Enem 2017
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Interdisciplinaridade é a base da prova de ciências humanas, garantem professores

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postado em 25/09/2017 19:07 / atualizado em 12/10/2017 16:18

 
 
Quando os assuntos se apresentam sob o ponto de vista social, histórico e filosófico, tudo pode se misturar — e é bom o candidato se preparar para desvendar a interdisciplinaridade dessas áreas. É o que ficou claro na live do Facebook do Eu, Estudante dessa segunda-feira (25), cujo tema foi a prova de ciências humanas e suas tecnologias do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). 

Na ocasião, o Correio recebeu na redação os professores do Centro Educacional Sigma Carlos França, Paulo Macedo e Edivaldo Montes dos Santos, de história, geografia e filosofia/sociologia, respectivamente. “Não há questões 'puras'. No Enem, o diálogo interdisciplinar é fundamental. Ou seja, o candidato passa por uma avaliação em que cada pergunta tem ênfase em umas das quatro disciplinas, mas engloba sempre um pouquinhos das outras três”, garante Edivaldo dos Santos. 

Para ele, a pluralidade do exame se expande ainda para os usos da linguagem, uma vez que os textos apresentados podem ser de cunho publicitários, jornalismo, ficcional e poético, além de trazer elementos gráficos como além de charges, tiras, e tabelas. “Assim, você tem condições de passear por todos os conteúdos”, concorda Carlos França. “A prova em si está mais ligada às habilidades que o aluno possa mostrar. Ela pretende tirar dele os mecanismos de resolução de problemas.”

Paulo Macedo concorda com os colegas e, para tornar a argumentação mais consistente, usa a problemática do petróleo, sempre em voga no Enem. Ele observa que, de acordo com as abordagens vistas tradicionalmente na bibliografia de ensino médio, o Brasil tem 75% de sua produção petrolífera localizada na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro. “Neste ano, contudo, metade está na Plataforma Continental brasileira e metade no pré-sal. Quando pegamos uma indagação que aborde isso, ela traz o tema geológico e, dentro dele, a perspectiva histórica e todo o processo de formação e reformulação da nossa Petrobrás”, observa. Não se trata de uma questão exclusivamente de geografia, portanto. Pode-se interligá-la com a construção social do país, cujas idas e vindas políticas influem diretamente nos resultados da empresa. 

O que cai 
Carlos França enxerga equilíbrio nas perguntas que priorizam história, estando a idade antiga quase em pé de igualdade com as temáticas contemporâneas, prediletas da banca criadora das provas. Pelo caráter universalizante do exame, aplicado igualmente em todo o território nacional, há pouco de temáticas exclusivamente regionais. Além disso, se faz necessário estar apto a relacionar as atualidades com o “conteúdo frio”, como denomina o professor. “A historiografia propõe interligar conteúdos antigos e atuais. Por exemplo, a Guerra Fria, que é um elemento do passado, mas cujos atores de outros tempos ainda não se entendem. Existem ameaças concretas quando os governos deixam de lado a diplomacia e assumem discursos belicistas”, diz ele, ressaltando a probabilidade de cair no exame a queda de braço protagonizada hoje por Coreia do Norte e Estados Unidos.

“Em filosofia, as questões não são difíceis, mas exigem cuidado na interpretação. Cai muita ciência política, sociologia, filosofia política e áreas correlatas”, enumera Edivaldo dos Santos. “A grande maioria dos itens estão ligados ao pensamento ético”, completa. Em razão do momento delicado no Brasil atual, o professor acredita que temas envolvendo valores morais e respeito à máquina pública devem vir ainda mais forte que o normal.

De 2010 para cá, os itens de geografia têm ganhado notável complexidade, segundo Paulo Macedo. “Não se encontra mais facilmente a resposta dentro da questão-problema proposta. A intenção é que o aluno raciocine e encontre dentro daquele conteúdo do texto-base o princípio básico para a resposta”, garante. Entre as pautas passíveis de constarem na prova, ele menciona urbanização e população, “um clássico que vai cair todo ano, relacionado a temas como meio ambiente e violência urbana.”

Eles respondem
Na interatividade das lives, os professores do Sigma têm sido chamados a responder questões de outras edições do Enem. Dessa vez, não foi diferente. Edivaldo respondeu a comando que era precedido por trecho clássico do Hamlet, de William Shakespeare. O popularíssimo “ser ou não ser”, posto na pergunta como precursor remoto do existencialismo. “Aqui exige-se do candidato uma boa compreensão da obra e os vínculos que o textof az com várias áreas do conhecimento, especialmente a filosofia”, explica ele. Para respondê-la, o docente saiu do dramaturgo século 16 para chegar a pensadores como Heidegger e Sartre, provando a interdisciplinaridade de que tanto falavam os três docentes.

A questão apresentada a Paulo Macedo, sobre plataforma petrolífera na China, englobou também as outras áreas. “Os chineses instalam uma plataforma em território cujo pertencimento ao país é contestado. O foco é o petróleo, mas também a situação política entre aquele país e os vizinhos”, afirma. Carlos França, por sua vez, foi perguntado sobre a Era Vargas e questões trabalhistas, outro “clássico” do Enem que se renova em 2017. “Na Era Vargas, nasce o salário mínimo e o esqueleto jurídico do que seriam as normas de trabalho do país. Para muitos, hoje ele prejudica o trabalhador. É uma questão atual e pode muito bem estar na prova.”