SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Ressalvas de professores às respostas do Enem

Especialistas consultados pelo Correio ressaltam as diferentes interpretações e os pontos que mereciam melhor explicação no teste aplicado para estudantes

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 13/11/2014 12:32 / atualizado em 13/11/2014 12:41

Manoela Alcântara

Daniel Ferreira/CB/D.A Press
As questões elaboradas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) para avaliar os candidatos por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) suscitaram ressalvas a professores e especialistas ouvidos pelo Correio, com base na divulgação ds gabaritos.

O professor de sociologia do Leonardo da Vinci Bruno Borges considera que as respostas oficiais das provas condizem com as expectativas, mas discorda acerca da questão 32 do caderno azul. O item abordava as manifestações de junho de 2013 e pedia uma análise do concorrente sobre a postura adotada pelo Estado na ocasião. “Muitos acreditaram que a resposta seria a letra C, que tratava a atitude para salvaguardar o espaço público. Mas a resposta divulgada hoje foi a letra D, sobre conservar o exercício do poder”, conta.

Para ele, a questão foi um divisor de águas para analisar o perfil do exame. “Incorporamos o questionamento como parte da prova de sociologia. Considerou-se que poderia ser a letra C porque ia de encontro a tudo que a prova defende sobre os direitos humanos”, argumenta.
Em um item de química, surgiu uma dúvida sobre a questão 82. “Entendemos que a questão era fácil, mas se tornou complicada porque faltaram alguns valores no texto-base. Nós, professores, sabíamos a referência para a estrutura molecular, mas o aluno não tem obrigação de saber a quantidade de carbonos e insaturações dela. Faltou uma referência sobre isso”, diz o professor e coordenador de química do Sigma William Pinheiro. Ele acredita que a ausência de informações provocou dificuldade para interpretar a questão. “Estava nebulosa. Os alunos excepcionais acertaram, com certeza. No entanto, o resto da prova estava bem contextualizado e não fugiu de nenhum tema ensinado no ensino médio”, afirma.

Os gabaritos estão na página no Inep (enem.inep.gov.br). Eles foram divididos pelas cores dos cadernos aplicados aos 6,2 milhões candidatos fizeram a prova no fim de semana. Embora o número represente um crescimento de 24% em relação aos 5 milhões participantes do certame em 2013, ocorreu um elevado índice de abstenção neste ano. Mais de 8,7 milhões de candidatos se inscreveram para o exame, mas 28,6% não o fizeram.

Os gabaritos estão dispostos de acordo com o teste realizado pelo participante. O estudante do terceiro ano do ensino médio Eduardo Souza Rodrigues, 17 anos, fez o teste amarelo, no sábado, e o rosa no domingo. Mesmo antes da divulgação oficial do Ministério da Educação, ele havia conferido as respostas com professores do cursinho. “Não divergiu muito. Acertei 77% da prova. Acho que vou conseguir entrar para engenharia civil na UnB. Agora, só preciso esperar sair o resultado com a Teoria de Resposta ao Item (leia matéria ao lado) e o peso da UnB atribuído para a área de exatas”, afirmou.

Embora tenha considerado a prova “tranquila”, Eduardo lamentou ter errado duas questões de física específicas. “Tem uns termos que dá um branco na hora da prova. Fiquei com muita raiva, pois podia ter acertado essas duas.” Ele ainda achou a prova mais teórica do que nos anos anteriores. Ao contrário de muitos alunos que reprovaram o tema da redação, ele diz ter gostado. “Vai dar para nivelar. Não foi o que muitos esperavam, então as dissertações mostrarão o nível dos participantes. Não porque eles estudaram aquele tema, mas por saberem estruturar um texto”, completou. O tema deste ano foi publicidade infantil em questão no Brasil.

Entenda a correção

No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a nota não é atribuída diretamente ao número de itens corretos. Se o aluno acertou 80 questões, por exemplo, não significa que a nota dele será esta em uma prova que vale 100. O Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) usa como sistema para atribuir a média do candidato a Teoria de Resposta ao Item (TRI). O modelo analisa a proficiência do participante, o conhecimento aplicado. Calcula, por exemplo, a probabilidade de a pessoa ter chutado determinadas questões e baseia a nota final em uma lógica.

A escolha desse processo é um dos parâmetros para aumentar a isonomia do Enem diante de uma prova de múltipla escolha. Mas a TRI não é fácil de entender. O professor de estatística da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e consultor do Inep Dalton Andrade explica que o processo não leva em conta somente o número de acertos, mas também o de erros. “É medido o conhecimento do participante. Em uma prova de múltipla escolha, você pode acertar uma questão sem saber a resposta? Sim. Então, é muito mais esperado que o candidato siga uma lógica. Quem responde por conhecimento, não erra questões fáceis e acerta difíceis”, diz o especialista.

Como o sistema da TRI leva em conta o padrão de respostas, dois participantes com o mesmo escore podem receber valores diferentes de proficiência. Andrade dá um exemplo didático de como funciona: “Imagine que duas pessoas acertaram 20 questões. Uma delas acertou as 20 com grau de dificuldade mais baixo e errou as outras mais difícieis. A outra, teve êxito nas 20 com grau mais difícil e errou as questões mais fáceis. Dessas duas, quem respondeu usando o conhecimento? A primeira. Então, será ela a receber a nota mais alta”.

O cálculo usado no Enem é o mesmo tipo aplicado no exame de proficiência em língua inglesa (TOEFL). Administrado em 4,5 mil centros em 165 países, O TOEFL já avaliou mais de 25 milhões de alunos. Outro exame com avaliação parecida com a do Enem é o SAT (Scholastic Aptitude Test ou Scholastic Assessment Test), um certame educacional dos Estados Unidos, aplicado a estudantes do ensino médio. Ele é aplicado sete vezes ao ano e a existência de uma escala padrão possibilita a compração dos desempenhos.

Para saber mais
Como usar a nota


O desempenho dos participantes na prova do Enem é utilizado como critério para o acesso a programas oferecidos pelo Governo Federal. O Sistema de Seleção Unificada (Sisu), até este ano, dava acesso a 115 instituições públicas de ensino superior em todo o país. Em 2015, a quantidade pode subir devido ao número de adesões possíveis até a abertura das vagas. Algumas instituições aderem de forma parcial, outras com a totalidade das oportunidades.

A nota no Enem também pode ser usada para o ingresso no Programa Universidade para Todos (ProUni), para o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), o programa Ciência sem Fronteiras, além do Sistema de Seleção Unificada da Educação Profissional e Tecnológica (Sisutec). A nota do Enem de 2014 deve sair no início do ano que vem. Em seguida, o Sisu abrirá o processo seletivo. Nele, o estudante poderá acompanhar as notas de cortes das instituições de ensino e se inscrever em até duas opções de curso.
Tags:

publicidade

publicidade