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Sem barreira para deficiente

Nesta edição, 47% dos candidatos com necessidades especiais pediram atendimento especializado a fim de realizar as provas

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postado em 20/10/2014 12:25 / atualizado em 20/10/2014 12:36

Kelsiane Nunes /Especial para o Correio

Kelsiane Nunes/Esp. CB/D.A Press
Cega do olho direito por conta do descolamento da retina e com baixa visão no esquerdo — ela tem 10% de visão quando usa óculos —, Márcia Gomes, 44 anos, foi obrigada a abandonar a profissão de contadora devido à piora dos problemas de vista e, hoje, busca nova formação, em psicologia, por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Ela está entre os 36,3 mil candidatos que pediram, no momento da inscrição, atendimento especializado para fazer a prova, em 8 e 9 de novembro. “Ser contadora é inviável por conta da minha condição. Como psicóloga, a falta da visão não dificultará meu desempenho profissional porque o trabalho é na análise da fala do paciente, então terei mais exigência da mente do que da visão”, diz.

No Enem, Márcia pediu o recurso da letra superampliada. “Como ainda tenho resíduo de visão, eu consigo ler de perto. Tive a experiência de fazer uma prova de concurso com ledor e acabei me atrasando muito. Percebi que não tenho facilidade de ouvir a pessoa”, lamenta. Mesmo assim, ela acredita que, no Enem, será diferente. “Não tenho receio porque a acessibilidade melhorou muito e as provas costumam ser bem organizadas”, diz. A poucos dias da avaliação, ela se sente ansiosa. “É a primeira vez que vou fazer o Enem. Não sei como vou me comportar. Estou com o meu coração a mil”, afirma.

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) oferece uma série de opções de adaptação para pessoas com deficiência e as encaminha para locais com a infraestrutura necessária. Quando é preciso complementar a adaptação, o Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe) fica responsável por providenciá-la.

Libras

Alunos do 3º ano do Centro Educacional Gisno, Jefferson Cândido, 19 anos, David Ferreira, Letícia Rodrigues, Túlio Cardoso e Geane Sara da Silva,18, são surdos e solicitaram o intérprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras). “Sempre preciso do intérprete para entender os conceitos de palavras. Só assim consigo compreender o conteúdo das questões”, conta David, que quer fazer direito na Universidade de Brasília (UnB). Para auxiliar o aprendizado, os alunos fazem aulas de reforço no Centro Educacional de Audição e Linguagem Luduvico Pavoni (Ceal).

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Geane garante não estar tensa com a prova nem com a necessidade de um intérprete. “Eu estou um pouco ansiosa, mas vou me organizar para ficar preparada. Eu preciso do auxílio porque sozinha não consigo entender a prova”, conta a jovem, que sonha em cursar ciência da computação na UnB.

Túlio nasceu surdo e solicitou a ajuda de intérpretes de Libras para as provas das duas primeiras etapas do Programa de Avaliação Seriada (PAS) da UnB. Mas o auxílio não foi suficiente. “Às vezes, o intérprete sabe pouco sobre um assunto e não ajuda na interpretação”, conta. Ele pretende fazer letras português na UnB porque quer ajudar outros surdos a entenderem melhor a língua. “Acho difícil a prova porque o português utilizado é mais rebuscado que a Libras”, diz apreensivo o estudante.

Letícia Rodrigues, 18 anos, estuda no mesmo colégio que Túlio e também fez as provas do PAS. Ela afirma que a ajuda do intérprete é boa, mas que, em algumas ocasiões, há divergências na tradução. “Às vezes, a interpretação dada acaba sendo diferente do que é exigido na prova”, relata.

Dificuldades

O presidente da Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos (Apada), Marcos de Brito, acredita que, para o intérprete desenvolver um bom trabalho, é preciso ter acesso às provas antes da aplicação. “No caso dos surdos, o português é uma segunda língua. Em Libras, o vocabulário é visual e, ao ler um texto, ele não consegue entender e contextualizar todas as palavras. Isso pode induzir o participante ao erro.”

É preciso muito cuidado para não prejudicar os candidatos, como o que ocorreu com seis surdos de Curitiba que recorreram à Justiça, em 10 de dezembro de 2013, para refazer a prova.Eles alegaram que foram prejudicados por conta da tradução do intérprete. O pedido dos estudantes foi acolhido e eles fizeram o exame em 26 e 27 de julho.

O caso impulsionou a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feis) a entrar com ação judicial coletiva, em maio 2014, contra o Inep e pedir uma indenização de R$ 24 milhões. O valor seria revertido a fundos para o desenvolvimento de tecnologias para acessibilidade em Libras no exame. “Muitos alunos procuram a federação para reclamar do problema. Os novos casos são encaminhados para corroborar com a ação coletiva, pois, caso seja julgada procedente, ela será válida para todos”, afirma Bruno Meirinho, advogado responsável pelo caso.

Por meio da assessoria de imprensa, o Inep informa que as adequações dos testes são realizadas pela Comissão de Especialistas em Adaptação de Itens e Provas, que estuda a melhor forma de realizar o atendimento a pessoas com deficiência.

Para o professor do Departamento de Processos Psicológicos Básicos (UnB) Domingos Sávio Coelho, a forma como é oferecida a acessibilidade, hoje, ajuda, mas ele defende que o processo precisa ser repensado. “Seria muito importante e crucial ver se esse formato é o que interessa. Acho que o melhor seria o exame como o da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)”, exemplifica.

Desde 2010, a Comissão Permanente do Vestibular (Coperves), responsável pela formulação e pela aplicação do vestibular para a UFSM, oferece o edital e as provas em Libras. “Uma associação de pais de candidatos com deficiência auditiva solicitou uma reunião para discutir sobre a avaliação das redações desses candidatos, pois eram utilizados os mesmos critérios dos que não apresentam deficiência, e eles normalmente zeravam a prova e eram eliminados", conta Edgar César Durante, presidente da Coperves.

Opções

O atendimento especializado é voltado para pessoas com deficiência e foi solicitado por 36.385 candidatos. Idosos, gestantes, lactantes, pessoas que guardam o sábado por convicção religiosa ou estudam em instituição hospitalar por causa de tratamento de saúde recebem o atendimento específico.

Ajuda qualificada

Para garantir que os candidatos sejam bem atendidos, o Inep exige que os aplicadores tenham ensino médio completo e cursos de capacitação para cuidar das deficiências apresentadas pelos participantes. Todos os responsáveis pela aplicação participam a distância de curso sobre a realização e a logística do exame e sobre capacitação presencial. O instituto oferece vídeos, manuais e folhetos com orientações adicionais para o dia das provas.

Para cada classe de aplicador, é exigida qualificação específica. Ledores, transcritores e acompanhantes da prova de braille precisam ter curso na área de, no mínimo, 12 horas e ter atuado em dois exames. Para aqueles que solicitaram ajuda de ledores, serão disponibilizados dois para cada participante. Será um transcritor ou acompanhante da prova em braille para cada candidato.

Os surdocegos terão direito ao acompanhamento de dois aplicadores que tenham realizado curso específico para o atendimento. Um dos aplicadores tem conhecimento da língua estrangeira escolhida pelo participante. Para todos esses casos, o participante tem direito a sala individual. O tradutor-intérprete de libras ou para leitura labial precisa de certificado emitido pelo Exame Nacional para a Certificação de Proficiência no Uso e no Ensino de Libras (Prolibras), exame realizado pelo Inep que dá certificado de tradutor e intérprete de Libras, ou por organização reconhecida que comprove o conhecimento da linguagem. Serão dois tradutores-intérpretes para cada sala com até seis candidatos.

Marcus Vinícius de Carvalho, 21 anos, foi ledor na última prova do Enem. Ele é estudante do 8° semestre de arquitetura e urbanismo da Universidade de Brasília e se cadastrou como aplicador reserva do Cespe. Ele conta que desenvolver a função não é uma tarefa fácil. “É preciso ler tudo, repetir quantas vezes necessário e, caso o candidato seja cego ou tenha deficiência visual, tem que passar a mão dele sobre o gráfico e explicar o que tem ali sem ajudar o participante”, explica. O ledor também precisa de atenção e ritmo de leitura para não atrapalhar. “O texto deve ser lido com clareza, respeitando os sinais gráficos”, detalha.

Ana Regina Saviano é uma das responsáveis pelo Núcleo de Integração à Vida Acadêmica do Centro Universitário de Brasília (Uniceub), que atua com alunos com necessidades educacionais e deficiências em geral. Ela acredita que um ledor mal preparado pode influenciar negativamene no desempenho do candidato. “A experiência do ledor é necessária e importante. Uma leitura não linearizada na questão técnica ou clara pode atrapalhar as respostas do candidato. Tem que ser vista a individualidade de cada participante. Alguns têm mais facilidade para entender o que está sendo lido ou traduzido, outros mais dificuldade, e o profissional tem que estar atento a essas questões. As pessoas têm que saber a importância disso, porque são os olhos dos alunos”, destaca a especialista.
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