Enem 2017
Apresentado por:

Antonio José Barbosa

As ciências humanas no exame

Comentário por Antonio José Barbosa, professor do Departamento de história da Universidade de Brasília (UnB)

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postado em 23/10/2017 07:00 / atualizado em 23/10/2017 11:28

Quando de sua criação, o Enem tinha uma finalidade claramente explicitada: promover uma avaliação contínua e sistemática da última etapa da educação básica, o ensino médio.  Além disso, tinha o propósito de certificar aqueles que, pelas mais diversas razões, não concluíram os estudos na idade apropriada. O modo pelo qual o exame foi construído trazia inegável novidade: muito mais que conteúdos (os quais foram praticamente abandonados), importava avaliar uma série de habilidades e competências dos alunos que a ele se submetiam.

O tempo se encarregou de apontar falhas no projeto.  Ano após ano, elas foram identificadas e as últimas provas aplicadas se encarregaram de apontar novos caminhos. O grave problema evidenciado nos primeiros exames foi o indiscutível viés ideológico, em especial, nas questões relativas às ciências humanas e à própria redação. Tinha-se a impressão de que as provas padeciam de verdadeira e preocupante submissão ao politicamente correto, o que implicava, naturalmente, fortíssima carga de subjetividade.

Na atualidade, o Enem parece ter vencido o horror aos conteúdos, ainda que, felizmente, sua cobrança se faça de forma inteligente e, não raro, instigante. Assim, estamos diante de uma prova que leva o aluno a pensar para responder, a refletir para compreender o que se pede e a expor senso crítico ante os problemas apresentados.

Às vésperas do exame de 2017, alguns aspectos merecem ser abordados. Em primeiro lugar, saber que o fato, o acontecimento constitui a matéria-prima das ciências humanas, a começar pela história. Não há conhecimento algum que se produza sobre o vazio, sobre o nada. Mas, e isso é fundamental para quem quer ter bom desempenho no Enem, nenhum acontecimento, por mais importante que seja, subsiste em si mesmo, ou seja, ele está situado num determinado tempo, num determinado espaço e sempre se encadeia com outros.  A isso damos o nome de processo, que decorre do entrelaçamento, das vinculações existentes entre os fatos ao longo do tempo.

Alguns exemplos dão ideia do que o candidato poderá encontrar na prova e a melhor forma de responder ao que lhe será proposto.  Ao abordar a Revolução Industrial, acontecimento fundamental para a construção do mundo contemporâneo, certamente, a prova não se preocupará em cobrar inventos, máquinas e inventores.  Antes, ela avaliará se o aluno compreende o significado econômico, sociológico e histórico desse fato essencial: como ela altera as relações sociais? De que modo ela modifica o mapa mundial, a partir do deslocamento dos centros dinâmicos da economia? Como a corrida imperialista promove a incorporação das chamadas áreas periféricas do planeta ao sistema capitalista?

De igual modo, ao abordar as guerras mundiais do século 20, a prova não deverá se preocupar com nomes de batalhas ou de comandantes políticos e militares. Ao contrário, possivelmente indagará acerca do impacto causado pela Grande Guerra de 1914 num mundo que acreditava estar vivendo a Belle Époque ou sobre o mundo nascido dos escombros da Segunda Guerra. Na mesma perspectiva, que tal imaginar a permanência de ideias nazifascistas (violência, intolerância, não aceitação do diferente etc.) em pleno início do século 21, quando se sabe que os regimes totalitários de Mussolini, Hitler e Stálin foram sepultados há tanto tempo?

Exemplos assim também não faltam na experiência histórica brasileira. Bem mais interessante que memorizar nomes de governantes é saber como foi e continua sendo veloz o processo de transformação da sociedade brasileira, especialmente a partir dos anos 1930 (Era Vargas e Segunda Guerra Mundial). Um país que, historicamente vinculado ao campo, com tudo o que isso significa em termos políticos, econômicos, sociais e culturais, transforma-se, em poucas décadas, numa das nações mais urbanizadas do planeta.

Em suma, além do relativo conhecimento dos conteúdos trabalhados no ensino médio, o aluno será avaliado por determinadas habilidades, as quais podem ser sumariamente sintetizadas: a) saber ler a questão, ou seja, estar atento ao sentido das palavras; b) contextualizar sempre a informação apresentada em cada questão, lembrando-se de que nenhum fato é totalmente autônomo, integrando um processo ao qual se vincula; c) promover as conexões entre os fatos propostos à análise, o que permitirá ao aluno uma visão ampla daquilo que lhe é apresentado; d) procurar entender acontecimentos atuais que se destacam no cenário mundial, a exemplo do terrorismo, das correntes migratórias, da emergência de nacionalismos, do renascer do armamentismo nuclear e da crise da democracia representativa clássica.