Enem 2017
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ciências humanas e suas tecnologias

Filosofia e sociologia ditam o tom no primeiro dia de provas

Responsáveis por um terço dos itens de ciências humanas, 15 questões, as duas matérias ganham espaço no exame pelo diálogo com temas como diversidade, tolerância, coletividade e direitos humanos

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postado em 23/10/2017 07:00 / atualizado em 23/10/2017 12:32

Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press
 
 
Falta pouco, muito pouco, para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Daqui a exatos 13 dias, a maior prova de acesso ao ensino superior será aplicada para quase sete milhões de estudantes. No primeiro domingo, 5 de novembro, serão aplicados os testes de linguagens e redação e da abrangente prova de ciências humanas e suas tecnologias. Nela, caem 45 questões que envolvem história, geografia, filosofia e sociologia. As duas últimas, sempre deixadas um pouco de lado, ocupam cerca de um terço dos itens, segundo especialistas, e podem ainda ter participação indireta em todas as áreas abordadas no exame. Daniel Crepaldi, professor de sociologia da rede pública e subsecretário de Educação Básica da Secretaria de Educação do Distrito Federal, acredita que o Enem foi, a um só tempo, sintoma e causa da reintegração das duas disciplinas no ensino médio brasileiro.

“O regime militar tirou de circulação o ensino de filosofia e sociologia, que só retornou com força e obrigatoriedade na grade curricular por volta de 2007, mesmo período em que o exame crescia em representatividade e dava espaço às disciplinas.” É com o pensamento filosófico e sociológico que os alunos deixam de ser, nas palavras dele, “apenas fazedores de provas” e se tornam jovens de senso crítico latente. “Essas disciplinas não eram muito valorizadas porque se acreditava que faltava aplicação delas no sentido prático”, diz. Professor do Centro Educacional Sigma, Edivaldo Monte dos Santos concorda com a relevância das disciplinas e a convergência delas com a matriz do Enem. “Tudo aquilo que estudamos como pensamento constituído está relacionado com o fato histórico e o modo com que o ser humano ocupa o espaço. Um pensador pensa seu contexto. O exame pede que os estudantes do ensino médio, de posse de conhecimento das obras dos autores, façam o mesmo, a seu modo.”

Abordagem humanista
De acordo com a professora do Descomplica Enem Larissa Rocha, filosofia e sociologia se diferenciam na prova organizada pelo Ministério da Educação (MEC) pela abordagem e pela amplitude de atuação. Enquanto a primeira preza pelo conteúdo mais específico dos pensadores antigos, modernos e contemporâneos, a segunda é mais abrangente e se mostra mais versátil na abordagem interdisciplinar com história e geografia. “O exame propõe contextualização com temas recentes, que estão em pauta agora. Mesmo que sejam abordados temas históricos de muito tempo atrás, exige-se o caráter crítico de hoje. Como a sociologia trata da relação entre indivíduos em sociedade, acaba lidando com questões de cidadania, direitos humanos e representatividade social”, afirma. “Nas ciências sociais, se encontra mais interdisciplinaridade. É importante que o inscrito no Enem saiba atrelar os assuntos da disciplina à história do Brasil e do mundo”, acrescenta Crepaldi. Sendo assim, as abordagens sociológica e filosófica podem mesmo extrapolar as ciências humanas e chegar à prova de linguagens, códigos e suas tecnologias e à redação.

“Se eu colocar o pensamento de algum filósofo no texto, quem corrige pode ficar surpreso e verificar que domino o assunto”, acredita Gabriel de Oliveira, 18 anos, estudante do 3º ano do Centro de Ensino Médio (CEM) Setor Leste. “Por isso, tenho focado bastante no que dizem filósofos.” Além disso, é por meio dessas matérias que o caráter propositivo e social do exame sobressai. “É uma prova especial, na medida em que procura abordar problemas estruturais e democráticos”, afirma Paulo de Tarso, professor de sociologia do Colégio Poliedro. “Em 2017, podemos pensar numa prova que envolva o debate da democracia e de liberdades, de modo a discutir direitos individuais e da minoria e liberdade de expressão”, aponta. Minorias, nesse caso, dizem respeito não ao senso comum de grupos com menos volume de pessoas, mas, sim, aqueles cujos direitos são historicamente minoritários. “Mulheres e negros não são minorias numéricas, é claro, mas têm a construção identitária constantemente prejudicada por direitos excluídos, mantendo-se em luta por questões básicas de dignidade, respeito e representação.”

O que cai
Dos pensadores desde a antiguidade até a contemporaneidade, Edivaldo Monte dos Santos lista os que têm mais chance de serem cobrados: “Há muito espaço para a filosofia clássica, de Sócrates, Platão e Aristóteles; no cenário medieval, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino; no pensamento moderno, Descartes, Francis Bacon, John Locke, David Hume e Kant são muito importantes na construção do debate de direitos humanos; entre os contemporâneos, figuram Nietzsche, Sartre, Foucault e Zygmunt Bauman”. Este último, sociólogo falecido em janeiro aos 91 anos, destaca-se por tratar das tecnologias atuais e pela capacidade de diálogo, em função da linguagem adotada, mais acessível do que os pares dele, sempre de escrita densa e árida. “Ele se preocupou em manter essa abordagem, por meio da qual cunhou o termo ‘sociedade líquida’, conceito que o deixou famoso. Pensou a efemeridade das relações no mundo pós-moderno, discutindo como a introdução de celulares e computadores influencia as relações”, explica Paulo de Tarso.

“Os aplicativos de encontro, tão caros aos jovens, impressionam pela facilidade com que os laços se fazem e desfazem”, exemplifica. Para Edivaldo Montes, a sociologia presente no Enem se divide em dois eixos, o antropológico e o político. “No primeiro, discute-se muito a identidade de cada indivíduo e do grupo em que eles se misturam. Figuram, aqui, abordagens que podem atingir questões de gênero, de preconceito étnico, religioso e de discussão de cultura, tão presentes no noticiário hoje”, observa. Larissa Rocha afirma tratar constantemente, em sala de aula, do conceito de cultura. “A apropriação da cultura do outro, que se gosta muito de entender e atacar, esteve fortemente em debate no último ano, sobretudo porque as redes sociais dão essa voz para as pessoas atualmente.” Quando representantes de minorias colocam a cabeça para fora e procuram voz, não falta quem os ataque nem falta quem manifeste adesão solidária.

Dicas finais
A essa altura, parece uníssona a recomendação, por parte dos professores, de que o aluno não se mate de estudar, nem acredite que vai, em menos de duas semanas, compreender tudo o que jamais soube. “Não adianta sentar com calhamaço de sociologia ou filosofia e querer decodificar toda aquela linguagem complexa. Vale mais, ao contrário, fixar-se na revisão de conteúdo e em resumos feitos ao longo do ano”, afirma Larissa Rocha. “É hora de ser bastante pragmático. Pegar as provas de anos anteriores, analisá-las, destacar os autores abordados. O aluno deve conduzir a pesquisa dele para dispor dos melhores argumentos para temas sociais sob a ótica das duas disciplinas”, complementa Paulo de Tarso. Em paralelo, é importante se manter atento aos desdobramentos dos temas nos noticiários. “Sugiro observar assuntos presentes diariamente, como ética e política no Brasil, que não vencem tão cedo. Além disso, dê atenção às crises migratórias da África e do Oriente Médio para a Europa, causadas por conflitos religiosos e militares, e ainda a questões da natureza, como a água, bem de primeira importância cuja falta tem sido sentida em todo o país, inclusive no DF”, ressalta Daniel Crepaldi.
 

Como estudar as duas disciplinas?


SOCIOLOGIA

Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press
 
 
 
 
 
Ana Flávia Cardoso, 19 anos
“Na sociologia, é muito importante estudar as diversas linhas de pensamento dos sociólogos.”
 
 
 
 
 

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Francisco Franco, 18 anos
“É necessário ter pensamento crítico, saber como se deu a construção social e analisar o contexto histórico. Decorar é mais para exatas.”
 
 
 
 


FILOSOFIA
 
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Hanna Ferreira Aguiar, 18 anos
“Filósofos como Descartes e Sartre, com certeza, serão cobrados. Na minha aula de hoje, a professora falou muito sobre ética e moral, que acredito serem assuntos padrões do Enem.”
 
 
 
 

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Gabriel de Oliveira, 18 anos
“Eu me interesso por ética e moral e sei que são conteúdos muito cobrados no exame. Acredito que Sartre também deve cair, por isso, tenho estudado um pouco mais sobre ele.”
 
 
 
 



Francisco, Ana Flávia, Gabriel e Ana Ferreira, alunos do CEM Setor Leste: de olho em pensadores antigos e contemporâneos