Enem 2017
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Matemática e suas tecnologias

Insegurança na hora da escolha

Mais da metade dos candidatos inscritos no exame do MEC ou no vestibular tradicional não sabem que profissão seguir. Especialistas dão orientações importantes para o estudante decidir pela graduação ideal

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postado em 02/10/2017 07:00 / atualizado em 02/10/2017 19:37

 

 

 

A escolha do curso acadêmico pode nortear a vida profissional de um jovem prestes a ingressar na universidade e no mundo profissional. Tomar essa decisão nunca foi fácil. Entre os alunos de ensino médio, o número impressiona: segundo dados do Portal Educacional, 54% deles, às vésperas de prestar vestibulares e o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), ainda não sabem qual a predileção deles. Cursos tradicionais, como engenharia, direito e medicina, se diluem em meio ao mercado pulverizado, cada vez mais rico em variedade de profissões e confuso nas informações sobre como um estudante pode direcionar seu conhecimento para a profissão, de modo a conciliar satisfação pessoal e financeira.


“A realidade vivida aqui na nossa escola bate com a pesquisa”, atesta Eli Guimarães, coordenador  do Colégio Sigma.  O motivo para a indecisão, acredita o professor de redação, pode ser dividido em dois tópicos. “Primeiro, o desconhecimento a respeito dos cursos e das profissões  que eles levam é muito grande. Sinto que eles não sabem muito bem o que algumas graduações mais obscuras exigem, da mesma forma que têm visão romantizada sobre os cursos mais em voga”, pontua. “Em segundo lugar, vivemos em um país onde a escolha acadêmica está muito determinada pela condição financeira que o aluno tem e terá na vida. Muitas vezes, ele se sente pressionado a escolher faculdades que, em tese, lhe renderão mais recursos financeiros,  em vez de escolher uma na qual ele sinta mais prazer e seja, por consequência, mais produtivo.”

 

Guilherme Maynard, diretor do Prepara Cursos, rede especializada em direcionar escolhas profissionais, também avalia o número como condizente com a realidade, mas não vê nada de alarmante. Está tudo dentro da normalidade de um público jovem, sedento por conhecimento, mas ainda sem as ferramentas de escolha que só a maturidade traz. “É comum desde sempre essa indecisão e é natural pela idade. Muitos vão no fluxo de informações que não correspondem 100% à realidade. Parece lindo ser médico na sala de cirurgia ou um grande juiz, digamos, mas na prática há vários pormenores que o aluno desconhece. É preciso saber o dia a dia daquela atividade, bem como o empenho que os líderes do mercado tiveram para chegar  lá”, avalia Maynard.

 

Presidente da Associação Brasileira de Orientação Profissional (Abop), o psicólogo Rodolfo Ambel acredita que candidatos do Enem formam grupo com demandas particulares de início de vida adulta. “É esperado desse público, especialmente aqueles de classe A e B, que conclua bem o ensino médio e, no prazo mais imediato possível, consiga uma vaga no ensino superior. É um caminho natural, na avaliação dos pais”, esclarece. Pressionados, os estudantes terminam por tomar decisões frágeis, amparadas mais no desejo de agradar do que nas suas próprias convicções.

O dilema de cada um

“É muita opção!”, sintetiza Ester Lira, 17 anos, aluna do 3º ano do Colégio Sigma. “Hoje a vida exige de nós um currículo difuso.  Você se forma em medicina, faz pós-graduação em física e ainda cursos pontuais em alguma área de humanas”, exemplifica ela. Por agora, o desafio é mesmo alcançar a melhor nota possível no Enem. Paralelamente, ela buscou auxílio de testes vocacionais para se decidir. O leque de opções, a princípio, variava em torno do exercício de diplomata, que ela acreditava ser mais alcançável pela via da graduação em relações internacionais.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A. Press

 

No meio do caminho, contudo, a caçula da família se decidiu por outra graduação: será a primeira das filhas a cursar direito, a exemplo do pai. “Fui pesquisar as bases das atividades e escolhi pelo curso, que é bastante abrangente. Além de teste vocacional, perguntei aos professores, que me deram apoio e pensaram junto comigo, a partir do que gosto nas aulas.”

A indecisão de Vitor Carvalho, 17, vai mais além. Desde o início do ensino médio, o rapaz transitou por diversas opções.  Apaixonado por música e artes visuais, pensou em ingressar na área, mas o interesse por política, problemas sociais e atualidades cresceu nos últimos dois anos. Se tivesse que escolher hoje, estaria entre as faculdades de ciência política e economia, mas não descarta história. Os pais apoiam o filho em qualquer decisão, mas pedem a ele para não esquecer a viabilidade da profissão. “Olhar o mercado de trabalho é importante, eu sei, mas venho pensando em aliar isso ao conhecimento que quero ter e à pessoa que quero ser”, pondera.

A escolha universitária de Laura Salomão, 17, foi tomada de modo confiante há cerca de um ano, mas ainda surpreende os colegas. Ela está decidida pelo bacharelado em engenharia aeroespacial, ramo que lida com projeto, construção e manutenção de aeronaves, veículos espaciais, foguetes e satélites. Ela almeja uma vaga na Faculdade Gama da Universidade de Brasília (FGA/UnB) ou na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Gosto muito de física e matemática e fui tateando temas até chegar a este curso.  As pessoas se surpreendem, mas sei que é um campo vasto e importante”, explica.

Na avaliação de Eli Guimarães, sempre haverá grande procura pelo que ele chama de “cursos imperiais” (notadamente medicina, engenharias e direito), mas escolhas feitas por alunos como Laura produzem bons resultados no futuro. “Em tempos como os de hoje, as pessoas encontram segurança nos ‘imperiais’, mas os que ficam em segundo plano podem render bons frutos. É um paradoxo.”

Decidida, a aluna Beatriz Mingorance, 17, sabe que a praia dela é a engenharia elétrica, decisão  tomada há quase um ano. Apaixonada pelas matérias de exatas, ela olhou a grade curricular da faculdade e concluiu que, pela forte carga de cálculo e matemática que o curso apresenta, aquele é o lugar ideal. Os pais, formados em direito, não desaprovaram a escolha da jovem. “Meus pais apoiam, afinal pretendo trabalhar numa empresa grande no futuro e penso que o mercado de trabalho na área abarca muita gente. Cada um tem uma vocação e acredito que é preciso encontrá-la.”

Testes e autoconhecimento

 

 

 

 

A empresa júnior Praxis Consultoria é especializada em gestão de pessoas, e o trabalho é ligado ao Instituto de Psicologia da UnB (IP/UnB). Conta em seus quadros com 40 graduandos em psicologia, cujo trabalho é orientado pelos professores da instituição.

“O que fazemos não é propriamente teste vocacional, mas um trabalho mais longo de orientação profissional”, esclarece Luisa Daldegan, 20, estudante de psicologia e conselheira da Praxis. Na escola, a empresa organiza grupos de 10 a 12 alunos e, em encontros semanais de uma hora e meia, propõe exercícios que levem ao autoconhecimento.

“Percebemos que o aluno chega com ideias estereotipadas do que são os cursos e nós trabalhamos no sentido de desmistificá-los. Levamos a realidade do mundo acadêmico e do mercado, usando a linguagem deles, afinal não faz tanto tempo assim que estivemos na mesma situação”, afirma Caroline Feital, 21, estudante de psicologia e gerente do Núcleo de Orientação Profissional da Praxis.

Por meio de coachs, profissionais de psicologia e consultores de recursos humanos, a Prepara Cursos desenvolve testes de aptidão on-line que qualquer pessoa pode acessar gratuitamente no site da empresa (prepara.com.br). Na interface do teste, o interessado responde a perguntas que mapeiam o perfil do interessado, levantam as principais tendências e com quais profissões a pessoa mais se identifica. “O candidato sai do teste com relatório final que indica possibilidades. Nas nossas franquias, oferecemos serviços que aprofundam esses testes e os tornam mais precisos, casando as respostas objetivas dadas ali com o devido acompanhamento psicológico profundo”, esclarece Guilherme Maynard. “O teste, por si só, não resolve a questão, mas é um dos pilares.

Rodolfo Ambiel enxerga os testes vocacionais como “exercícios de ‘brincadeira’, cuja eficácia deve ser relativizada”, na definição dele. “É um mito de que ele resolverá tudo, não existe mágica. Se o aluno se sente angustiado pela indecisão e quer ir além, sugiro sempre uma orientação profissional de psicólogos capacitados que possam aplicar testes e sintetizar avaliações de modo mais eficaz.”