Enem 2017
Apresentado por:

Vestibulares tragicômicos

Escritos de modo leve e com bom humor, contos de Ivana Arruda Leite narram casos inusitados que ocorreram em exames de todas as épocas

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 03/10/2017 07:00 / atualizado em 09/10/2017 20:42

Fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou qualquer outra prova de ingresso no ensino superior não está fácil para ninguém. O que os candidatos mais jovens talvez não saibam é que nunca esteve. Prova disso é o lançamento do livro Vestibulandos – Histórias Tragicômicas (Edições SM), da escritora Ivana Arruda Leite, com ilustrações de Mauricio Pierro. Trata-se de uma divertida e despretensiosa coletânea de contos que engloba avaliações dos anos 1970 até os dias atuais.


As narrativas são baseadas em depoimentos reais, dados à autora com o tom cômico que só o tempo garante às histórias que, à época em que aconteceram, pareciam as piores tragédias na vida de cada um. “São episódios engraçados, casos que ocorreram em exames de outros tempos e de agora. Gente aflita de todas as décadas!”, diverte-se a escritora. “São provas em que você precisa escolher o que vai fazer no futuro e é muita pressão. Depois de anos, aí sim, a gente morre de rir.”

Autora de diversos contos e romances para adultos, bem como alguns livros infantojuvenis, ela conta que o convite para a nova empreitada surgiu por acaso, a partir de história pessoal contada descompromissadamente em uma mesa de bar. A escritora lembrava de quando, no vestibular que fez para Arquitetura na Universidade de São Paulo (FAU/USP), levou um pequeno banquete ao local de prova, com direito a salgados, doces, refrigerante e tudo mais. “Às vezes, eu ficava sem comer de tanto estudar e, com fome, não pensava direito. No meio da avaliação, abri tudo e fiz o meu lanche. Todos em volta olharam estranho para mim. Deviam pensar: ‘Quem é essa louca?’.” Ela foi aprovada naquele vestibular, embora tenha abandonado o curso alguns anos depois para ingressar em ciências sociais na mesma universidade, pela qual hoje é mestre.

O caso gerou muitas risadas, desencadeando outras lembranças dos amigos presentes. Por sorte, um deles era editor e propôs, ali mesmo, que Ivana Arruda Leite escrevesse o livro. “Quando dei por mim, tinha várias histórias em mãos. Muitos, quando ficaram sabendo, me mandaram histórias deles pelas redes sociais. Vieram muitos depoimentos espontâneos.”

 

Arquivo Pessoal
Casos reais
Acontece de tudo na vida dos vestibulandos, desde gente atrasada tomando decisões extremas até brincadeiras sem graça que terminam muito mal. A autora afirma que um dos primeiros depoimentos coletados foi o de uma menina paulista, cuja cidade ficava a alguns quilômetros da capital. No dia do vestibular, a mãe dela a levava por estrada normalmente muito congestionada. Naquele dia, a fila de carros estava especialmente estressante e lenta, em função de forte chuva.

Com a via alagada, a mãe não pensou duas vezes. “Desesperada, ela parou um motoqueiro que passava, colocou a filha na garupa e disse: ‘Pode levar!’. O medo da menina perder um ano de estudos foi maior que o de entregá-la ao completo desconhecido”, diz a autora. No fim das contas, embora muito assustada, a então adolescente fez uma boa prova e passou no vestibular. Hoje é uma arquiteta bem-sucedida.

Outro caso, o da personagem Ludmila, envolve armas e muita reza. A candidata levava como amuleto de sorte a medalhinha de Nossa Senhora da Cabeça, que a mãe lhe deu. Durante a avaliação, um rapaz mal-encarado fazia perguntas indevidas sobre as questões ao fiscal de prova. Esse, claro, explicava ao jovem que não poderia responder. Supostamente irritado, o candidato sacou então uma arma e Ludmila teve que rezar um pouquinho mais. Ao anunciar que se tratava de um revólver de brinquedo e cair, sozinho, na gargalhada, o jovem foi imediatamente retirado de sala. “Vamos ver se o delegado vai achar graça na brincadeirinha”, teria dito o segurança do local.

Mudanças

Algumas narrativas do livro impressionam pelos formatos inusitados na aplicação do exame e, de quebra, ainda ajudam o leitor a intuir o pano de fundo histórico da época. Muita coisa mudou desde então. O conto Lúcia e Romero, por exemplo, se passa no estádio Maracanã. Lá, nas arquibancadas desconfortáveis e sob o sol inclemente do Rio de Janeiro, milhares de candidatos fizeram os vestibulares unificados de 1972 e 1973. O mesmo ocorreu no Mineirão, em Belo Horizonte, e outros grandes palcos — bem diferentes das modernas arenas atuais — do futebol brasileiro.

“Acompanho a grande expectativa que cerca o exame do Enem hoje em dia e sinto uma grande diferença”, diz a autora. Para ela, os modos de execução das provas estão mais humanizados. Além disso, o maior acesso ao ensino superior no país trouxe, por consequência, um pouco menos de pressão aos candidatos. “Na minha época, ou você fazia faculdades tradicionais — arquitetura, engenharia, direito, medicina — ou não fazia nada. Era um investimento muito grande da família.  Afinal, era um tempo em que pouca gente tinha acesso ao ensino superior. Portanto, não podíamos decepcionar.”

Vestibulandos - Histórias Tragicômicas

 

SM/Divulgação

 

 

 

 

 

Autora: Ivana Arruda Leite
Editora: SM Edições
Páginas: 64
Preço: R$ 43,00