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Reflexo da leitura dinâmica

Professores avaliam que a geração atual de estudantes, que se desenvolveu conectada à internet e às redes sociais, tem uma dificuldade maior com textos mais extensos. No Enem 2014, 529 mil alunos tiraram zero na redação

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postado em 15/01/2015 11:33 / atualizado em 15/01/2015 17:26

Daniela Garcia /Correio Braziliense , Étore Medeiros

Carlos Moura
Dos 529 mil alunos que tiraram zero na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a maioria (53,1%) deixou a folha destinada à dissertação em branco. Entre outros 248 mil que obtiveram a pontuação nula, 87,5% tiveram a prova anulada por fugirem do tema proposto: “Publicidade infantil em questão no Brasil”. Chama a atenção que três de cada quatro candidatos que se submeteram ao Enem têm até 24 anos. Criada não só na internet, mas também sob a ágil dinâmica de interações pelas redes sociais, a juventude teria uma dificuldade especial para chegar ao fim da leitura de um texto um pouco mais extenso, avaliam os especialistas.

“Estarão os nossos jovens excessivamente plugados em multimídias instantâneas, apenas com manchetes de notícias? Ou pior: ainda usando excessivamente as redes sociais sem se importar com a cultura e o aprofundamento de temas? Como nossas escolas estão preparando os nossos alunos nessa questão? Parece que muito mal”, observa, preocupada, Vivina Balbino, professora aposentada da Universidade Federal do Ceará. A mestre em educação vê a enxurrada de zeros como comprovação da falta de leitura dos jovens e da busca de informações longe do conhecimento aprofundado.

“Um ponto pesado que essa quantidade de zeros traz é a qualidade do ensino. Ela se evidencia pela comparação das notas dos alunos de escolas públicas e privadas. É muito triste”, lamenta Rafael Riemma, coordenador de Português de um colégio particular da Asa Sul. A precariedade do ensino médio não deve ser tratada como isolada na educação, alega Vivina, uma vez que a má qualidade da fase escolar afetaria diretamente a qualificação dos profissionais formados no ensino superior. “O ensino superior precisa receber alunos cultos e detentores de conhecimentos para avançar com qualidade os seus estudos e pesquisas na graduação e na pós”, defende.

“Temos que ensinar os meninos a ler, a escrever, a compreender o mundo”, complementa Riemma. Parece inacreditável, mas mesmo em um exame tão importante, que abre as portas para o ensino superior, especialistas ouvidos pelo Correio acreditam que muitos dos jovens não leram os textos complementares ao enunciado da redação do Enem, fundamentais para a compreensão do que era pedido como dissertação.

“O aluno, muitas vezes, lê o que está em negrito e não lê a coletânea de textos, é um problema de leitura”, analisa Eli Guimarães, coordenador de redação de uma escola particular de Brasília. “O aluno precisa se inserir no mundo lendo revistas, jornais, editoriais, resenhas. É preciso ampliar o leque de leitura, que não pode ser tratada como uma obrigação acadêmica, mas sim como parte da formação enquanto pessoa, enquanto cidadã crítica”, defende o professor.

Riemma ressalta que, mais do que ler, é preciso estimular a juventude a escrever mais. “Quem leu mais sobre o tema vai ter mais facilidade para argumentar. Mas, mesmo os alunos que adoram debater, falar, dar opinião, é impressionante a resistência que têm a escrever: parece que escrever é um peso. Há medo de se expor, de errar”, observa.

 

 

Problemas detectados


Muito além da baixa qualidade do ensino público, especialistas apontam o que falta para que a atual geração consiga superar as dificuldades para ler, compreender e escrever bem

Leitura precária
» Acostumados a assimilar conteúdos de forma fragmentada — em fontes como a enciclopédia on-line Wikipedia, por exemplo —, muitos jovens não conseguem chegar ao fim de textos mais longos: se cansam, deduzem o que não leram e tiram conclusões precipitadas. Muitas vezes, os estudantes leem somente o que aparece em negrito ou em destaque, ignorando partes importantes do texto.

Esforço unidisciplinar
» Sozinho, o professor de redação não consegue dar ao aluno as habilidades e os conhecimentos necessários para o bom domínio da leitura e da escrita. É preciso que os mestres de outras disciplinas que têm alta carga de textos, como história e geografia, cobrem respostas bem argumentadas, com início, meio e fim. Dar nota máxima a uma prova de sociologia respondida em tópicos, por exemplo, deseduca o aluno, ainda que o conteúdo esteja adequado.

De olho no próprio umbigo
» Faltam a muitos estudante a leitura de opiniões diversificadas e a busca por fontes alternativas para entender bem uma mesma situação. Livros, revistas, jornais até mesmo blogs devem estar mais presentes no cotidiano da juventude. A cada dia, inclusive no Enem, a reflexão sobre um problema e a proposição de soluções possíveis são mais cobradas em diferentes avaliações.

Falta de hábito
» A máxima de que a repetição leva à perfeição também vale para a produção textual. A escrita de textos dissertativos deve ser parte do dia a dia. Mesmo os alunos que se engajam em acalorados debates em sala de aula — ou nas redes sociais —, com boa argumentação, devem ser estimulados a passar as ideias para o papel. Soltar amarras como a vergonha, o medo e a insegurança é benefício trazido pela prática constante.

Correção distanciada
» Mesmo os profissionais mais carismáticos e esforçados podem deixar a desejar na hora de corrigir os textos produzidos pelos alunos. Mais do que receber uma nota ou elogio, é preciso que o aluno tenha alguém que o oriente e explique as principais falhas ou acertos da redação. É melhor ter cinco textos bem corrigidos e analisados ao longo de um ano, do que 50 escritos e devolvidos somente com uma avaliação genérica.

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