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Equilíbrio na preparação

Estudantes dividem o tempo entre cursinho e escola regular na tentativa de se prepararem melhor para o Enem. Mas a sobrecarga de dedicação pode ser prejudicial e impor ao candidato uma frustração. É preciso descansar para conseguir aprender

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postado em 29/09/2014 12:41 / atualizado em 29/09/2014 13:01

Ana Paula Lisboa , Jéssica Paula, Especial para o Correio

ublicação: 29/09/2014 04:00

Jeanny Dutra e Georgethown Mantzos apelam para o café para ficarem acordados e estudar e darem conta das tarefas do ensino regular e do cursinho (Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press ) 
Jeanny Dutra e Georgethown Mantzos apelam para o café para ficarem acordados e estudar e darem conta das tarefas do ensino regular e do cursinho

 (Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press ) 


Aos 15 anos, Vinícius Pedrada encara uma rotina mais apertada do que a de muitos trabalhadores. Ele cursa a 2ª série do ensino médio no Centro de Ensino Médio 1 de Sobradinho, tem aulas de espanhol duas vezes por semana e, desde o ano passado, faz um cursinho preparatório para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “Eu achava que não estava bem preparado para quando chegasse o dia do Enem, então decidi complementar os estudos com o cursinho. Quero fazer relações internacionais, um curso que tem alta nota de corte e, quanto mais eu estudar, mais me sentirei seguro”, conta. Ele só lamenta não ter tempo para a vida social. “Muitas vezes, surgem compromissos com minha família ou com meus amigos, mas eu não vou.”

Assim como Vinícius, Gabriela Moreira, 17, também está concentrada na preparação. Ela estuda pela manhã no Centro Educacional Gisno e passa a tarde no cursinho. Gabriela sonha cursar medicina veterinária na Universidade de Brasília (UnB). Quando volta para casa, ela estuda, pelo menos, até as 23h. Mesmo com uma rotina cansativa, garante que o fato de fazer cursinho e escola ao mesmo tempo não a prejudica. “É preciso ter foco, e o Enem é minha prioridade”, diz.

Dedicação total aos estudos pode parecer a receita certa para a aprovação. Mas, segundo especialistas, não funciona bem assim. De acordo com Raison Pinheiro, psicólogo, psicopedagogo e diretor de consultoria educacional do Sistema Ari de Sá, “o ditado que diz que tudo demais é veneno é muito adequado. Para ter um bom resultado no Enem ou em qualquer outro tipo de estudo, o aluno tem que se preparar como um maratonista: gradativa e progressivamente e a médio prazo. Matar-se de estudar só vai deixá-lo morto, mas não o fará passar”, alerta.

Segundo Pinheiro, fazer um cursinho além da escola é dispensável na maioria dos casos. “Aluno que faz escola de qualidade não precisa de cursinho. Mesmo os que estudam em escola pública, se tiverem disciplina e dedicação, conseguem superar”, afirma.

“O cursinho é para quem deseja cursos extremamente concorridos, como medicina. Não é para quem ainda está estudando. É para quem concluiu o ensino médio e não foi aprovado. Não recomendo que um aluno de ensino médio se dedique a um expediente extra. Isso causa estresse e saturação da assimilação de conteúdos”, acrescenta Pinheiro

O psicopedagogo alerta, porém, que apenas assistir às aulas não é suficiente. “Na escola, não se garante o aprendizado. Depois da aula, o aluno precisa se debruçar no conteúdo e criar calo na bunda para as outras etapas do aprendizado se concretizarem. Três a quatro horas por dia devem bastar. No sábado, dê apenas uma revisada. Reserve o domingo para não estudar e aproveitar as outras coisas que a vida proporciona”, recomenda.

Sem parar

O número de inscritos no Enem aumentou 21,6% em relação à edição de 2013, chegando a 8,7 milhões. No Distrito Federal, onde há 160.910 candidatos para o exame deste ano, o crescimento foi de 29%. O maior número de interessados na prova pode se constituir um fator de estresse a mais, como explica Edison Soto, professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (FE/UnB). “A concorrência acirrada faz com que o aluno se pressione mais por acreditar que será muito difícil conseguir uma aprovação”, observa.

Para se sair bem, é preciso estudar, mas é necessáiro ter cuidado e respeito aos próprios limites. O médico psiquiatra Antônio de Azevedo explica que exigir mais do que o corpo aguenta pode ter consequências negativas para a saúde. “Não adianta sobrecarregar o cérebro porque pode surtir o efeito contrário. É na hora do sono que armazenamos as informações. Se não dormir direito ou não tiver intervalos durante o dia de estudos, o estudante pode perder grande parte das informações que poderia ter guardado”, alerta.

Isabela Paiva, 18 anos, ignora a recomendação e divide a atenção entre duas atividades completamente diferentes. Aluna do curso de psicologia em uma universidade particular, ela quer cursar medicina e, agora, faz um cursinho preparatório para o Enem. Quando chega em casa, não há descanso: ela ainda precisa estudar mais. “Psicologia é interessante. Estou no primeiro semestre, mas senti que não é para mim. Gosto mesmo é da biologia e admiro muito o trabalho dos médicos”, explica. “Fazer faculdade e cursinho é complicado porque tenho provas e trabalhos da faculdade e, às vezes, não dá tempo para estudar tudo”, conta.


"Não recomendo que um aluno de ensino médio se dedique a um expediente extra.
Isso causa estresse e saturação da assimilação de conteúdos”


Raison Pinheiro,
psicológo e psicopedagogo


Sem estresse

» Não estude com sentimento de culpa: muitos alunos estudam demais na reta final por sentirem que não se dedicaram como deveriam antes. Um ano só de esforço não vai adiantar. A prova do Enem não é de memorização. Ela exige conhecimento de vida e muitos anos de estudo.

» Para reduzir o estresse, o maior segredo é fazer o que você acha que deveria. A sensação de dever cumprido reduz o estresse e a ansiedade.

» A família pode ajudar muito ou atrapalhar muito. Naturalmente, os alunos já se cobram bastante. Pais que cobram ainda mais, que dizem que o filho não vai conseguir, provocam medo e insegurança.
O papel do pai deve ser de suporte, e não de cobrança.

» Preparo cognitivo, físico e emocional são as bases para se sair bem. A prova do Enem é desgastante: são 10 horas de aplicação que podem deixar a pessoa em frangalhos. Para não se deixar abater, é preciso ter preparo físico, cognitivo (a partir do estudo) e também emocional. Se sentir que não tem serenidade e equilíbrio, o recomendado é procurar um psicólogo.

Fonte: Raison Pinheiro, do Sistema Ari de Sá


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Na edição de amanhã, o Correio trará mais um fascículo, que abordará Qualidade de vida das populações humanas — geografia —, e Diversidade cultural, conflitos e vida em sociedade — sociologia e história.
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