Enem 2017
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Exame exige que candidato pense como cidadão, garante historiador

Em live, professor Antonio Barbosa ressaltou valor dado pelo Enem a temas como diversidade, tolerância e democracia

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postado em 23/10/2017 18:58 / atualizado em 23/10/2017 19:13

Nesta tarde de segunda-feira (23), a tradicional live semanal do Especial Enem teve como convidado o historiador Antonio José Barbosa. Na entrevista, conduzida pelo apresentador Ígor Caíque, o professor do Departamento de história da Universidade de Brasília (HIS-UnB) falou dos diversos temas e abordagens prováveis para a prova de ciências humanas e suas tecnologias do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). 

O bate-papo rondou assuntos como globalização e acirramento dos conflitos internos e mundiais. Mais que isso, pontuou o exame como espaço não apenas de demonstração de conteúdo acumulado, mas de pensamento do estudante enquanto cidadão. “A avaliação deve manter a tradição de dar ênfase a aspectos do Brasil — formação do país, características e atualidades. Ao mesmo tempo, por ser uma prova inteligente, vai partir do pressuposto de que o país integra a história global, portanto sofre os impactos do que acontece no mundo de mais importante”, pontua. 

Constituição
Historicamente, a área de ciências humanas do exame se preocupa com conceitos como diversidade, respeito e direitos do ser humano. Para o professor, um tema que converge com tais conceitos é o da Constituição de 1988. Quase 30 anos depois, uma questão sobre ela é a aposta do professor para o Enem 2017. “É diferente de todas as outras constituições brasileiras, especialmente pelo seu artigo 5º, aquele que trata de todos os aspectos de cidadania”, explica ele. “O artigo talvez seja o reencontro do Brasil consigo mesmo, depois de 21 anos de regime autoritário, em que as liberdades estiveram relativa ou absolutamente asfixiadas. São temas que estão na ordem do dia do mundo contemporâneo e muito acesos no Brasil. Aluno deve se preocupar com o assunto não apenas como aluno, mas como cidadão brasileiro.”

Ele situa o texto constitucional como o ponto de partida de mudanças velozes do país. Parece, às vezes, que muito mais de três décadas se passaram. “Fomos aprendendo os processos democráticos, participamos de eleições, acertamos e erramos. Estamos aprendendo a importância da política, por mais que ela nos traga tanto desgosto. Sem ela, não existe vida social.”

Contextualização
De olho na linguagem e direção do Enem desde a sua fundação, Antonio José Barbosa pontua que o exame nunca foi o que se chama de conteudista. Ao contrário, prezou tradicionalmente pela habilidade de aplicação na realidade e capacidade de contextualização. “É uma prova relativamente fácil, mas exige que o aluno saiba ler, entender o texto e se posicionar. O fato nunca é isolado, a realidade o ultrapassa”, afirma. 

Exemplo disso é uma questão de 2015 abordada na live. Aberta com um trecho de Raízes do Brasil, texto seminal do historiador Sérgio Buarque de Holanda, a indagação envolve a formação da sociedade brasileira, cuja peculiaridade “parece ter sido, por essa época, uma acentuação singularmente enérgica do afetivo, do irracional, do passional e uma estagnação ou antes uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras”, segundo o texto. “Na primeira frase, já se encontra o espírito do texto. Sérgio Buarque interpreta o mundo do ponto de vista brasileiro, sob o qual você pode entender o jeitinho, o cumpadismo e o apadrinhamento”, explica Antonio José Barbosa.

Industrialização
Perguntado sobre globalização, o historiador pondera e põe em perspectiva a origem dessa conjuntura. Certamente, não foi algo que aconteceu da noite para o dia. No fundo, o mundo entrou nesse processo há 500 anos, quando o homem empreendeu as primeiras grandes viagens ultramarinas. “Ali começa o capitalismo, que aos poucos vai se consolidando. No século 18, no final da idade moderna, explode a revolução industrial”, contextualiza. 
“Para um aluno que vai fazer a prova do Enem, é bom lembrar que a revolução é muito mais que um conjunto de inventos de máquina — é também a mudança da fisionomia do mundo e a consolidação do capitalismo como sistema dominante. O planeta deixou de ser ruralizado, passando a população a viver nas cidades.” O Brasil se encaixa nesse processo a partir dos anos 1930, quando governado por Getúlio Vargas, período sobre o qual sempre caem questões no exame.

Neofascismo
Em resposta a outra questão do Enem 2015, dessa vez sobre o nazismo alemão na Segunda Guerra Mundial, o professor pontuou que o fato abordado não é isolado. No exame, ele pode cair em termos de reverberação com o momento atual, de acirramento de ânimos entre nações e dentro dos próprios países, que sofrem com xenofobia provocada pelas correntes migratórias da África e Oriente Médio para a Europa, entre outros fatores. “O nazifacismo enquanto regime terminou, mas os conceitos persistem aqui e ali na história recente. Persistem em vários lugares pensamentos com características básicas de um regime autoritário, como o antiliberalismo, antidemocracia e a violência institucionalizada”, diz.

Próximo encontro
A poucos dias do Enem, a semana será novamente de dose dupla nas lives. Nesta quinta-feira (26), às 15h, o Correio recebe Júlio Gregório Filho, Secretário de Estado de Educação do Distrito Federal. Ele, que é professor de química por formação, tratará da prova de ciências da natureza e suas tecnologias. Acesse a página de Facebook do Eu, Estudante (facebook.com/euestudante) e participe!