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Uma prova, várias portas

O Enem é chave para estudantes conquistarem vagas em universidades públicas, bolsas de estudo, financiamento estudantil, certificado de conclusão do ensino médio e oportunidades de intercâmbio no exterior

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postado em 11/09/2014 10:03 / atualizado em 11/09/2014 10:50

Jéssica Paula, Especial para o Correio

 
"Preciso me dedicar muito para me sair bem, principalmente em matemática, que é a disciplina em que tenho mais dificuldade". William Araújo, 17 anos, aluno da 1ª série do ensino médio


Entre as mais de 8,7 milhões de pessoas que farão o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 8 e 9 de novembro, está William Araújo, 17 anos, aluno da 1ª série do ensino médio e estagiário em um banco. Como tantos moradores de Brasília, ele está de olho em concursos públicos e pretende usar a prova para conseguir o certificado de conclusão do ensino médio antes de terminar os estudos. “Estou pensando lá na frente. Minha família me apoia. Estou estudando para um concurso de nível médio e, se eu for aprovado, vou precisar do certificado. Se eu passar, é porque tenho capacidade e não preciso esperar”, acredita. Para ter direito ao benefício, é preciso completar 18 anos até o dia da primeira prova do Enem, além de conquistar pelo menos 450 pontos em cada uma das quatro provas objetivas e 500 pontos na redação. “Preciso me dedicar muito para me sair bem, principalmente em matemática, que é a disciplina em que tenho mais dificuldade”, diz. William não está sozinho na tarefa de usar o Enem para acelerar os estudos. Em 2013, 60.320 pessoas utilizaram a nota do exame para conseguir o certificado.

Ao abrirem mão de um fim de semana para resolver 180 questões e escrever uma redação, os jovens brasileiros fazem um grande investimento no futuro, já que a nota obtida no Enem abre várias portas. Além de substituir um supletivo, o estudante pode utilizá-la para se inscrever no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) — que deve oferecer este ano cerca de 130 mil vagas em 118 instituições de ensino superior —, conseguir bolsa numa instituição particular por meio do Programa Universidade para Todos (Prouni) ou financiamento pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Além desses caminhos, o Enem pode concretizar o sonho de quem quer estudar no exterior: a nota do exame é requisito para participar do programa Ciência sem Fronteiras e, desde maio, é aceita por duas universidades públicas de Portugal (Coimbra e Beira Interior) como alternativa de acesso de alunos brasileiros.

Quando o Ministério da Educação (MEC) criou o Exame Nacional do Ensino Médio, em 1998, a prova não tinha tanta funcionalidade. Servia para o aluno fazer uma autoavaliação, mas, como não oferecia contrapartida, não despertava grande interesse. A partir de 2009, quando foi reformulado, o teste opcional passou a ser porta de entrada para diversas oportunidades e atraiu o interesse de milhões de alunos. Segundo Artur Costa, consultor pedagógico do Sistema Ari de Sá, exames como esse são uma tendência mundial. “A nível de globalização, estamos nos equiparando a nações desenvolvidas. Em vários países, o acesso ao ensino superior funciona desta maneira: um exame é usado como critério para diferentes processos seletivos”, explica. Artur acredita que o sistema é justo e democrático. “Assim, diminui-se a desigualdade, pois todos são avaliados sob os mesmos critérios e têm acesso às mesmas oportunidades”, completa.

A diretora e professora de português de Centro de Ensino Médio Setor Leste Joselma Ramos defende que o Enem é também uma grande oportunidade para alunos em defasagem escolar. “Temos estudantes que estão cerca de dois anos atrasados nos estudos. Mesmo assim, eles estão em perfeitas condições de serem aprovados pelo exame. Eles só precisam de estímulo. Além disso, alunos que abandonaram a escola pretendem voltar porque têm uma chance de concluir o ensino médio de forma mais rápida”, complementa.
 
Bolsa para uma instituição particular


 (Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press) 


O Enem facilitou o acesso às universidades públicas; mesmo assim, conquistar vaga em uma instituição gratuita é para poucos: segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), 73% dos universitários brasileiros estudam em faculdades particulares. Por isso, Jhonathan Barbosa (foto), 20 anos, investe no Programa Universidade para Todos (ProUni) para conquistar uma vaga no Centro Universitário de Brasília (UniCeub). Natural de Niquelândia, ele sempre estudou em escola pública e veio para Brasília fazer cursinho para medicina. “Assim ficaria mais fácil passar para medicina”, justifica. Agora ele se prepara para o exame dedicando-se às disciplinas em que não teve boas notas nas últimas provas. “Física, química e matemática são as mais difíceis para mim”, diz. “Estudo até as 23h30 diariamente. Só tiro o sábado para descansar um pouco e no domingo volto aos estudos. É pesado, mas sei que vai valer a pena”.

O Prouni proporciona bolsas de estudos em universidades particulares para estudantes que não têm condições de pagar as mensalidades. Para participar, é preciso ter cursado o ensino médio completo em escola pública ou em escola privada com bolsa integral, ter alguma deficiência ou ser professor da rede pública de ensino básico. Com o resultado do Enem, o candidato fica dispensado do vestibular. Para ter a chance de disputar uma bolsa é preciso obter, no mínimo, 450 pontos no Enem. Para Luiz Lobo, diretor da Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup), o Prouni significa um grande avanço para a educação brasileira. “Não tem como criar uma política pública para facilitar a inserção de estudantes nas universidades sem existirem vagas suficientes. Por isso as faculdades particulares estão suprindo uma necessidade que o governo não tem capacidade de atender”, acrescenta.

Outra opção para quem não tem condições de pagar as mensalidades de uma faculdade particular é o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). O programa do Ministério da Educação permite financiar os valores das mensalidades. Assim, o estudante só precisa pagar quando estiver formado e inserido no mercado de trabalho. Para solicitar o financiamento, é preciso estar matriculado em curso de ensino superior em instituição particular e ter feito o Enem. 
 
Exigência para o Ciência sem Fronteiras


 (Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press) 


Aluno do 5º semestre de engenharia florestal da Universidade de Brasília (UnB), Arthur Santos (foto), 19 anos, sonha com uma experiência no exterior, de preferência no Canadá. Para participar do programa de bolsas de intercâmbio Ciência sem Fronteiras (CsF), ele fará o Enem este ano. Apesar de ter saído do ensino médio há algum tempo, o jovem sente que está preparado. “Resolvi as provas passadas e busquei estudar conteúdos específicos, como língua portuguesa. Meu principal objetivo neste novo desafio é amadurecer, graças à independência e à responsabilidade que a experiência de um intercâmbio pode oferecer”, conta.

Desde a primeira edição do CsF, em 2011, foram concedidas 84,9 mil bolsas de estudos para alunos de graduação e pós-graduação aperfeiçoarem-se em 43 países. Para participar, além de outros critérios — como ter concluído no mínimo 20% e no máximo 90% do curso —, é preciso obter, no mínimo, 600 pontos no Enem feito depois de 2009. A psicopedagoga Telma Freitas acredita que a condição é importante. “Foram feitos vários estudos para que fossem estabelecidos esses novos critérios. Se um aluno não fez o Enem, ele não atende a todas as características necessárias para participar de um intercâmbio”, defende.
 
Acesso a uma universidade federal


 (Ana Rayssa/Esp.CB/D.A Press. Brasil) 


Na concorrida disputa por uma vaga em medicina na Universidade de Brasília (UnB), Ana Luísa Pires (foto), 17 anos, aluna da 3ª série do ensino médio, investe pesado nos estudos para o Enem. O plano B é a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Tenho alguns parentes que vivem em Florianópolis. Sei que ser aprovada na UnB será muito difícil e estou me preparando, caso eu tenha que me mudar para outra cidade”, diz. Ela faz simulados e vestibulares. “Busco estudar as disciplinas em que tenho mais dificuldade. No meu caso, o maior problema está na área de humanas”, conta. Apesar de estudar bastante, a jovem sabe equilibrar estudos e lazer. “Não deixo de viver minha vida. Frequento a igreja e saio com os amigos. Costumo deixar os horários bem marcados para não ficar muito atribulada”, garante.

O Enem mudou a perspectiva de muitos alunos que, como Ana Luísa, não pensavam em sair de casa. A professora de biologia do cursinho Olimpo Fernanda Castro avalia a mudança como positiva. “Com o Enem, a tendência é de que o aluno, por ter mais opções além das faculdades de sua região, não fique se martirizando caso não consiga uma vaga na universidade mais próxima”, analisa. “Esse processo estimula a busca por universidades de outros estados, o que é muito positivo”, completa. 
 
Para o outro lado do oceano

 
Mayara Reis, 17 anos, está na 3ª série do ensino médio e quer estudar publicidade na Universidade de Coimbra. Como é a primeira vez em que é possível utilizar a nota do Enem para ingressar na instituição, ela não sabe se está apta para ser aprovada neste ano. “Acho que será tão difícil quanto conseguir uma vaga numa universidade pública brasileira”, conta ansiosa. “Sonho alto mesmo. Sou apaixonada pela Europa e adoraria entrar para o estilo de vida português. Sou muito apegada à minha família, mas eu a levaria junto. Meus pais já pensaram em se mudar para Portugal. Eles não se importariam de ir se conseguissem um emprego por lá.”

A Universidade de Coimbra, uma das mais antigas do mundo, oferece 630 vagas em cursos de graduação para estudantes brasileiros, que serão selecionados por meio do Enem. Os selecionados precisam arcar com os custos da mensalidade, que giram em torno de 700 euros (R$ 2,1 mil). Outra universidade portuguesa que aceita o Enem como forma de ingresso é a Universidade da Beira do Interior, que fica na cidade de Covilhã, a 223km de Lisboa. Os aprovados devem pagar mensalidades que chegam a R$ 15 mil por ano. Segundo o Ministério da Educação, quem se graduar nessas instituições não terá problemas para validar seus diplomas no Brasil.
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