorda. “O brasileiro em geral tem intimidade com o assunto. Afinal, adoramos redes sociais e somos muito bem-humorados”. Entre as 30 habilidades exigidas dos candidatos, está a compreensão de textos criados e veiculados nas mídias digitais. Em outras edições, o exame formulou questões usando postagens de blog e e-mails, por exemplo. Quem sabe não chegou a vez dos memes?

Inovações
“Essa avaliação tem a característica peculiar de estar ligada às novíssimas formas de comunicação, desde que despertem o senso crítico e o poder de leitura dos candidatos”, contextualiza o professor Raphael Reis. Ele leciona no Estratégia Concursos e, no conteúdo transmitido pelo cursinho on-line, incentiva os alunos a permanecerem conectados quando o assunto é interpretação e produção de texto. “É preciso ficar atento ao fato de que o texto está no jornal impresso e nos livros, mas está  nas redes também”, afirma o professor, que ministra aulas de filosofia, sociologia e ciências humanas para redação e acredita na funcionalidade dos memes em todas essas áreas.

Para o Enem de 2017, os professores apostam as fichas na prova de linguagens, códigos e suas tecnologias como a mais passível de utilizar o humor das redes sociais na elaboração de questões.  A única exceção, acreditam, é a redação, que guarda particularidades. Entre elas, a exigência não só de argumentação sólida, mas também de proposição de intervenção na vida social. “Descarto completamente a redação porque, dentro desse método, um meme não se encaixaria bem”, observa o professor Jota.

Entender o tema
Para Thiago Braga, essa forma de comunicação pode ser definida essencialmente pela hibridez entre os estilos verbal e não verbal. Viktor Chagas, professor de história, política e bens culturais na Universidade Federal Fluminense (UFF), divide em mais elementos o conceito. “Os memes de internet são um conjunto de conteúdos digitais, disseminados por meio das mídias sociais ou outras ferramentas de comunicação eletrônicas. Eles apresentam variações em torno de temas, comportamentos ou valores compartilhados coletivamente por um determinado grupo”, detalha. O uso do humor é constante, mas não é regra.

Unindo, de modo dinâmico, fotos, vídeos e texto escrito, um bom meme tem a capacidade de se alastrar de modo incontrolável pelas redes sociais. Muitas vezes, tomam forma de uma piada banal, é verdade, mas podem ser também uma rica ferramenta de comunicação. “É tudo que viraliza, é o novo texto-chave no cotidiano dos jovens. Há muitas dessas brincadeiras simplórias, bobas, mas há também aquelas que apresentam enorme potência de linguagem”, explica Braga, lembrando que data de séculos o hábito humano de unir imagem e palavra. O meme é, de algum modo, a derivação on-line dessa tradição.

O professor Braga vem inserindo progressivamente esses materiais on-line na sala de aula, de modo a apresentar produções que, para serem plenamente compreendidas, exigem domínio de política, geografia, história do país e fatos do jornalismo corrente. É só lançar uma imagem no projetor e as discussões dão pano para manga. Afinal, os memes se aproximam do universo do hipertexto, “cujas informações apresentadas ao leitor se dão de forma não linear”. Conceito ligado às tecnologias da informação e à escrita da internet, o hipertexto puxa diversos fios condutores de interpretação. Um dado leva a outro dado e, na discussão em sala, cada aluno traz referências pessoais para a discussão.

“Hoje temos memes que saem da internet e passam a figurar em cartazes de manifestações políticas ou na linguagem publicitária, na comunicação corporativa de grandes empresas ou em questões de provas e concursos”, diz Viktor Chagas. Em relação às provas, ele afirma notar algumas questões de simulados que investem nos memes, de modo a preparar o aluno para essas formulações em exames como o Enem. “Entender um meme mais complexo exige uma carga de referencialidade grande, vai depender do estudo e da capacidade de leitura de cada um”, sintetiza Thiago Braga. Não é tão simples quanto parece, portanto. “Quem nunca viu um meme no Facebook e, na caixa de comentários, encontrou um desavisado perguntando: alguém me explica?”

 

Variação linguística

Há ainda a possibilidade de o Enem abordar a linguagem das redes sociais sob o ponto de vista de variação linguística. De autoria geralmente anônima e fragmentada, os memes trazem diversos sotaques e aceitam com naturalidade pequenas subversões das normas da língua portuguesa. “Várias dessas peças de humor trazem incoerência verbal proposital ou usam de pleonasmo deliberadamente. Isso pode conotar ironia, metáfora, paradoxo e identidade de determinados grupos sociais”, exemplifica Pabllo Vieira, professor de português do Alub.

 

Ele cita como exemplo o meme a seguir, de puro entretenimento, cujo humor vem de reportagem em vídeo que recentemente viralizou na internet. Originalmente, a fala da entrevistada – legítima representante do grupo dos “rolezeiros” - é bastante informal. Por conseguinte, também o autor anônimo do meme se deu ao direito de “errar” o português, substituindo o “fechar” pelo coloquial “fechá”. Embora de puro entretenimento, a concisão com que atinge o leitor impressiona.

 

 

 

Memes: hibridez, concisão e coloquialidade

Sem intimidade com os códigos das “rolezeiras”, o estudante Bruno Fracaro, 17, teve dificuldade inicial para compreender o meme. “Como nunca vi o vídeo, não entendi bem o humor. De qualquer forma, dá pra perceber que está errada a grafia, mas é um erro que entendo como proposital, dá pra saber bem”, afirma o jovem.

 

Thiago Braga propõe também um meme, com fundo histórico e artístico, cuja plena interpretação depende de conhecimentos do cubismo, importante vanguarda da arte europeia.

 

 

 

“A habilidade 13 da matriz de linguagens do Enem”, situa ele, “determina que o aluno saiba 'Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos". Desse modo, padrões estéticos do cubismo estão insinuados em imagem e texto. Compreendê-los poderia ser um tipo de desafio proposto pelo Enem. "Em termos de linguagem, muitos memes são construídos em cima de fórmulas textuais (‘Você pode substituir X por Y’) ou de soluções imagéticas que combinam elementos textuais e gráficos”, acrescenta Viktor Chagas. Ter ampla referência no universo da cultura pop e do entretenimento também ajuda muito na compreensão. 

 

Memes e charge

Em termos de estrutura textual, Thiago Braga acredita que meme e a charge têm tudo a ver. Afinal, a charge, que costuma ser veiculada pela imprensa e ter por tema fatos recentes de conhecimento public, também mescla o verbal e o não-verbal. “A diferença está no poder de difusão. O meme é capaz de se alastrar mil vezes mais rápido”, diz. Na visão de Raphael Reis, trata-se de uma versão moderna da charge. “Tanto um como outro pegam elementos do humor para fazer relação com uma tragédia humana, social”, sintetiza.

 

Jota é mais cauteloso nessa aproximação de gêneros. Ele enxerga semelhança quando o conteúdo do meme sai da piada pueril, de entretenimento, e alcança caráter crítico, incisivo e mordaz. “Diferente de outros formatos em quadrinhos, como cartum e tiras, a charge é essencialmente política. Não perdoa nada, nem a esquerda, nem a direita", contextualiza o professor do Sigma. 

 

Virou até tema de museu

Engana-se, porém, quem pensa no meme de internet como algo estritamente recente. Não é bem assim. A “novidade”, garante Viktor Chagas, acumula quase 50 anos de desenvolvimento. Originalmente, o conceito de meme foi desenvolvido ainda na década de 1970, em um paralelo controverso com a ideia de gene. “Isto é, assim como os genes carregam nossa herança biológica, os memes carregariam nossa herança cultural através das gerações e de pessoa para pessoa. Nessa acepção, o meme é uma ideia ou um comportamento propagado”, explica o pesquisador. O termo foi usado pela primeira vez pelo renomado pesquisador Richard Dawkins no seu bestseller O Gene Egoísta.

 

Pensando na longevidade e consistência do tema, Viktor Chagas agregou um grupo de alunos de graduação, pós-graduação e professores de estudos de mídia e comunicação da UFF em torno do projeto do Museu de Memes (ou #MUSEUdeMEMES, na grafia hiperconectada do grupo). Divertido e colorido, o museu (acessível em www.museudememes.com.br) guarda acervo de referência para pesquisadores, apresenta abalizadas referências bibliográficas e organiza eventos (os chamados #memeclubes) em torno do assunto.  

 

O volume de referências mapeadas pelo museu impressiona: há mais de 650 livros, artigos, teses e dissertações sobre o tema em todo o mundo. “No início, dado o caráter inovador do objeto, ele é capaz de causar algum estranhamento. Mas aos poucos e diante do reconhecimento de que este é um gênero comunicacional que chegou para ficar, as resistências foram pouco a pouco quebradas”.

“Quando surgiu lá no século XIX”, relembra Thiago Braga, “a charge sofreu preconceito semelhante, como se o modo de veiculação tornasse a mensagem sempre fútil. E hoje a charge continua ainda está aí”.  

 

 

Você concorda que a banca examinadora cobre o humor da internet?

Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press

 

 

 

 

 

Clarice Maria Oliveira, 16 anos
“Sou a favor. O Enem pega linguagens do nosso dia a dia e traz para a prova. É positivo, além de descontrair no momento de tensão da prova.”

 

 

 

 

 

 

Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press

 

 

 

 

 

Pedro Marques, 17 anos
“Sou contra. A avaliação é séria e certos tipos de humor não atingem o Brasil inteiro. Prejudica alguns grupos.”

 

 

 

 

 

 

Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press

 

 

 

 

 

Júlia Zama, 17 anos
“Pode cair. Para nós, é mais fácil porque está próximo da nossa realidade, temos contato todo dia.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Juliana dos Anjos, 17 anos
“O Enem gosta de unificar o país e os memes se aproximam de todos. PAra entender um meme, muita cultura pop pode ser a melhor pedida.”

 

 

 

 

 

 

Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press

 

 

 

 

 

Thomas Everton, 17 anos
“Virou  febre no mundo virtual, influencia no comportamento das pessoas e é um modo dinâmico de comunicação, tem muita coisa implícita nele para entender.”

 

 

 

 

 

 

Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press

 

 

 

 

 

Valério Shcherbytskyi, 18 anos
“Na prova de Linguagens, tem todo tipo de comunicação, então por que não os memes? Muito legal!”