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Ciência

Nazismo à brasileira

Tese de doutorado revela a exploração, na década de 1930, de meninos órfãos em uma fazenda pertencente a simpatizantes da ideologia alemã no estado de São Paulo. O estudo faz parte do esforço de historiadores de investigar como as ideias de Hitler repercutiram no Brasil

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postado em 05/09/2012 08:00

Rio de Janeiro, 1933. O tempo é distante, mas Aloysio Silva ainda carrega na memória o dia em que brincava no pátio do Educandário Romão de Mattos Duarte, que fazia fundos ao Palácio da Guanabara, centro do poder da então capital do Brasil. A manhã seria igual a todas as outras, não fosse a chegada de um grande fazendeiro ao local. Hoje com 89 anos, Aloysio era um menino órfão de 10 anos quando foi escolhido por Oswaldo Rocha Miranda para compor o grupo de 50 crianças que seriam transferidas para sua fazenda, a Cruzeiro do Sul, em Campina do Monte Alegre (SP). No interior dos muros com tijolos que estampavam a suástica nazista, ele e os outros meninos foram submetidos por uma década a trabalhos forçados, castigos físicos e humilhações.

“Essa família Rocha Miranda entrou e ficou lá no passadiço. Nós estávamos brincando, jogando bola. Aí ele (Oswaldo) chegou e mandou o tutor, que era o motorista dele, encostar a gente num canto e nos separou”, relata Aloysio. Para identificar os mais ágeis, o fazendeiro levou um saco repleto de balas e, de cima do pátio, jogava os doces para os meninos pegarem. “A gente corria para catar. Na segunda vez, a gente já desconfiou. A gente catava as balas e ele, com a varinha, apontava: ‘Joga esse para lá, bota aquele para cá’”. Os selecionados ficaram então isolados das outras crianças por oito dias, quando um carro os buscou no orfanato e os levou até a estação de trem D. Pedro I. Durante todo o trajeto até a estação, dois carros de polícia os acompanharam para evitar fugas.

A história dos 50 meninos, a maioria negra e com idade entre 9 e 11 anos, foi desvelada pelo historiador Sidney Aguilar em sua tese de doutorado recém-defendida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo Aguilar, que colheu o depoimento do senhor Aloysio, o estudo apareceu de forma inesperada. Em 1998, ao analisar a ascensão do nazismo alemão em uma aula de história para uma turma do ensino médio, uma das alunas contou que na fazenda de sua família fora encontrada, por conta do desmanche de uma construção, uma grande quantidade de tijolos com o símbolo da suástica.

Ao investigar o caso, Aguilar se deparou com um intrincado quebra-cabeça a ser montado. Afinal, qual era a relação entre a suástica e os meninos? Como ocorreu a transferência dessas crianças? Ela foi juridicamente aceita? “Meu olhar estava voltado para um fato estranho, que foi a transferência de 50 meninos, 48 deles negros ou pardos, do educandário no Rio de Janeiro para o interior de São Paulo. Ao olhar para esse foco, eu encontrei algumas coisas que não eram centrais, mas que se tornaram importantes”, revela Aguilar.

Foi dessa forma que o nazismo no Brasil passou a tangenciar a pesquisa. Quando Aguilar foi em busca do responsável pela retirada das crianças, chegou ao nome de Oswaldo Rocha Miranda, membro de uma das famílias mais ricas do Brasil na época. “As fazendas pertenciam a quatro irmãos, três deles eram da cúpula da Ação Integralista Brasileira (AIB) e um, Sérgio, um declarado simpatizante do nazismo. Em sua fazenda, a Cruzeiro do Sul, os tijolos e o gado eram marcados com a suástica”, conta o historiador. Segundo ele, o símbolo nazista aparecia também nos documentos da fazenda aos quais ele teve acesso, como, por exemplo, no talonário de pedigree animal.

Respaldo No início da década de 1930, o Brasil vivia a era Vargas. Na época, a ideologia ufanista, o autoritarismo, a defesa de uma educação eugênica e o sanitarismo social eram ideias que corriam soltas no Congresso, nas páginas dos jornais e na boca do povo. O período converge com a explosão dos nacionalismos em diversos países, sendo o nazismo alemão de Adolf Hitler um dos exemplos mais expressivos.

Foi a mentalidade desse período, portanto, que deu respaldo para que Oswaldo Rocha Miranda retirasse os meninos do orfanato dentro da lei. Segundo Aguilar, um dos pontos mais impressionantes da sua pesquisa foi descobrir que a transferência das 50 crianças foi feita com a concordância da Igreja, o patrocínio da elite empresarial e a anuência da Justiça, tudo sob a justificativa de que a medida teria caráter educativo e filantrópico.

“Encontrei, nos documentos produzidos pela Assembleia Constituinte de 1934, uma série de deputados defensores de práticas eugenistas e segregacionistas. Tanto é que o Artigo 138 daquela Constituição estabelecia ser função do Estado incentivar a educação eugênica”, ressalta Aguilar. Segundo o pesquisador, a remoção dos meninos foi autorizada pelo titular do Juizado de Menores do Rio de Janeiro, José Cândido de Albuquerque Mello Mattos, quem concebeu o primeiro Código de Menor do país.

Além da perturbadora presença integralista e nazista nas terras da família Rocha Miranda, o historiador descobriu também um forte laço entre seus membros e a família Krupp, dona de uma poderosa siderúrgica alemã produtora de armas e equipamentos bélicos. “Depois da 2ª Guerra Mundial, a fazenda de um dos irmãos, Otávio, foi vendida para o herdeiro de Alfried Krupp, ex-ministro da Economia de Guerra de Adolf Hitler.”

Outro fato que instigou o pesquisador vem dos relatos orais dos sobreviventes da fazenda, principalmente de Aloysio, que ainda hoje vive em Campina do Monte Alegre. Apesar de não se lembrar exatamente da data, Aloysio afirma que ele e os colegas que sobreviveram aos maus tratos foram libertados por volta de 1942, após uma doença que atingiu Oswaldo Miranda. “Não dá para afirmar nada, mas é curioso ter sido logo nesse período, em que as coisas para os integralistas e adeptos do nazismo se complicaram no Brasil”, pondera Aguilar. 

Versão tropical Estudos como o de Aguilar lançam luz sobre um episódio ainda pouco contado nos livros de história do Brasil: a considerável simpatia que o nazismo obteve em terras tupiniquins. Como lembra a professora da Universidade Federal do ABC Ana Maria Dietrich, o país foi o local com o maior número de partidários dessa ideologia fora da Alemanha, com 2.900 inscritos no Partido Nazista.

“No Brasil, o que tivemos foi um nazismo tropical. O preconceito foi deslocado dos judeus e o foco principal passou a ser mulatos e negros, chamados de macacos pelos nazistas alemães”, afirma Dietrich, que acaba de lançar o livro Nazismo tropical? O Partido Nazista no Brasil (Editora Todas as Musas)). Segundo a pesquisadora, o partido estrangeiro era mais um chamado à causa, sendo assim, os atos violentos não ocorriam com frequência, o que existia era uma exaltação da Alemanha e uma forte propaganda do regime hitleriano nos trópicos. A força da ideologia no Brasil foi causada, principalmente, pelo grande contingente de imigrantes alemães no país. A principal onda migratória ocorreu em 1920, em decorrência dos efeitos da Primeira Guerra Mundial.

O Partido Nazista no Brasil existiu de 1928 a 1938. Durante esse período, Dietrich conta que a legenda manifestou-se livremente. Realizava festas, mantinha periódicos, associações e diversas outras manifestações de ode à ideologia racista. “Isso mostra que houve uma simpatia do governo varguista às ideias de Hitler”, analisa a historiadora. Em 1938, com a implantação do Estado Novo por Getúlio Vargas, um decreto de lei impôs a extinção de partidos estrangeiros em território nacional. “Manter o partido no Brasil era muito importante para a Alemanha e a decisão causou um ruído diplomático entre os dois países. O governo brasileiro mandou sacas de café como pedido de desculpas, mas não adiantou muito”, revela a pesquisadora.

O partido continuou de forma clandestina até a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1942, quando iniciou-se uma verdadeira caça à suástica. “(Nessa época), o alemão que morava no Brasil passou a ser visto como um inimigo em potencial, a ser perseguido.” De acordo com Dietrich, o governo brasileiro não fazia distinção entre alemães e nazistas, nesse período, não sendo permitido nem mesmo falar alemão em público. A população também se voltou contra os imigrantes e passaram a ser comuns atos como jogar pedras em casas de alemães.

O que Aguilar e Dietrich reforçam é que a perseguição aos nazistas pendeu somente para o lado mais fraco da força. A alta cúpula de representantes do partido estrangeiro, bem como a elite brasileira simpatizante da ideologia, como é o caso dos Rocha Miranda, saíram ilesos até mesmo das críticas. As feridas, entretanto, permanecem abertas até hoje, por mais que a história oficial ensinada nas escolas insista em apagar da memória os rastros da suástica nos trópicos. 

"Essa família Rocha Miranda entrou e ficou lá no passadiço. Nós estávamos brincando, jogando bola. Aí ele (Oswaldo) chegou e mandou o tutor, que era o motorista dele, encostar a gente num canto e nos separou”
Aloysio Silva,
órfão levado para a Fazenda Cruzeiro do Sul, em depoimento ao historiador Sidney Aguilar

 

Tombamento

A Fazenda Cruzeiro do Sul está em estudo de tombamento pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico e Turístico (Condephaat) devido ao seu importante valor histórico. No início do mês passado, a Polícia Civil fez uma vistoria no local e constatou a depredação do local. De acordo com os peritos, os danos foram provocados por ação humana. A denúncia da destruição foi feita pela Secretaria de Estado e Cultura.

Evolução

O termo eugenia (“boa geração”) foi cunhado em 1883 por Francis Galton, primo de Charles Darwin. Na concepção de Galton, seria a ciência que lidaria com todas as influências que supostamente melhorariam a qualidade da humanidade ao longo de seu processo de evolução. Décadas depois, esse conceito foi retomado pelos nazistas, que defendiam a superioridade da raça ariana.

 

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