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Ciência

Energia a partir do lodo

Experiências internacionais e até uma em Minas Gerais produzem eletricidade a partir de rejeitos de estações de tratamento de esgoto. A técnica é menos poluente e ainda tem como subproduto uma substância que pode ser utilizada como fertilizante

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postado em 03/09/2012 12:22

Belo Horizonte — Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. A máxima do químico francês Antoine Lavoisier pode servir como meta para uma tecnologia que começa a ser difundida no Brasil. Por meio do aproveitamento até do asqueroso lodo proveniente de estações de tratamento de esgoto, gera-se energia e se reduz o impacto ambiental causado pelo armazenamento de milhões de litros de resíduos em centenas de aterros sanitários espalhados pelo país. A crescente demanda por sustentabilidade e consciência ambiental alavanca a busca pelo aproveitamento máximo de absolutamente tudo na sociedade, inclusive o resíduo que desce diariamente pelos encanamentos das grandes cidades. A possibilidade de gerar energia elétrica a partir dos dejetos empolga estudiosos e empresários em todo o mundo.

Uma empresa norueguesa desenvolveu um processo, chamado hidrólise térmica, em que o lodo do tratamento do esgoto é colocado em um equipamento que simula uma grande panela de pressão. Posteriormente, com alta temperatura e pressão, a tampa é aberta abruptamente e as células das bactérias estouram, o que faz com que o conteúdo dentro delas seja liberado. Isso faz com que a digestão do material seja feita de forma muito mais rápida e eficiente, e que o volume do lodo seja reduzido ao máximo. Outra tecnologia que aumenta ainda mais a eficiência do digestor é a de uma empresa alemã que pega o lodo já digerido pelas bactérias e o incinera, aproveita os gases da queima e os joga em microturbinas para gerar mais energia.

Turbinas
Em Minas Gerais, a Companhia de Saneamento do estado (Copasa) aproveita o gás gerado pelo lodo para girar turbinas e gerar energia em uma das suas estações de tratamento de esgoto em Belo Horizonte. Com capacidade de gerar 2,4 megas de energia, quantidade que pode abastecer uma cidade de 15 mil habitantes, a estação poderia ser autossustentável. Só não se usa 100% de energia gerada por ela devido à legislação vigente.

Superintendente de Serviços e Tratamento de Afluentes da companhia, Eugênio Álvares de Lima e Silva afirma que poderá haver interesse de futuramente aproveitar novas estações no estado para aproveitar energia. O engenheiro defende que há vantagens significantes para se usar a nova tecnologia e conta que a empresa está construindo uma estação mais avançada em Ibirité, na Região Metropolitana de BH. “Estamos em obra para construir uma outra estação que vai aproveitar também a queima do lodo, que, quando seca, vira praticamente um carvão e pode servir como combustível”, diz.

O gerente de tecnologia do Grupo Águas do Brasil, que reúne empresas do setor  no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Amazonas, o engenheiro químico André Lermontov concorda que o processo pode representar avanços tanto econômicos como ambientais, mas ressalta que ainda há muito a ser feito no país. “No Brasil, o pensamento é assim: o lodo é um produto que vai gerar despesa com transporte para um aterro sanitário. Lá fora, querem projetar estações para gerar o máximo de lodo possível a fim de  gerar mais energia”, explica.

O tratamento da matéria orgânica dos esgotos é feito em reservatórios com bactérias, que consomem resíduos em um processo que tem como subproduto o gás metano, e a energia elétrica é obtida com o seu uso.

“O lodo é uma massa de bactérias e elas saem de dentro do reator em uma concentração muito diluída, em uma proporção de aproximadamente 98% de água e 2% de bactérias”, afirma Lermontov. O engenheiro argumenta que, diante disso, paga-se para transportar água para um aterro sanitário. Quando o lodo é aproveitado para a geração de energia, a concentração do composto chega a 20% de bactérias. Portanto, além da energia que pode subsidiar as estações de tratamento, o volume de rejeito que segue para os aterros sanitários é menor.

Lermontov admite que o investimento é maior para que se possa obter energia do lodo: “Você precisa comprar os equipamentos necessários, mas torna sua estação muito mais sustentável”, argumenta. Inclusive, lembra, o gás metano que é usado é considerado um destruidor da camada de ozônio. “Além disso o ganho de energia e a redução nos gastos com aterramento valem a pena”, ressalta. Outra questão a ser levada em conta é que o processo também está de acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, estabelecida em 2010. Sancionada no ano passado, ela cria diversas metas a serem cumpridas pelos municípios brasileiros até 2014.

Tendência mundial
O presidente do Sindicato Nacional das Concessionárias Privadas de Serviços de Água e Esgotos (Sindcon), Giuliano Dragone, também defende a tecnologia.“É uma tendência mundial, isso está virando moda.” Ele relata que o país sofre com pouca eficiência operacional na gestão do saneamento e lamenta: “Ninguém imagina o tanto de lodo que é gerado no tratamento do esgoto. E isso é porque nós não tratamos nem 40% do nosso esgoto. Imagina quando tratarmos tudo”, ressalta.

O lodo que é processado em um chamado digestor anaeróbio, onde o ar é retirado do reservatório e bactérias fermentam o material orgânico, pode ser utilizado como fertilizante em alguns produtos agricultáveis que não sejam de consumo primário ao ser humano, como a cana de açúcar, que produz o etanol. Depois que o gás é queimado para gerar energia, o volume do lodo também diminui em até 40%, que seria outra vantagem no processo de tratamento desse material. “Outra benesse é que ele se torna inerte, estável e livre de agentes patógenos”, explica André Lermontov, o que quer dizer que todas as bactérias morrem no processo.

 

 

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