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Mulheres são a maioria no Enem

Pesquisa do Inep revela que a maior parte dos 8,7 milhões de inscritos no exame mora no Sudeste, declarou ser negro, terminou o ensino médio e tem de 16 a 20 anos. O uso do nome social por transexuais será a novidade desta edição

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postado em 15/09/2014 13:48 / atualizado em 15/09/2014 16:22


Thiago pretende, por meio do Enem, uma bolsa integral para cursar publicidade e propaganda (Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press) 
Thiago pretende, por meio do Enem, uma bolsa integral para cursar publicidade e propaganda


Fabíola vai utilizar a pontuação para ingressar em uma das ofertas do Pronatec (Ana Rayssa/Esp.CB/D.A Press) 
Fabíola vai utilizar a pontuação para ingressar em uma das ofertas do Pronatec


Arte
Segundo balanço divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (Inep), entre os mais de 8,7 milhões de estudantes inscritos no exame neste ano, a maioria é mulher, tem entre 16 e 20 anos e concluiu o ensino médio. Segundo Célio da Cunha, professor de pós-graduação em educação da Universidade Católica de Brasília (UCB), o grande número de candidatos que concluíram o ensino médio inscritos no exame está relacionado aos outros objetivos que a prova passou a atender. “Essa mudança integra uma política nacional de oferta de vagas e oportunidades de estudo superior para os jovens. A possibilidade de poder utilizar a nota do Enem para ingressar em um curso profissionalizante pelo Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) ou para conseguir bolsa numa universidade faz parte de uma política de inclusão na educação”, completa.

Para o psiquiatra especializado em vestibulandos Daniel Guzinski, a adoção do exame por mais universidades e a possibilidade de utilizar a nota para programas de intercâmbio e cursos técnicos também contribuiu para a formação do perfil dos inscritos. “A principal mudança trazida pelo novo Enem foi a unificação de diversos processos seletivos numa única prova. No vestibular tradicional, o estudante precisava viajar para fazer cada uma das provas que desejava disputar. Essa será a sexta edição do exame reformulado e temos visto o crescimento no número de inscritos ano após ano.”

Dedicar horas do dia a livros e apostilas, resolver exercícios e provas anteriores e testar os conhecimentos para a redação são atividades que fazem parte do cotidiano do estudante Thiago Souza, 19 anos, e de tantos alunos que farão o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em 8 e 9 de novembro. “Quero utilizar a nota da prova para conseguir uma bolsa de estudos integral em publicidade e propaganda em uma instituição particular ou uma vaga numa universidade pública. Agora, estou revisando matérias com exercícios e simulados”, conta.

A segunda faixa etária com mais candidatos é aquela que reúne estudantes entre 21 e 30 anos. Adriana Silva, 21 anos, faz parte desse grupo. Desde 2011, quando concluiu o ensino médio, ela estuda para o vestibular da Universidade de Brasília (UnB) e passou a se preparar mais intensamente para o Enem depois que a instituição adotou a nota do exame para o ingresso. “Quero cursar serviço social. Esta será a quarta vez que farei o exame. Neste ano, estou mais confiante do que nos anteriores. Espero alcançar uma boa nota e me sair bem na redação”, planeja.

Oportunidades
Aluna do 5º semestre de comunicação organizacional da UnB, Fabíola Mariano, 22 anos, fará novamente o exame neste ano. Desde 2010, quando concluiu o ensino médio, a estudante realiza as provas para testar os conhecimentos nas disciplinas, mas, neste ano, o objetivo é outro. “Faço a prova com os conhecimentos que me recordo do ensino médio e tenho tirado mais ou menos a mesma nota em todos os anos. Agora, vou utilizar a pontuação para tentar entrar em algum curso na minha área pelo Pronatec”, explica. “A prova abrange cada vez mais questões do dia a dia. Estou sempre em contato com atualidades por conta da minha graduação; por isso, será mais fácil para mim”, aposta.

O estudante de cinema no Centro Universitário Iesb Anderson Rodrigues, 26 anos, utilizará o resultado do Enem para tentar um intercâmbio pelo Ciência sem Fronteiras. Ele realizou a prova em 2004, quando concluiu o ensino médio e, para não ficar desatualizado, está fazendo um curso preparatório. “Hoje, tenho certeza do que quero seguir profissionalmente e decidi fazer novamente a prova, já que ela me dará a chance de melhorar meu currículo com uma experiência fora”, explica.

A tentativa de ingressar em um curso de medicina por meio da nota do Enem foi a motivação para que a estudante de enfermagem da UnB Taynara Moura, 20 anos, realizasse a prova neste ano. “Ingressei na universidade pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS), mas não gostei do curso. Antes, não sentia a necessidade de fazer o Enem, porque muitas universidades não o utilizavam. Quando me formei no ensino médio, não tinha muita serventia”, lembra. “Vou tentar usar a nota para buscar vagas em universidades em São Paulo ou na Região Sul”, completa.

Atendimento
Em 2014, 69.396 estudantes solicitaram horário diferenciado para a realização do exame por terem que guardar o sábado por motivos religiosos. É o caso da aluna da 3ª série do ensino médio Brenda de Paula Azevedo, 17 anos. Seguidora da religião adventista, ela tem o costume de guardar os sábados e somente realizará a prova do exame após o pôr do sol neste dia. “Entramos no mesmo horário que os outros candidatos, mas ficamos aguardando em uma sala separada. Iniciamos a prova por volta das 18h e ficamos até mais tarde. É bom ter essa opção que respeita minha crença e estou acostumada com o horário, mas é cansativo ter que fazer a prova durante a noite, após aguardar todo o dia”, explica.

No primeiro dia de realização dos exames deste ano, mais de 92 mil estudantes tiveram o pedido atendido para contar com atendimento específico durante a realização da prova. É possível pedir para gestantes, lactantes, idosos e classe hospitalar. Nas inscrições que solicitaram tratamento especial, há estudantes que pediram sala de mais fácil acesso (15.115), prova ampliada ou superampliada (7.923), prova em braile (493), auxílio de ledor (5.739), auxílio para transcrição (6.328), apoio para a perna (3.239), guia intérprete (16), leitura labial (1.441), mesa para cadeira de rodas (2.697), mesa com cadeira separada (4.528) ou outros atendimentos (3.697).



"A principal mudança trazida pelo novo Enem foi a unificação de diversos processos seletivos numa única prova”
Daniel Guzinski, psiquiatra especializado em vestibulandos
 
Inclusão para os transgêneros


Na primeira vez em que o Exame Nacional do Ensino Médio admite o uso de nomes sociais, 95 alunos transgêneros — transexuais e travestis — fizeram essa opção. Em 8 e 9 de novembro, o grupo não passará por constrangimentos relatados em provas anteriores, quando estudantes não foram reconhecidos em identidades ou tiveram que assinar um formulário destinado a quem não tinha documentos oficiais. Segundo Keila Simpson, vice-presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), a medida contribui para evitar mal-estar. “Neste ano, esses candidatos podem fazer a prova mais tranquilos, já que não passarão por constrangimentos. Foi uma surpresa positiva que 95 estudantes tenham feito a solicitação. É um número significativo. A educação é uma forma de as pessoas conseguirem seu espaço na sociedade e poder usar o nome social em um exame nacional é um reconhecimento e uma tentativa de inclusão”, analisa.

A estudante e transexual Anne Silva, 28 anos, fará o Enem neste ano, mas não conseguiu solicitar a utilização de seu nome social no exame. “Era preciso apresentar um laudo de psiquiatras e psicólogos que comprovasse a minha condição. Esse documento somente é obtido após dois anos de acompanhamento. Ainda não tenho esse tempo, então não consegui fazer a solicitação”, explica a estudante, que tentará uma vaga na UnB em algum curso da área de saúde. “Não é costume adotar o nome social nessas situações, então, sempre que faço uma prova preciso explicar a situação. Já chegaram até a pensar que eu portava documentos falsos”, conta.

Dentro da universidade
Em 2012, o estudante de ciência política Marcelo Caetano Zoby, 24 anos, conseguiu a regulamentação para ter o nome social impresso na lista de chamada, na carteira estudantil e nos processos internos da Universidade de Brasília (UnB). “Vim de uma experiência anterior na Universidade Federal do Paraná, onde eu utilizava meu nome social. No primeiro semestre, fiz a solicitação para que a UnB regulamentasse o uso para todos os estudantes”, explica. Estudante do sétimo semestre de ciência política, Marcelo nasceu mulher, mas se reconhece como homem. Segundo ele, a medida garantiu o respeito de professores e funcionários que, muitas vezes, tratavam-no pelo nome de registro que estava impresso nos documentos. “Não permitir que o estudante use seu nome social é negar a pluralidade e a própria identidade das pessoas”, completa.

"A educação é uma forma de as pessoas conseguirem seu espaço na sociedade e poder usar o nome social em um exame nacional é um reconhecimento e uma tentativa de inclusão na educação”
Keila Simpson, vice-presidente da ABGLT
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