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Falta de leitura é raiz para notas baixas na redação, dizem especialistas

Entre mais de 6 milhões de candidatos, apenas 250 obtiveram nota máxima na dissertação. Mais de 259 mil zeraram essa parte da prova

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postado em 13/01/2015 21:23 / atualizado em 13/01/2015 21:27

Ana Paula Lisboa

No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2014, foram corrigidas 5.934.034 redações sobre publicidade infantil, o tema da edição. Chama atenção a pequena quantidade de textos que obtiveram nota mil, a pontuação máxima nessa parte da prova: foram apenas 250. No outro extremo, 529.374 alunos tiraram nota zero. A maior parte das redações anuladas (217.339) foram desconsideradas por fuga ao tema. Cópia de texto motivador (13.039), texto insuficiente (7.824), não atendimento ao tipo textual (4.444), parte desconectada (3.362) e ferir direitos humanos (955) foram outras causas para anulação dos textos.

Confira tabela com as notas dos estudantes no Enem 2014:

Nota na redação

Quantidade de alunos

0

529.374

Até 300

654.971

301 - 400

1.105.672

401 - 500

1.162.526

501-600

1.515.007

601-700

707.095

701-800

370.428

801-900

112.522

901-999

35.719

1000

250

Total

6.193.565



Para o professor de português Ênio César de Moraes Fontes, que leciona no Centro Educacional Sigma, no Colégio Presbiteriano Mackenzie e na rede pública de ensino, a raiz da questão é a falta de leitura, que, segundo ele, é a base para escrever bem. “Os alunos de ensino médio, no geral, são despreparados em termos de leitura. A maioria não tem hábito de ler. Para que os estudantes, de fato leiam, o professor têm que fazer um grande esforço - mesmo assim, não é garantia de sucesso. Quem não lê fica limitado e tem mais dificuldade”, observa.

A professora de português e escritora Lucília Garcez acredita que falta interesse. “A juventude está muito cooptada pelas redes sociais, em que a língua circula de maneira informal. Isso rouba tempo que poderia ser dedicado à leitura.” No entanto, ela observa que a falha também é dos docentes. “O trabalho de estímulo é precário. Os professores, em geral, também não são leitores, não têm tempo nem dinheiro para ler. Quem não é leitor efetivo não pode estimular que outros sejam”, avalia. “Em sala de aula, os docentes devem investir na leitura, na reflexão sobre o tema, na organização e, principalmente, na reformulação - a parte de ler, reler, revisar e reescrever o texto. É preciso dar ao aluno a chance de reescrever o próprio texto, pois só assim ele aprenderá”, orienta.

Além falta de leitura por parte dos estudantes, uma mudança na banca trouxe mais exigência para a avaliação. “Antes, mesmo com alguns errinhos, um texto bem estruturado podia tirar nota máxima. Por conta da pressão da opinião pública, erros não são mais admitidos. Uma redação excelente ter errinho é aceitável porque pode ser um esquecimento, mas muitas falhas demonstram falta de domínio sobre a língua”, observa Lucília Garcez. As condições adversas da realização do Enem também podem afetar a pontuação. “Não dá para consultar dicionário nem gramática. Não pode tirar dúvida e não há muito tempo para revisar. Na vida real, você usa vários recursos para garantir que o texto está correto (recorre a um revisor, por exemplo), mas não há essa possibilidade no exame”, completa.

O tema
Lucília Garcez opina que o tema da redação não foi difícil. “Qualquer pessoa está submetida à publicidade, ainda mais jovens. Bastava apenas fazer uma ponta de sua experiência pessoal com a questão da publicidade infantil.” O professor Ênio César de Moares Fontes discorda. “Por um lado, era um bom tema por ser acessível - todo mundo poderia escrever sobre isso; por outro lado, não era um assunto que estava na mídia, o que dificulta para os alunos”, diz. A grande questão, ressalta Fontes, é que os estudantes deveriam estar preparados para escrever sobre qualquer tema. “Muitas escolas fazem treinos, em que simulam o que poder cair como tema, como a falta d’água em São Paulo ou a Copa. É um verdadeiro exercício de adivinhação, mas não adianta: nós temos que formar o aluno para escrever sobre qualquer assunto.”

Receita
Ênio César de Moraes Fontes indica que o segredo para escrever bem é dominar a norma padrão e ter muita bagagem - o que só é possível lendo bons textos e acompanhando notícias. “Ao analisar as melhores redações de vestibulares como o da Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular), percebe-se, invariavelmente, que elas trazem citações de filósofos, sociólogos, obras literárias… Isso enriquece. É preciso ter uma bagagem cada vez maior, mas isso fica difícil já que a maior parte dos adolescentes acessa um leque restrito de informações”, percebe. “O grande entrave do estudante brasileiro é o desinteresse pela informação: ele só busca assuntos particulares, como esportes, sinopses de filmes, mas não faz leitura do cenário econômico, político e social. Há ainda uma resistência ao estudo de filosofia e sociologia, essenciais para boas dissertações.”

“Na prova da terceira etapa do PAS da UnB (Programa de Avaliação Seriada da Universidade de Brasília), por exemplo, o tema da redação era uma possível terceira guerra mundial. Era preciso apresentar argumentos históricos e geopolíticos. É preciso entender que o português e a redação são ferramentas, mas não são disciplinas separadas, outros conhecimentos são importantes para se sair bem.”

Valorização
Fontes percebe que a presença de redações em importantes avaliações, como PAS e concursos públicos, têm valorizado o estudo da disciplina. “Até uns cinco anos atrás, muitos alunos viam a redação como algo menor. Mas quanto mais ela ganha importância em seleções, mais é valorizada nas escolas.” Lucília Garcez também observa que a matéria tem sido vista como importante. “Os jovens sabem que é importante, mas as escolas ainda não acharam uma estratégia para garantir que eles aprendam a escrever. Num colégio com mil alunos, um professor de redação passa uma vez por semana em cada sala. Como ele vai dar um feedback para cada um? É impossível”, critica. “A separação entre o professor de gramática, o de literatura e o de redação é outro problema. Se uma mesma pessoa dá os três conteúdos, consegue identificar falhas dos alunos para melhorar, o que não ocorre na maioria das escolas”, finaliza.

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