Enem 2017
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O caminho das pedras, por quem o atravessou

Ex-candidatos contam como conseguiram boas notas e alcançaram vagas no ensino superior por meio do exame do Ministério da Educação. Disciplina e planejamento são fundamentais para o sucesso

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postado em 18/09/2017 07:00 / atualizado em 18/09/2017 11:52

 
 
Atingir uma boa média no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) que possibilite o ingresso a uma boa instituição de ensino superior não é tarefa fácil. Para ajudar o candidato prestes a fazer as provas, que ocorrem em 5 e 12 de novembro, o Correio foi direto à “fonte” — estudantes que tiveram desempenho notável em exames recentes e estão, pela via do Enem, frequentando os cursos dos sonhos deles. Na experiência de cada um, está a certeza de que não se consegue nada senão pela autodisciplina e vigorosa dedicação. Nem por isso deve-se abdicar de um tempo de descanso regular e das leituras do cotidiano.
 
“Nunca me matei de estudar, mas não deixava as metas estabelecidas por mim não serem cumpridas. Eu sabia de antemão o quanto precisava me dedicar a cada dia e me mantinha atento”, lembra Fábio Serra, 18 anos. No último exame, ele teve desempenho brilhante na prova de matemática e suas tecnologias, alcançando média de 991,5, a maior de todo o país. Com a nota, o estudante paraibano conseguiu o primeiro lugar em medicina na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
 
A facilidade com os números vem do início do ensino médio. Antes das ciências de saúde, Fábio chegou a cogitar fortemente algum curso de engenharia. “Comecei a me preparar para os vestibulares com foco nos cálculos — o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) era a meta principal.” No meio do caminho, mudou de ideia e retomou o sonho antigo da medicina. “É uma área de imensas possibilidades e, em tudo que aprendi até aqui, existe alguma forma de aplicar socialmente”, diz.
 
Arquivo pessoal
 
Para ele, há dois pontos que garantem ao candidato uma boa colocação. “Primeiro, é importante ter feito o máximo possível de provas de edições anteriores. Além disso, é bom desenvolver métodos para se manter concentrado durante toda a prova, que é exaustiva”, elenca. Neste quesito, simulados completos — aplicados nos mesmos formatos de tempo do Enem — ajudam muito. “A reta final passei fazendo só questões para a prova, estando bem concentrado quanto ao tempo. Ele pode ser o grande inimigo.”
 
Paralelamente à graduação, Fábio Serra presta assessoria em cursinho especializado em medicina. O trabalho dele é acompanhar passo a passo os candidatos, numa espécie de coaching. “Ajudamos a administrar a pressão, que vem dos familiares e das escolas, mas especialmente de si mesmo. É difícil saber em que nível está e o feedback de alguém qualificado pode ensinar o caminho das pedras.”

Maratona

“Nunca sofri extremos. Eu saía, namorava, via os meus amigos. Foi trabalhoso, mas não foi estressante e a gratificação final não tem preço!”, descreve Bernardo Guimarães, 18, ex-aluno do Centro Educacional Sigma e hoje no primeiro ano da graduação em medicina pela Universidade de Brasília (UnB). Ele conta que fez o exame nos três anos de ensino médio e, no terceiro, aquele que era para valer, alcançou 940 na redação e 830 nas provas objetivas. Nada mal, visto que a média total no Brasil foi de 505 pontos na última edição das provas. No Distrito Federal, os números sobem um pouco: no geral, os estabelecimentos de ensino brasilienses fizeram 545 pontos (506 na rede pública e 576 na particular.
 
Minervino Junior/CB/D.A Press
 
 
Para chegar lá, Bernardo conta que estabeleceu objetivos claros e desenvolveu plano de estudo vigoroso. A intenção inicial dele era cursar medicina em São Paulo, em instituições como Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Eu tinha em mente que a cada ano precisava me dedicar mais e mais. No primeiro, me esforcei bastante, no segundo, um pouco mais e, no terceiro, me organizei para os estudos do Enem e ainda prestar vestibulares pelo país.”
 
O universitário conta que, faltando dois meses para a avaliação — ponto em que estamos hoje — se concentrou na revisão de todo o conteúdo. Ele garante que esta é a dica mais valiosa para os candidatos. “O que sugiro é revisar muito algumas fórmulas de matemática e de física aprendidas nos dois primeiros anos, que as pessoas esquecem. Para outros conteúdos, como filosofia, história e sociologia, é melhor pegar uma ideia mais geral dos pensadores e dos fatos. É necessário ter critério até nessa hora da revisão, senão você se perde”, diz. “Cada um precisa desenvolver o seu método de manter o foco. O ideal é que a pessoa chegue nesse ponto já sabendo como é o ritmo dela e mantê-lo. Saber usar o fim de semana, para não perder o foco, também é fundamental.”
 
A rotina de Bernardo envolvia as manhãs em sala de aula e estudos na própria escola no período da tarde. Chegava a passar sete horas imerso nos livros e, na volta para casa, arriscava mais duas. Nos fins de semana, mais quatro horas de preparação por dia. Contudo, reproduzir tal rotina pode não ser o ideal para todos. “É muito relativo. Para mim, sentar na cadeira e revisar conteúdo o dia todo não é problema, mas vejo que meu irmão mais novo não tem a mesma facilidade de concentração”, exemplifica. Para descontrair, nos momentos finais pré-exame, Bernardo procurava algum tempo para jogos de videogame e passeios à noite com a então namorada e amigos, organizando encontros leves da turma na casa de alguém.

Inclusão

A vida acadêmica de Clara Oliveira, 22, é prova de que as notas no exame nacional têm longo alcance de resultados. Ela fez o ensino médio em escolas de Aracaju (Sergipe) e Unaí (Minas Gerais) e chegou a Brasília para cursar relações internacionais na UnB, vaga conseguida por meio do Programa de Avaliação Seriada (PAS). Contudo, a dedicada aluna foi se encontrar mesmo no curso de psicologia do Centro Universitário Iesb, em que entrou pelo seu belo desempenho — 980 pontos em redação e mais de 800 em matemática — no Enem de 2011. “Com essa nota, consegui chegar ao que queria.  Aprendizado é muito pessoal mesmo, tem que procurar o estilo de estudo, testar as técnicas e ver qual a melhor para você.”
 
O Iesb, como diversas instituições particulares, oferece bolsas para quem teve desempenho de excelência. Neste ano, 20 pessoas receberam financiamento integral por meio de suas notas no Enem. “Dentre elas, fiquei em segundo”, orgulha-se Clara Oliveira. “Um centro universitário precisa ter estratégias para receber bons alunos. Eles são sempre bem-vindos. Nós queremos não só que eles entrem, mas melhorem a qualidade dos cursos em que estão inseridos”, afirma Eda Coutinho, reitora do Iesb.

Ritmo de estudos

Candidato também de desempenho exemplar, Ângelo Tianwan Chen, 21, egresso do Colégio Mackenzie, hoje faz duas graduações simultaneamente. Pela UnB, está no 8º período de engenharia química, curso em que entrou por meio do PAS. No Iesb, faz ciências contábeis, graças à média no Enem, que bateu mais de 900 em matemática e redação. “Eu também tive bolsa no colégio e, para mantê-la, tinha que me dedicar sem parar e deixar minha nota lá no alto, o que me ajudou na hora de prestar o exame nacional. É preciso ter ritmo e não deixar cair”, afirma.
 
Ângelo e Clara afirmam ter uma facilidade natural com matemática. “Eu me lembro de que sempre me dava bem, especialmente porque respondia questões de outras edições. É uma técnica muito boa de situar o desempenho pessoal e saber se está indo bem. Fiz muitos simulados também e fui direcionando meu conhecimento e entendendo a melhor maneira de fazer a prova”, afirma ela. Ângelo, por sua vez, dá aulas particulares (de matemática, biologia, física e química) a alunos de ensino médio e trata de passar aos estudantes o aprendizado e gosto pelo texto. “A dinâmica de incluir temas do dia a dia deve fazer parte do ensino da matemática. Ajudo os candidatos a chegarem aos resultados através de uma boa leitura da questão. Nem todos têm a capacidade de abstração de um especialista no assunto e tornar o pensamento matemático mais palpável ajuda bastante.”