Redes de ensino e professores se preparam para transição

Especialistas destacam que a transição deve ser feita de forma cautelosa, já que se passará a um sistema flexível, com possibilidades de escolha

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postado em 15/09/2017 18:45 / atualizado em 21/09/2017 19:07

Os primeiros passos de uma criança no ambiente escolar são repletos de expectativas. Para os pequenos, é um novo mundo que se abre, de aprendizagens e de descobertas. O mesmo ocorre no ensino médio. A última etapa do ciclo básico da educação, no entanto, traz consigo o desafio imposto aos jovens de tomar decisões que poderão impactar o futuro deles.
 
É por isso que a transição para o novo ensino médio será um passo importante, que poderá contribuir com o processo de escolha do estudante. Essa perspectiva exige um esforço, principalmente, de formação e capacitação dos professores, que estarão na linha de frente dos resultados que virão após a implantação da reforma.

O professor de português do Sigma Josino Nery, mais conhecido como Jota, acredita que a reorganização, de horários tanto de alunos quanto de professores, é essencial, já que pode haver o choque de horários entre alunos dos dois turnos. “É necessário que os professores se readequem antes, para que os alunos recebam um sistema organizado de verdade. Estamos passando por uma mudança radical de paradigmas, é importante que o planejamento de tudo isso seja bem feito”, acrescenta. 
 
Para a psicopedagoga e orientadora educacional Aline Nara Araújo Dias Campos, a figura do orientador educacional trabalhando com equipe pedagógica da escola é de extrema importância, até mesmo para garantir o cumprimento do projeto político pedagógico da escola.

Na avaliação dela, a mudança será positiva e um dos focos da preparação deverá ser os professores que atuarem em disciplinas formativas, aquelas entre as quais o aluno pode escolher. “Esse vai ser um momento em que o aluno vai buscar a relação entre a teoria e a prática. Isso exige que o professor trabalhe de forma interdisciplinar", ressalta.

Mudança necessária


Segundo o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), 17% dos jovens que terminam o ensino médio atualmente no Brasil ingressam no ensino superior, enquanto 8% optam pelo ensino técnico. “Além disso, em torno de 40% dos jovens que estão no primeiro ano do ensino médio atualmente abandonam a escola por não conseguirem acompanhar as matérias propostas. Por isso é importante também a reformulação das primeiras etapas da educação básica”, observa Aléssio Trindade Barros, secretário de Educação da Paraíba e coornador do grupo de trabalho do Consed que trata sobre o novo ensino médio. 
 
Apesar de os dados mostrarem que uma mudança no ensino médio é necessária, o secretário observa que não se pode esperar que o sistema funciona como em países, a exemplo de Canadá e Finlândia, que adotam modelos semelhantes. A realidade local precisa ser levada em consideração. "Devemos ter os pés no chão para enxergar a nossa realidade, não é da noite pro dia ou com um estalo de dedos que tudo será mudado. Claro que nossa estrutura física de escolas deve ser adaptada e melhorada para receber esse modelo, e é exatamente isso que buscamos", finaliza. O Consed já começou o diálogo com os secretarias por todo o país para preparar a transição (leia entrevista abaixo).

Recursos

 
O investimento previsto pelo governo federal para a reforma é de R$ 1,5 bilhão até o ano de 2018. Além disso, as escolas terão direito ao repasse de verbas da Política de Fomento à Implementação de Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral, para instituições que, a partir da publicação da lei, forem implantar o ensino integral. 

O montante repassado por ano será calculado com base no número de matrículas que o Censo Escolar da Educação Básica recebe anualmente e poderão ser utilizados para melhorias no sistema que está sendo implantado na escola, seja estrutural ou para capacitação de profissionais.

ENTREVISTA | Aléssio Trindade Barros, secretário de Educação da Paraíba 

  
Qual a principal motivação para que o ensino médio passe por toda essa mudança? 

O nosso ensino médio atual é um processo que prepara o aluno para a entrada na universidade, não sendo focado para as coisas que dizem respeito à vivência do aluno. Por conta disso, o ensino médio se tornou um sistema muito teórico e pouco prático, sendo que a prática é o que está ligada à vida do estudante. Além disso, a porcentagem baixa de alunos que ingressa na universidade é preocupante, pois acaba mostrando que o estudante não está apto a entrar em uma instituição de ensino privado, mas também não está pronto para ingressar no mercado de trabalho. A partir daí, pensamos em o que fazer para mudar a realidade. Foi quando observamos os modelos de países que têm um sistema educacional de ensino médio desenvolvido, como Finlândia e Canadá. A partir dessa observação, concluímos que esses países valorizam a escolha do estudante, da prática do aprendizado, então há essa questão do sentido da escola na preparação para a vida do estudante após o término dos seus estudos. Ou seja, é essa mudança que precisa haver no ensino médio. 

Mudar de um sistema para outro pode ser um grande desafio. O que o senhor destacaria como principal mudança que deve ser feita durante o processo de transição?

%u200BA transição de um sistema escolar autoritário, no que diz respeito à transferência do conhecimento do professor e da escola para o jovem, deve ser feita de forma cautelosa, já que vamos lidar com um sistema flexível, com possibilidades de escolhas. Atualmente, temos uma rede com carências de estrutura de laboratórios. Muitas vezes, falta até de uma coordenação pedagógica, da aprendizagem do aluno, formação de professores. Então temos uma história, e é necessário dialogar com ela, não é apenas ter vontade de mudar por meio de uma lei todo o ensino médio, precisamos pensar em mudanças estruturais. Devemos lembrar que estamos em um país que está reduzindo os investimentos em educação e as metas que o PNE (Plano Nacional de Educação) precisa bater para financiamento não estão sendo alcançadas e respeitadas. Precisamos ter toda uma conversa sobre financiamento que está um pouco truncada, mas ainda há necessidade de continuidade dos investimentos estruturantes na reforma e ampliação das escolas. %u200BPrecisamos equipar as escolas, precisamos capacitar nossos professores para a mudança, além do próprio arranjo de instituições de ensino. Existem municípios que têm só uma escola, como trabalhar a flexibilidade em um lugar como esses? São questões que devemos pensar, pois é uma mudança muito grandiosa. 

Como Consed está trabalhando para contribuir com a transição?

O Consed modelou um curso de desenvolvimento do ensino médio. Ccada estado conta com técnicos que estão fazendo um estudo aprofundado e um diagnóstico de como está o ensino médio local, com todos os gargalos do projeto de cada estado. É um plano de desenvolvimento do ensino técnico para cada unidade da Federação. E esse é um projeto que ainda está no início e deve acabar em 2018. Então, com relação a isso, o Consed acredita que é preciso ter calma, precisamos estudar, aprofundar,  precisamos saber o que é preciso ser base em cada local para que haja cobrança e reivindicação, tanto do ponto de vista do legislativo quanto do ponto de vista do funcionamento do MEC.