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Tecnologia

Independência total

A Marinha dos Estados Unidos testa o primeiro jato não tripulado capaz de realizar por conta própria manobras complexas, como ser abastecido no ar e pousar em um porta-aviões. O equipamento, chamado X-47B, também desvia de obstáculos sem a necessidade de comandos

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postado em 10/09/2012 12:56 / atualizado em 10/09/2012 12:58

A automatização das máquinas tem grande aplicação em fábricas, postos de atendimento e escritórios, mas há um lugar em que os dispositivos autônomos são mais do que bem-vindos: o campo de batalha. É cada vez menos comum a visão do soldado de arma na mão à moda antiga. Hoje, tanques e jatos vão à luta sozinhos, sem piloto. Os Estados Unidos já enviaram mais de 10 mil aeronaves de reconhecimento não tripuladas ao Afeganistão, ao Iêmen e a outras áreas de risco. Os veículos obedecem a ordens de acordo com as ordens dadas a quilômetros de distância.

A tecnologia, no entanto, vai além: uma nova geração de aviões está sendo preparada para voar completamente desacompanhada. São jatos que decolam, desviam de obstáculos, pousam e até mesmo participam de manobras de abastecimento por conta própria. Esses feitos são possíveis graças ao Programa de Sistema de Combate Aéreo Não Tripulado e Demonstração (UCAS-D, na sigla em inglês), da Marinha dos Estados Unidos.

Em 2007, o programa encomendou, à mesma empresa que ajudou no desenvolvimento do sistema de navegação do Curiosity (o jipe-robô que explora o solo de Marte), uma máquina capaz de voar sem controle direto ou remoto. Os frutos do investimento de R$ 15 milhões começam a ser colhidos neste ano. As duas aeronaves modelo X-47B já realizaram 23 voos de teste, durante os quais mostraram funcionar perfeitamente a 4,5 mil metros de altitude e a uma velocidade que ultrapassa os 300km/h. O modelo realizou, inclusive, o primeiro pouso de toque-arremetida autônomo da história (em que o avião toca o chão e imediatamente volta para o ar). Agora, o jato está passando por melhoras de software para realizar, ano que vem, uma ação que é o maior pesadelo de qualquer piloto: decolar e pousar em um porta-aviões. Por enquanto, a máquina foi testada numa plataforma falsa em um rio.

Depois disso, em 2014, o jato será colocado diante de outro grande desafio. Até lá, espera-se que ele esteja pronto para participar de um abastecimento de combustível em pleno ar com outra aeronave, sem a ajuda de qualquer piloto. Os dois feitos são inéditos para um avião não tripulado. “Um porta-aviões no meio do mar é um dos ambientes mais duros para a aviação”, ressalta o capitão Jaime Engdahl, responsável pelo programa UCAS-D na Marinha dos EUA. “O reabastecimento aéreo autônomo pode aumentar significativamente a duração e o alcance dos voos não tripulados com base em porta-aviões.”
Enquanto a aeronave autônoma faz manobras no ar, um profissional em uma sala de controle acompanha os movimentos do veículo e fica a postos para tomar o controle em caso de emergência. Mas, em situações normais, bastam alguns cliques no mouse para dizer ao avião o que fazer — os comandos são adaptações do manual de operações em linguagem digital. “A comunicação entre o X-47B e o controle ocorre numa ligação de dados digitais. Comandos visuais e orais usados pelas aeronaves tripuladas existentes foram digitalizados para que ele realize as mesmas tarefas”, explica Tighe Parmenter, gerente do projeto UCAS na Nortrop Grumman, a empresa contratada pela Marinha para criar o jato.

Ele desvia e controla a velocidade e a altitude baseado no próprio julgamento, montado a partir de informações recolhidas de milhares de missões virtuais e dos dados medidos pelos seus instrumentos e sensores. “Durante os testes realizados, os dados mostram que o X-47B voa de forma mais precisa que um piloto. Ele também pode pousar precisamente na mesma reta várias vezes”, descreve Parmenter. O jato apenas recebe o comando digital, passa a informação para seu software e manda um sinal de confirmação para o operador da missão.


Fora de combate

A Marinha norte-americana, no entanto, afirma que o jato independente nunca verá o combate real. “Essa é uma aeronave de demonstração feita com o objetivo de identificar e reduzir riscos técnicos associados com o futuro em potencial de sistemas compatíveis com porta-aviões”, afirma o capitão Engdahl. O avião, no entanto, tem o tamanho e o design sem cauda ideais para missões que precisem passar desapercebidas pelo radar inimigo. Os objetivos pacíficos do projeto também deixarão inutilizados os compartimentos de armamento dos jatos, com capacidade para uma bomba de quase uma tonelada cada.
De acordo com o professor Fernando Catalano, chefe do Departamento de Engenharia Aeronáutica da Universidade de São Paulo (USP) de São Carlos, esse tipo de aeronave é ideal para atuar em operações conjuntas, como um sistema de apoio aos aviões tripulados. No entanto, sistemas assim também teriam aplicações fora do campo de batalha. “Há mais de uma década existem aeronaves autônomas. Esse sistema foi desenvolvido pelos israelenses e decolava quase totalmente sozinho. É uma tendência muito grande, até o Brasil está investindo nisso. Mas esse avião é uma evolução”, o especialista brasileiro.

Mesmo sem o desenho militar, ainda resta ao projeto o software capaz de manter uma aeronave sozinha no ar — a verdadeira arma do X-47B. “Essa tendência tem muita utilidade nos campos militar e civil. Ele pode ser usado no controle de tráfego, na vistoria de linhas de alta-tensão e em qualquer situação que, por falta de segurança, seja muito cara para um avião tripulado”, enumera Catalano. O sistema de voo do jato já foi testado também em aviões tradicionais, e eles voaram com perfeição.
No Brasil, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) trabalha no desenvolvimento de aeronaves autônomas para análise de emissão de carbono e controle de pragas.

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