Enem 2017
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Desvendando física e química

Integradas à prova de ciências da natureza e suas tecnologias, disciplinas foram responsáveis pelos piores desempenhos dos alunos em 2016

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postado em 16/10/2017 11:50 / atualizado em 28/10/2017 09:30

 

 

Nunca foi lá muito fácil aprender química e física. Boa parte dos secundaristas e ex-estudantes sentem calafrios quando ouvem falar de temas que os faziam quase fugir da sala de aula, como eletricidade, eletrodinâmica ou estequiometria. No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o temor intuído ganhou ares concretos nos últimos anos, a julgar por números recentes.


Foi nas duas disciplinas, junto a matemática, que os alunos tiveram os piores desempenhos entre 2009 e 2014. Nesse período, a taxa de acerto em química e física foi de 26% em média. A média vem caindo ano a ano: 482,2 (em 2014), 478,8 (2015) e 477,1 (2016). Mas por que tanta dificuldade?


Artur Neto, professor de física do ProEnem, entende as ciências exatas como campo naturalmente complicado para os alunos, em função da amplitude de conhecimento requerida e por falhas da educação. “Não há bons laboratórios nas escolas para que as aulas sejam mais atrativas, de modo que o aluno veja ali a ciência acontecendo. Além disso, as duas matérias requerem conceitos básicos de matemática”.


“É inegável que houve mudanças na prova”, concorda Juliana Gaspar, que leciona química no Centro Educacional Sigma. Para ela, a universalidade de acesso ao ensino superior promovida pelo exame explica, em parte, a guinada conteudista da banca elaboradora. “Como o Enem hoje possibilita vagas a muitos cursos bastante disputados, passou-se a exigir bem mais conhecimentos específicos.”

 

Professora de química,Caroline Azevedo diz que mudanças e quedas no desempenho não são coincidência. “Em edições mais antigas, o exame apresentava questões muito contextualizadas e o aluno conseguia respondê-las a partir de sua própria vivência.” Acabou aquela história de, a partir da leitura do próprio enunciado, intuir o item correto a ser assinalado.

Cálculos e meio ambiente

Para combater esses fantasmas, só mesmo muito treino e prática para que o aluno aprimore cálculos e interpretação. De acordo com as professoras, a química do Enem gira em torno de assuntos como eletroquímica, química orgânica, ligações e soluções químicas, meio ambiente e estequiometria.


Lanna Silveira/Esp. CB/D.A Press

 

Os dois últimos destacam-se. Em função da proximidade com acontecimentos do dia a dia, os problemas ambientais são tradicionais no Enem, que prioriza a habilidade do aluno em aplicar o conteúdo na sociedade. Eles podem figurar em questões de aquecimento global e efeito estufa, envolvendo as consequências de emissões de gases na atmosfera e as soluções para amenizar os danos. “Não são resoluções baseadas em cálculos. Uma questão de química ambiental está no campo do cotidiano, assuntos que o aluno conhece de antemão dos noticiários”, diz Juliana Gaspar. Reciclagem de lixo e efeito estufa são outros que se encaixam nesse campo. “Cabe ao aluno botar em prática o conhecimento dele em química para decodificar os motivos desses fenômenos.”


Estequiometria, por sua vez, aborda produtos formados a partir de reagentes, envolvendo, na resolução, cálculos e conversão de unidades. “Está relacionado ao número de mols e ao conhecimento de grandezas químicas”, explica Caroline Azevedo. Tradicionalmente, é neste conteúdo que os jovens mais escorregam. “Com certeza é a estequiometria, que envolve muito cálculo. O problema, neste caso, não é só interpretação de dados e conhecimento de química, mas a desenvoltura necessária nas contas”, afirma Juliana Gaspar. "Tudo envolve saber as fórmulas e entender as questões, que são muito contextualizadas", diz Kelvin Pessoa, 18, estudante do curso Exatas.


É bom lembrar que, em 2017, ciências da natureza e suas tecnologias está marcada para o mesmo dia, 12 de novembro, de matemática e suas tecnologias. Duas avaliações que exigem lidar com números, o que toma tempo de prova. “Gosto das mudanças recentes, mas esta vai prejudicar o melhor desempenho em física e química do aluno, que tende a valorizar e temer muito a prova de matemática e deixar nosso conteúdo um pouco em segundo plano”, opina Caroline Azevedo.

Tragédia do césio-137
Professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ/UnB), Heibbe Cristhian Benedito de Oliveira, mestre em física atômica molecular e doutor em físico-química, levanta a hipótese de questões que envolvam, direta e indiretamente, o acidente com césio-137, ocorrido em Goiânia. O triste episódio, maior da história no âmbito radiológico e segundo maior em termos radioativos, completa 30 anos em 2017. O exame adora pontuar datas. “Pode ser relacionado à questão da meia-vida do césio, que se dá justamente no intervalo de 30 anos”, exemplifica.


O acidente se encaixa em outras áreas de conhecimento, pelos desdobramentos sociais do ocorrido. No Enem, pensar interdisciplinarmente é essencial. “O aluno precisa estudar tudo de uma forma unificada, ainda mais pelas exigências típicas do Enem. Não dá para estudar física pensando somente em física, os temas são bastante correlatos e sempre podem se integrar”, diz Heibbe Cristhian. Em geopolítica, Estados Unidos e Coreia do Norte travam disputa que também envolve armamentos nucleares, questões radioativas.

Eletrodinâmica
Temas de eletricidade e energia podem promover semelhante aproximação de áreas. Os fenômenos associados às cargas elétricas têm bastante ocorrência no cotidiano. “São conceitos que podem ser aplicados em diversos contextos e são bastante atuais. Geografia e biologia também trabalham com energia. É um tema universal.”


A abordagem das questões de física se dá de modo conceitual em 60% dos casos e analítico em 40%, de acordo com o professor. Os conteúdos seguem programa semelhante ao longo dos anos. “Historicamente, mecânica é o assunto que mais cai na prova. Em segundo, temos ondulatória e eletricidade. Por último, termologia e ótica”, afirma.


A maior dificuldade de quem faz o exame está em eletrodinâmica. “O aluno costuma ter uma visão local do circuito, isso faz com que cometa erros ao interpretar o todo. Quando a questão pede para calcular a resistência equivalente entre os pontos B e C, digamos, os estudantes sentem muita dificuldade em determinar quais os tipos de ligações (série ou paralelo) entre as resistências”, explica. Por fim, alunos sentem abstração em alguns temas.  “Ao envolver o mundo microscópico, sente-se dificuldade maior para entender e localizar a aplicação do tema na vida”, concorda Heibbe. Para não se perder, Artur Neto sugere buscar praticidade, de modo a “enxergar” a aplicação da física na vida.

SEMANA COM DOSE DUPLA DE LIVES
Nesta semana, o Especial Enem promoverá duas lives no Facebook. Hoje (16), o convidado para a entrevista ao vivo, às 15h, é Paulo Ferrari, professor de física do Centro Educacional Sigma.  Amanhã (17), também às 15h, é a vez de Saulo Mandel (biologia) e Juliana Gaspar (química), que lecionam na mesma instituição. Os três convidados comparecerão aos estúdios do Correio para comentar com detalhes a prova de ciências da natureza e suas tecnologias do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Qual conteúdo preocupa mais?
QUÍMICA

 

Lanna Silveira/Esp. CB/D.A Press
 


Theresa Kanashiro, 20
“As Reações orgânicas vêm caindo muito e com nível mais pesado. Demanda tempo e muito conhecimento.”
Pablo Piau, 18

 

Lanna Silveira/Esp. CB/D.A Press
 


Pablo Piau,18

Eletroquímica. Resolver questões de eletrólise e pilhas envolve saber as fórmulas e entender as questões, que são muito contextualizadas.”

FÍSICA

 

Lanna Silveira/Esp. CB/D.A Press
 


Renata Muniz, 18
“Eletroestática é minha maior dificuldade, porque é bem abstrata. Perco muito tempo até materializar na cabeça o que é preciso fazer.”

 

Lanna Silveira/Esp. CB/D.A Press
 Rafael Calixto, 18

“Gravitação especialmente, porque não entendi muito bem ainda. preocupa-me também a estratégia para resolver as questões a tempo.”


Participe
Para assistir às lives e interagir com os convidados, acesse a página do Eu, Estudante no Facebook (facebook.com/euestudante). Depois das transmissões ao vivo, o vídeo com todo o bate-papo fica nos arquivos da página e pode ser assistido como e onde quiser. Todo o conteúdo do Especial Enem é aberto, gratuito e pode ser encontrado no endereço correiobraziliense.com.br/euestudante/enem-2017.