Enem 2017
Apresentado por:

Ciências Humanas e suas tecnologias

O que está em pauta está na prova

Especialistas comentam os temas de atualidades passíveis de serem cobrados no Enem 2017. É preciso atenção com as questões que dizem respeito à diversidade sociocultural

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postado em 25/09/2017 07:00 / atualizado em 25/09/2017 19:23

 

 

O que pode cair no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é sempre uma incógnita a ser decifrada pelos candidatos. Contudo, saber de tudo um pouco do que está sendo discutido na sociedade e se manter informado não faz mal a ninguém. Uma visão de mundo humana e social se faz necessária. Pensando nisso, o Correio perguntou a professores e especialistas quais são os temas latentes, passíveis de caírem na prova de ciências humanas e suas tecnologias e redação, mas que também podem extrapolar os limites dessa área e serem inseridos, direta e indiretamente, em todas as 180 questões objetivas cobradas.

 

“O slogan do exame é ‘um ensaio para a vida’. Por isso, nele vai constar sempre o que está próximo da realidade dos candidatos”, afirma Ademar Celedônio, diretor de ensino do Sistema Ari de Sá (SAS). Em 2017, o SAS divulgou pesquisa que mapeia, por assuntos abordados, todos os exames de 2009 a 2016, totalizando mais de 3 mil questões (clique aqui e confira levantamento completo). Em história, figuram entre os cinco tópicos mais pedidos a história contemporânea, política e dos movimentos sociais. Em geografia, os conteúdos mais exigidos são  as questões agrária, meio ambiente,  economia e globalização. Filosofia e sociologia, por sua vez, giram em torno de ética, justiça, democracia, cidadania, mundo do trabalho e ideologia.

Professor de atualidades do curso Poliedro, Daniel Pereira Leite reafirma o caráter sociocultural do exame. “Sempre envolve, de alguma forma, os direitos humanos. Isso, por si só, é polêmico, mas instigante.”

Preparação
Professor de filosofia e atualidades no curso ProEnem, Leandro Vieira enxerga as questões de ciências humanas como as mais imprevisíveis. “Isso porque o conteúdo dessas matérias tem aplicação em diversos temas, desde a história da arte até  biologia e química”, explica.  A melhor forma de  assimilar esse conteúdo pulverizado é se manter atento às mais diversas mídias. “Está tudo muito ligado ao que é relatado nos jornais”, atesta Cynthia Conte, professora de biologia do Centro Educacional Sigma. Em live no Facebook do Eu, Estudante, ela deu o exemplo do vírus da zika, que foi causa de grandes transtornos na sociedade e se mantém em pauta ainda hoje.

“Sinto que os jovens que fazem o Enem e vestibulares atualmente formam uma geração bastante inconformada”, intui Gabriela de Araújo, coordenadora de redação do curso Poliedro. O peso com que algumas pautas são debatidas em redes sociais é sintoma do nível de interesse público, notadamente naquelas que envolvem questões de gênero, violência contra a mulher, intolerância religiosa e racismo.

 

Episódios recentes no Brasil e no mundo são combustível de discussões acaloradas nas redes. “Quando eu tinha a idade de meus alunos, não eram temas tão latentes. Entendo o Enem como algo que é cumprido socialmente. O candidato é instigado a falar do que está em torno dele, demonstrando senso crítico. Na internet, tem muito material que é, sim, muito informativo. Cabe a cada um o discernimento.” 

 

Imigração e intolerância

O mundo vive profundo impasse quanto aos refugiados que fogem dos países de origem deles em função de guerras, conflitos religiosos e políticos. O deslocamento de grandes contingentes humanos, especialmente aqueles que saem da África e Oriente Médio em direção às nações europeias. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), são mais de 65,3 milhões deles pelo planeta. 

 

“A tema dos refugiados entra certamente em questões de geopolítica e, quem sabe, também na redação, na medida em que se pode exigir que os alunos saibam relacionar os fluxos migratórios de outros tempos com os atuais. Além disso, ajuda a entender os fenômenos de ódio racial e xenofobia”, diz Ademar Celedônio. “Do mesmo modo, se diz que o governo alemão tem por princípio aceitar melhor esse imigrante. Por que? É preciso entender o valor humano nisso, mas também qual a intenção daquele e de outros governos”, exemplifica.

 

Brasil

Em menor grau, o povo brasileiro também recebe refugiados, vindos de contextos diversos, como o da miséria no Haiti ou a guerra civil na Síria. Estes constituem 25% da população de refugiados no país atualmente. É preciso que o candidato do Enem considere também a realidade local, portanto, ainda que “o movimento imigratório para o Brasil do século 21” tenha sido tema de redação anteriormente, em 2012. “Continua relevante e o aluno deve estar atento quanto às causas e quais as políticas públicas aplicadas”, diz Gabriela de Araújo Carvalho. Não custa lembrar que as bancas examinadoras se reservam ao direito de zerar a dissertação do candidato, se constatado racismo, intolerância e desrespeito os direitos humanos no texto.

 

Política e ambiente

A professora levanta a hipótese de ser abordada no exame o que chama de “participação política”, dividida em dois subtemas. “Primeiro, o sentimento de pertencimento do indivíduo na multidão que vai para a rua se manifestar.” Em um país dividido, a adesão de um lado e o acirramento de ânimos com o outro têm dado o tom do debate. “A outra vertente é a da participação política por meio das redes sociais, tendo em mente que outros países tomaram grandes passos políticos a partir desses meios, notoriamente aqueles da Primavera Árabe”, exemplifica, citando a onda de protestos que tomou parte dos países árabes em 2011, em grande parte movidos pela internet. 

 

Além disso, a tragédia ocorrida em Mariana (Minas Gerais) após rompimento de barragem da mineradora Samarco, pode interligar os temas de respeito humano e de meio ambiente no Enem. Não por acaso, os assuntos mais cobrados na biologia — 19% da prova, em média — são os que envolvem humanidade e ambiente. 


Preconceitos

Questões de gênero e a luta contra a violência aos LGBTs também estão em pauta. De acordo com levantamentos dos Ministérios Públicos estaduais, foram 2.925 casos de violência contra a mulher entre março de 2016 e março de 2017. O nosso país é também campeão mundial de assassinatos de minorias sexuais. “Não seria abordado somente o binarismo homem/mulher, mas o respeito aos grupos sociais. Os índices de intolerância são altos em diversos ambientes. Ao mesmo tempo, são temáticas que vem ganhando espaço positivo em programas de televisão. Está nos noticiários e na novela”, exemplifica Gabriela de Araújo Carvalho.

 

Outras possibilidades

Em sociologia e filosofia, o professor Leandro Vieira acredita que a grave crise política e institucional nacional deve ser abordada apenas indiretamente. “É possível que se proponha questões sobre modelos governamentais no mundo e no país. Embora seja muito improvável que caia diretamente corrupção, citando nomes e fatos pontuais, pode haver uma questão que pense a democracia e a ética.” Ademar Celedônio também não acredita em casos políticos constando cruamente na prova. “O exame precisa estar pronto com alguma antecedência. Portanto, por questões de logística, é improvável que conste algo factual que aconteceu na semana passada.”

 

Ele levanta também a hipótese dos jogos olímpicos do Rio de Janeiro, realizados em 2016, mas sem presença nas questões do ano passado. Em 2017, é uma boa pedida. “Esse tema pode surpreender agora, justamente porque pode abordar o momento seguinte. Podem estar em pauta os efeitos de grandes eventos como esse nas metrópoles, discutindo se houve benefícios quanto a transporte público, mobilidade urbana, moradia e saneamento.” 

 

“Na geopolítica, a Ásia vem ganhando força como peso, podendo cair os métodos de crescimento econômico da China, bem como as atitudes autoritárias do ditador Kim Jong-Un da Coreia do Norte”, acrescenta Daniel Pereira Leite. 

 


Você Arrisca um palpite?

 

 

Antônio Cunha/CB/D.A. Press
 


Larissa Monteiro,20 anos
“O Enem gosta de temas sociais. Acredito que a questão ambiental, do que aconteceu de 2014 para cá, pode cair e a causa indígena, também.”

 

Antônio Cunha/CB/D.A. Press
 

 

Carlos Vinícius Martins, 19 anos
“Um dos temas é o terrorismo. Aqui no Brasil também tem esse tipo de violência, mas não recebe esse nome. Se mata muito mais na violência urbana daqui do que numa guerra na Síria, por exemplo.”

Antônio Cunha/CB/D.A. Press


Isabela Silva Rocha, 19 anos
“As atualidades cobradas no enem são as que perduram na mídia.é provável que seja cobrado O acidente de Mariana (Minas Gerais), abordando rejeitos e a poluição de rios, a destruição da cidade e a falta de punição. Também pode cair a crise hídrica, que assola Brasília  desde 2014.”


Antônio Cunha/CB/D.A. Press

 

Thaynan Monteiro, 21 anos
“A questão do uso de agrotóxicos nos alimentos pode cair. O Brasil é o maior consumidor e produtor de agrotóxicos no mundo. Desde 2005, enfrentamos esses problemas.”