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Ciência

Medicina será a maior favorecida pelo "DNA lixo"

O sequenciamento da parte não funcional do genoma, anunciado na quarta-feira pelo Projeto Encode, deve trazer avanços principalmente para o tratamento de doenças como o diabetes e o câncer. Os resultados práticos, porém, podem demorar décadas

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postado em 07/09/2012 14:08 / atualizado em 07/09/2012 14:10

Se os cientistas imprimissem em papel os dados revelados pelo Projeto Encode, um consórcio de cinco países que desvendou a parte não funcional do genoma, eles teriam um calhamaço de 30km de largura por 16m de altura, preenchido por intermináveis sequências de letras. Naquele dicionário entediante, porém, estão as informações que, no dia a dia terão um impacto enorme sobre a saúde de milhões de pessoas que sofrem de doenças para as quais ainda não existe cura, como câncer e diabetes. Embora o estudo do DNA não funcional tenha diversas aplicações científicas, os pesquisadores envolvidos no projeto destacaram que os ganhos para a medicina são, de longe, os mais importantes.

“Assim como o sequenciamento do genoma humano ajudou cientistas a saber como as mutações nos genes que codificam as proteínas provocam algumas doenças, o mapeamento das regiões não codificadoras vai nos dar respostas sobre a associação de problemas nas regiões reguladoras com outros tipos de males”, diz Manolis Kellis, professor do Departamento de Biologia Computacional do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e pesquisador do Encode. No trabalho do instituto, publicado na revista científica Nature, descobriram-se boas pistas sobre as doenças autoimunes, aquelas nas quais o organismo começa a se atacar. As variantes associadas ao desenvolvimento desses males foram encontradas nas partes ativas das células do sistema imunológico. Aprender como desligar o interruptor que controla os genes pode significar, por exemplo, a cura para problemas como lúpus e artrite reumatoide.

O geneticista brasileiro Salmo Raskin, que participou do Projeto Genoma Humano, recorda que os cientistas se sentiram perdidos ao constatar que apenas cerca de 2% do genoma era formado por DNA funcional, que produz as proteínas. “Para nós, médicos, o projeto trouxe muitos avanços, porque respondeu perguntas sobre milhares de doenças genéticas raras. Mas não respondeu nada sobre um grupo de 100 doenças, como obesidade, diabetes, esquizofrenia e depressão, causadas não só pela alteração dos genes, mas por outros fatores”, diz.

No caso das enfermidades raras, como mucopolissacaridose, doença de Fabry e síndrome de Guillain-Barré, por exemplo, o indivíduo já nasce com as mutações, e os males estão diretamente associados ao gene, que forma proteínas defeituosas. O Projeto Genoma Humano permitiu identificar quais eram essas variantes e onde se localizavam. No caso de doenças mais comuns, contudo, sabe-se que boa parte delas também estão associadas a mutações, mas essas surgem ao longo da vida, e não no nascimento. Alguma coisa tinha de estar por trás desse malfuncionamento e, agora, sabe-se que a culpa está na regulação dos genes.

Longo prazo
Para Dirce Maria Carraro, diretora do Laboratório de Genômica e Biologia Molecular do Hospital A.C. Camargo, um centro de tratamento e pesquisa oncológica, os dados do Projeto Encode vão ajudar muito a esclarecer os mecanismos do câncer, doença que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), vai atingir 27 milhões de pessoas em todo o mundo. “Será possível entender melhor quão desreguladas estão as células não só nas regiões que codificam, mas também nas que não codificam os genes, e isso vai beneficiar muito o tratamento”, acredita.

A médica, porém, alerta que os benefícios clínicos do Projeto Encode ainda estão muito longe da realidade. “São informações muito complexas”, diz. Salmo Raskin concorda. Ele acredita que vai demorar muitos meses até que os próprios pesquisadores envolvidos no projeto consigam entender as milhares de informações sobre a parte reguladora do genoma. Depois disso, começam as pesquisas mais específicas e, só depois de décadas, é que os resultados poderão se reverter em terapias. “Sem exagero, nos mais de 30 artigos publicados, há conteúdo para um século de estudos. Na época do Projeto Genoma, criou-se uma expectativa de que a repercussão direta viria nos dias seguintes. Aprendemos com o erro”, reconhece.

Pistas sobre a evolução humana Os dados fornecidos pelo Projeto Encode não vão beneficiar apenas as pesquisas médicas. As informações também poderão ser usadas nos estudos sobre a evolução humana. “Agora, sim, vamos entender as diferenças entre o homem e o chimpanzé. Hoje, ninguém consegue explicar por que, compartilhando mais de 98% dos genes com o macaco, somos tão diferentes. Não tenho dúvidas de que, agora, os cientistas vão encontrar uma resposta para complexidade do homem. Por exemplo, esclarecer por que nós falamos e eles não. É uma das coisas que vão começar a ser explicadas”, aposta o geneticista Salmo Raskin.
 
Na Universidade de Yale, que participa do Projeto Encode, os cientistas já descobriram que uma parte do genoma formado por “pseudogenes”, pedaços de DNA remanescentes do passado biológico, não são simples fósseis, como se imaginava. Esses genes não codificam mais as proteínas, responsáveis pelas funções do organismo, mas continuam no DNA. Embora aparentemente mortos, os pesquisadores de Yale constataram que eles “ressuscitam” para produzir pequenas moléculas que podem regular o funcionamento das proteínas. “Esse é um exemplo de que a natureza não joga fora seus recursos, uma história que vemos repetida por todas as mais de 3 bilhões de letras no nosso genoma”, disse, em nota, Mark Gerstein, professor de Informática Biomédica da instituição.

De acordo com ele, os pseudogenes ilustram como a evolução humana pode ter ocorrido, do ponto de vista molecular. Nos ancestrais, esses moldes de proteínas seriam funcionais. Eles foram herdados pelas espécies descendentes mas, com o passar do tempo, não se mostraram mais necessários para produzir os blocos que constituem as células, os tecidos e os órgãos. Como no organismo tudo pode ser reciclado, os genes ancestrais receberam uma nova função e, já que continuam ativos, é possível estudá-los. As pesquisas que se concentrarem nessas estruturas poderão revelar, entre outras coisas, para que elas serviam no passado e de que forma contribuíram para a evolução humana. (PO)

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