Enem 2017
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Como funcionam as novas bancas aplicadoras do exame

A saída do Cebraspe como instituição examinadora do Enem dificilmente trará alterações no formato da prova. O Inep continua responsável pela elaboração das questões

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postado em 11/09/2017 07:00 / atualizado em 11/09/2017 10:38

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

 

 

Uma novidade do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano traz dúvidas para professores e estudantes desde abril: a prova não será mais aplicada pelo Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos (Cebraspe, antigo Cespe). Três bancas passarão a ser responsáveis pela operacionalização do certame: Fundação Getulio Vargas (FGV), Fundação Cesgranrio e Fundação para o Vestibular da Universidade Estadual Paulista (Vunesp). No entanto, a avaliação continuará sendo elaborada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A entidade garantiu, em e-mail enviado pela Assessoria de Imprensa, que não haverá mudanças no conteúdo e no estilo do teste. Se, por um lado, isso pode tranquilizar os 6,7 milhões de candidatos do Enem, por outro lado existe uma preocupação de que haja alterações nos critérios de correção, pois as bancas serão responsáveis por esse trabalho, seguindo os parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Educação (MEC).



Para o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe), Álvaro Domingues, mudanças na prova são improváveis. “Não vejo margem para que o consórcio possa aplicar modificações profundas”, afirma. A preparação da estudante do Centro Educacional Sigma Isabelle de Castro, 17 anos, é intensa. Ela estuda todos os dias até depois das 22h, se revezando entre os conteúdos das avaliações do colégio, do Programa de Avaliação Seriada (PAS) e do Enem. A percepção de Isabelle é de que poderá haver maior rigor na correção, o que cria expectativa. “Assim que saiu a notícia de que as bancas mudariam, pesquisei na internet as características dessas empresas. É claro que gera ansiedade”, opina. Apesar do anúncio de novas avaliadoras, a escola de Isabelle vê uma grande possibilidade de permanência nos critérios adotados.

“Será muito mais uma diagramação diferente do que qualquer mudança profunda. Tranquilizamos os estudantes em relação a isso. Pode ser que haja uma avaliação um pouco mais puxada, mas isso é apenas especulação”, resume o coordenador da Secretaria de Cursos do Sigma, Marcelo Afonso de Oliveira. O professor de redação Eli Carlos Guimarães conta que não houve alterações no conteúdo ensinado em sala de aula. “Acreditamos que o corpo técnico que coordena a correção continuará o mesmo. Além disso, a documentação que estipula os parâmetros é pública e amplamente divulgada. Por isso, o rigor é que pode variar: aumentar ou diminuir”, diz. Mesmo assim, administrar a tensão dos estudantes demanda esforço. “O terceiro ano sofre uma pressão natural”, comenta.

Quais são as avaliadoras?
O Inep informou, por e-mail, que o rompimento com o Cebraspe ocorreu após a constatação de “inconsistências jurídicas”. O contrato com a FGV, a Fundação Cesgranrio e a Vunesp tem validade de um ano e poderá ser renovado. As assessorias de imprensa das três empresas formadoras do consórcio não quiseram se pronunciar sobre o assunto. Conheça o perfil das novas contratadas:

Fundação Cesgranrio
Surgiu para organizar vestibulares do Rio de Janeiro, em 1971. Recentemente, a entidade promoveu concursos para Banco do Brasil, o IBGE e a Transpetro. Também oferece programas de mestrado. Informações: www.cesgranrio.org.br.

Fundação para o Vestibular da Universidade Estadual Paulista (Vunesp)
Criada em 1979 para organizar o vestibular da universidade, promove também concursos públicos. É formada por professores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e atua principalmente em processos seletivos no estado de São Paulo. Informações: www.vunesp.com.br.

Fundação Getulio Vargas (FGV)
Quando foi fundada em 1944, tinha como objetivo preparar pessoal qualificado para as administrações públicas e particulares. Conhecida por divulgar indicadores econômicos e oferecer cursos de pós-graduação, a FGV atua também na área de concursos públicos. A fundação presta  assessoria técnica e consultoria a empresas. Informações: portal.fgv.br.

Métodos de estudo

“Estimulo entre as turmas uma intensificação nos estudos, mas não tenho controle sobre a pressão familiar ou sobre o nível de cobrança que cada um tem consigo mesmo. Cabe ao corpo docente incentivar uma preparação com mais qualidade em vez de quantidade”, completa o professor Eli Carlos Guimarães. Ele acrescenta que a preocupação em relação à mudança na organização da seleção não pode ser amplificada pelos professores.  A estudante Laura Moura, 17, garante que não importa qual será a banca. “Estou me preparando mais para o PAS porque acredito que é mais fácil entrar em economia na UnB, o curso que quero, por meio dele. Mas também dedico tempo para o Enem. Se o aluno está com medo da mudança, talvez realmente tenha de estudar mais para se sentir preparado”, afirma.

O estudante Matheus Abtibol, 17, aposta nos moldes de avaliação conhecidos.  Até por isso, segue um dos métodos mais difundidos entre os candidatos: o estudo baseado em provas de anos anteriores. “Assim eu posso ver onde estou errando e quais são minhas maiores dificuldades. Mas, se houver uma mudança muito grande, vai ser novidade para todo mundo, então todos os candidatos estarão nivelados”, supõe. A forma de se preparar é a mesma de Kalyani Wickert, 17. “A escola oferece apostilas específicas para o Enem. Eles são minhas maiores fontes e eu me organizo para ler sobre cada uma das matérias”, explica. Já a estudante Juliana Degani, 16, sistematizou o uso de exames passados com ainda mais precisão. “A cada dia, repasso cinco perguntas aplicadas anteriormente, dividindo por campo de conhecimento.  Assim consigo bastante foco naquilo que preciso melhorar”, avalia.

Expertise perdida?
O Cebraspe, tradicional aplicador do Enem, desenvolveu, ao longo dos anos, métodos para a correção das redações. Havia um software que monitorava os parâmetros usados pelos avaliadores. A professora de português e mestra em literatura Lucília Garcez, que fazia parte da equipe que corrigia textos de edições anteriores, acredita que as novas bancas responsáveis pela correção têm a missão de se adaptar às especificidades da prova. “Levamos muito tempo para estabelecer os critérios atuais e criamos o sistema que analisava o trabalho dos avaliadores. Mas acredito que é possível alcançar um nível similar”, diz.

Comentário
Por Anderson da Mata*

 

Arquivo Pessoal
 

 

Como responder às questões de literatura?

A resposta é óbvia: só se sai bem em uma prova de literatura quem lê – e lê muito. Nesse caso, trata-se não só da leitura de poemas, romances, contos, biografias, memórias, crônicas e quadrinhos,  mas também de textos não literários, pois a capacidade de relacionar a escrita ficcional com outros campos de conhecimento é evidente em duas das três habilidades que o Enem requer. Na primeira delas, avalia-se a capacidade de se estabelecer relações entre a obra e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político. Desse modo, a avaliação cobra a relação do texto com a história, por meio da escolha de um grande marco no tempo, como a 2ª Guerra Mundial, ou um período, como a Primeira República. É possível ainda que o exame cobre conhecimentos da própria literatura, como o realismo e, então, confronte-os com uma obra à qual faça referência. Portanto, é a leitura que vai permitir a identificação dos elementos históricos ali presentes.

Para responder a esse tipo de item, deve-se observar com cuidado as informações dadas pelo próprio comando, que situam o participante no contexto, e, a partir daí, organizar mentalmente tudo o que se conhece sobre aquele período. Em seguida, deve-se voltar ao texto e procurar nele as possíveis referências ao momento histórico e responder ao item. Devido às inúmeras obras de autores modernistas que têm sido utilizadas no Enem, assim como textos produzidos em tempos de ditadura militar e redemocratização, os fatos citados tendem a ser aqueles ocorridos no século 20. No entanto, deve-se dar atenção, também, para o século 19, pois, não raro, os itens partem de textos clássicos do romantismo, do realismo e do naturalismo.

Valores sociais e humanos

A outra habilidade que cobra a relação entre o texto e outras áreas do conhecimento, exigindo leitura de mundo, é a de reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.  Nesse caso, normalmente,  cobra-se a compreensão global do que se lê e a identificação de qual é o “valor humano” tratado ali. Não se deve deixar de lado a relação com a história, pois a análise do contexto de produção de uma obra tem relação direta com os temas tratados, mas o enfoque do item será provavelmente de fundo mais filosófico.  A variedade de problemas a serem abordados é extensa, mas, devido à prevalência de conteúdo do século 20 no exame, grandes questões sociais, como a desigualdade, a pobreza, a discriminação, ou existenciais, como o amor e a solidão, são esperadas.

Toda leitura de uma produção literária pressupõe o domínio de elementos da linguagem, como técnicas de descrição e narração para a construção de espaço-tempo e personagens, emprego de figuras de linguagem, entre outros aspectos.  A análise dessa dimensão mais estrutural é outra das três habilidades que avaliam a leitura de textos literários no Enem. O que se pretende avaliar aí são os recursos de linguagem empregados pelos autores, por meio da análise da estrutura, em relação à concepção artística do próprio autor ou de um estilo de época. A estratégia para a leitura desses aspectos está na identificação dos principais recursos de linguagem empregados. É preciso analisar especificamente o que o comando do item pede: pode ser uma escolha de vocabulário, o emprego de uma expressão, a organização dos versos de um poema, a caracterização de uma personagem, o conjunto de imagens evocadas, enfim, alguma técnica usada. Mais uma vez, o conhecimento do contexto de produção do texto, assim como a identificação de sua temática contribuem para a análise, pois a estrutura muitas vezes depende do tema e está relacionada a um momento histórico ou mesmo ao estilo de um escritor. São bastante comuns na prova, por exemplo, itens que selecionam um estilo de época para a análise dos procedimentos de construção do texto que são coerentes com ele. A literatura do século 20, seja modernista ou contemporânea, tem sido cobrada com mais frequência nessa habilidade, porém é comum que os itens transitem entre diferentes épocas, relacionando a um período procedimentos caros que são reutilizados por um autor mais recente.

Histórico, estrutural ou temático

Para fazer uma boa prova de literatura no Enem, portanto, o fundamental é, além de  ter lido muito, entender os comandos com calma e compreender qual é o enfoque principal de análise requerido: histórico, estrutural ou temático. Embora essas diferentes análises sejam sempre feitas em conjunto, cada item vai cobrar uma delas, principalmente, deixando as demais em segundo plano, mas nunca ausentes. Como a prova é extensa, identificar a habilidade economiza o tempo do participante e permite um retorno pontual ao que já foi lido para analisar o aspecto específico e, em seguida, escolher, entre as opções, aquela que é a correta. Não são todas as habilidades de leitura desenvolvidas na vida escolar que serão avaliadas, pois o formato de itens de múltipla escolha limita o que pode ser verificado. A atenção do leitor pode se dispersar por diferentes aspectos, porém, na relação com um item de prova, há um direcionamento para um tipo de leitura que pode até não ser aquela que mais agrada ao participante, mas é preciso compreender que é aquele tipo de leitura que deve ser feito ali naquele momento.  A prova do Enem não dá conta de todas as possibilidades de leitura e isso é ótimo. Primeiro, porque a imaginação não pode nem deve caber em uma prova. Segundo porque, se há limites e se é possível prever o que pode estar na prova, a tarefa de se preparar para ela é muito menos complicada do que poderia parecer à primeira vista.


* Anderson da Mata é doutor em literatura e professor de teoria literária da Universidade de Brasília (UnB).