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Experiência da idade no Enem

O número de idosos que se inscreveram para fazer o exame deste ano aumentou 42% em relação ao ano passado

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postado em 29/10/2014 11:28 / atualizado em 29/10/2014 11:59

Kelsiane Nunes /Especial para o Correio

Oswaldo Reis/Esp. CB/D.A Press
Depois de passar 40 anos fora das salas de aula, o aluno do 3º ano da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e mecânico aposentado José de Arimatéia Falcão, 61 anos, passa as noites no Centro de Ensino Médio (CEM) nº 1 de Sobradinho para alcançar as metas de terminar o ensino médio e se tornar engenheiro mecânico. “Eu quero insistir para ver se consigo realizar meu sonho de fazer uma faculdade e vejo o Enem como uma maneira mais prática de conseguir isso”, diz entusiasmado. Seu Ari, como gosta de ser chamado, faz parte do grupo de 15,5 mil pessoas acima de 60 anos que se inscreveram para fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 8 e 9 de novembro. Desde 2009, o número de inscritos dessa faixa etária mais que triplicou.

O tempo afastado dos estudos e as mudanças no corpo que a vida impõe são as principais dificuldades que José de Arimatéia aponta para conseguir um bom desempenho no exame. “Desde que parei de estudar, a forma de ensinar mudou muito. Outra dificuldade que sinto é por conta da idade. É fato que meu raciocínio é diferente do desses garotos moços, mas minha vantagem é a vontade de aprender”, opina. O problema enfrentado pelo colega de classe de José é conciliar o trabalho com os estudos. “A dificuldade maior é por causa do trabalho. O cansaço atrapalha muito, mas a força de vontade é maior”, afirma Francisco Piauí da Silva, 58 anos, também aluno do 3º ano da EJA do CEM nº 1 de Sobradinho. O trabalhador da construção civil se inscreveu no Enem para conseguir uma vaga em arquitetura.

Mesmo que Piauí não faça parte das estatísticas de idosos que se inscreveram no Enem, ele e José de Arimatéia servem de inspiração para os colegas mais novos que dividem a mesma sala de aula. “Eles são exemplos porque mostram que não há idade para estudar”, opina Izabela Freitas, 18 anos. “Do mesmo jeito que a gente está aprendendo com eles, por meio da experiência e do conhecimento que nos passam, eles aprendem com a gente. É um ajudando o outro. Estamos no mesmo rumo tentando terminar o ensino médio e buscando algo melhor”, conta Letícia de Souza, 19. “Mesmo diante das dificuldades do tempo que eles deixaram de estudar, eles não ficam distantes da turma. Eles se destacam pelo esforço”, aponta o professor de geografia, Eduardo Borges.

Foco no objetivo

Após uma aposentadoria não planejada, o engenheiro elétrico João Batista Pereira, 66 anos, decidiu ocupar o tempo se dedicando aos estudos para fazer uma segunda graduação. Ele vai tentar uma vaga pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu) para o curso de engenharia de produção, tecnologia de informação ou contabilidade na Universidade de Brasília (UnB). Para isso, o funcionário público aposentado dedica aproximadamente quatro horas diárias à preparação para o Enem. “Tem matérias a que nunca me dediquei, como geografia, história e sociologia. Tento driblar minhas dificuldades com leitura, estudos e me mantendo atualizado”, conta. O aposentado faz curso preparatório no Impacto Concursos e acha corajosos todos os que, na idade dele, decidiram fazer o exame. “Parabenizo os idosos que, assim como eu, estão enfrentando essa empreitada, porque realmente é um desafio”, elogia.

Conquista por conta da qualidade de vida

Apesar do aumento, o número de idosos no Enem representa 0,17% dos 8,7 milhões de inscritos. O número ainda não é expressivo, mas a busca dos idosos por qualificação é uma tendência segundo o coordenador do curso de pós-graduação em gerontologia da Universidade Católica de Brasília (UCB), Vicente Paulo Alves. “Esse é um processo irreversível. É a ideia de educação permanente. Não existe um ser humano pronto e acabado”, afirma. Segundo o coordenador, os motivos por essa busca são diversos. “A procura por qualidade de vida, onde as pessoas querem ocupar a mente, a conquista de melhores condições financeiras e o fato de as pessoas viverem mais são alguns dos fatores”, elenca.

A principal motivação de Aldir Silva, 69 anos, é sentir-se inserido na sociedade. “Minha intenção é reintegrar. Não gosto de ficar distante dos assuntos da nova geração”, conta. O funcionário público aposentado faz curso preparatório para o Enem, mas não está otimista com o resultado que pode obter na prova. “Ainda estou engatinhando. Não pensei na faculdade nem em que curso fazer. Na hipótese de passar, pensarei no que vou fazer”, admite. A professora de geografia Aracelly de Santos, do MFE Concursos, onde Aldir estuda, afirma que ele é um aluno dedicado. “Ele é muito participativo. Sempre está interado dos assuntos, faz perguntas e nunca está à margem”, comenta.

Segundo o professor do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Terceira Idade da Universidade de Brasília (Nepti/UnB) Frederico Fósculo, o crescente interesse de pessoas da terceira idade em fazer o Enem é um indicativo de que o país precisa investir mais na qualidade de vida dos idosos. “Não são poucos os que estão investindo em uma nova perspectiva na terceira idade. A população brasileira vive mais, então o governo tem que investir nisso, seja na recolocação profissional ou em prestações de serviços públicos mais qualificados”, defende.

Palavra de especialista
Aprendizado possível

A diferença é fisiológica. Uma pessoa com cerca de 19 anos está adaptada ao processo de aprendizagem, tem capacidade desenvolvida e memória aguçada para o desenvolvimento. Já acima de 60 anos, por conta do processo fisiológico, o ser humano começa a ter perdas na memória recente, compreensão e informação. Porém os idosos preservam uma reserva cognitiva que dá substrato para a aprendizagem, ou seja, nessa idade ainda há capacidade de aprender. Existe dificuldade, mas há a possibilidade de ganhar aprendizado a partir das experiências adquiridas anteriormente. Há distinção na forma de aprender dependendo da idade, mas a diferença não leva à descrença sobre o aprendizado do idoso.

Vicente Paulo Alves
, coordenador do curso de pós-graduação em gerontologia da Universidade Católica de Brasília (UCB)

Número de idosos inscritos no Enem

2009 – 4,6 mil
2010 – 6,3 mil
2011 – 7 mil
2012 – 8,3 mil
2013 – 10,9 mil
2014 – 15,5 mil

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