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Ciência

Intestino em desequilíbrio

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postado em 10/09/2012 12:58 / atualizado em 10/09/2012 13:01

Apesar de não parecer tão complexo quanto outros órgãos, como o cérebro, o funcionamento do intestino humano tem muitos detalhes a serem desvendados. Para se ter uma ideia, as bactérias que compõem a flora intestinal correspondem a 10 vezes o número de células do corpo. Cerca de 100 trilhões desses seres contribuem para manter o equilíbrio do organismo e também do sistema imunológico. Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em parceria com o Instituto de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês) traz novos dados sobre esse rico universo ao avaliar o comportamento desses micro-organismos em casos de infecção.


“É importante que as bactérias estejam lá. A falta de qualquer uma delas faz diferença na nossa resposta imune”, pontua a bióloga Liliane dos Santos, que atualmente faz pós-doutorado no Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG. “As bactérias são extremamente importantes, pois ajudam na digestão dos alimentos e também contribuem na proteção contra as infecções”, acrescenta.


Com o propósito de analisar o comportamento das bactérias no organismo em situações especiais, a pesquisa de Liliane contribui para o entendimento da ação das bactérias no organismo humano. O estudo abre caminho para que pesquisas futuras investiguem terapias eficazes contra doenças inflamatórias do intestino, que se caracterizam por condições crônicas que causam inflamação e rompimento do revestimento e da parede do órgão. O trabalho foi apresentado recentemente na revista Science, uma das mais importantes publicações científicas do mundo.

A pesquisa não propõe terapias para essas doenças, mas revela os mecanismos das infecções gastrointestinais. “Ainda é cedo para falarmos em mudanças de tratamento”, comenta. Em parceria com pesquisadores do NIH, a bióloga comprovou que, em situações de perda do equilíbrio da flora intestinal, as células T passam a detectar a existência desses micróbios na flora. Conhecidas como linfócitos, as células T exercem importante papel no sistema imunológico.

Reação
O estudo demonstrou que, em casos de infecção, devido ao rompimento do tecido do intestino, as bactérias são carregadas para outros órgãos pelas células chamadas apresentadoras de antígeno, como as dendríticas e os macrófagos. Ao reconhecer as bactérias fora do intestino, as células T se multiplicam e produzem citocinas, proteínas responsáveis por induzir ou conter a inflamação. “O aumento do número de células e a produção de citocinas constituem a reação do sistema imune contra as bactérias da microbiota”, explica a pesquisadora. Liliane, no entanto, não analisou como as células T reagem às bactérias que se deslocaram do intestino. Ela não tem conhecimento de outros trabalhos científicos que demonstrem esse processo. A presença das bactérias da flora intestinal em outros órgãos não causa infecção, mas o sistema imune não faz distinção entre as bactérias boas das que causam as doenças.

O estudo usou camundongos especiais, como a linhagem transgênica Cbir1, na qual todas as células T reagem a apenas um tipo de bactéria da flora intestinal. A pesquisadora definiu que a infecção a ser provocada nos camundongos seria causada pelo parasita Toxoplasma gondhi em função da alta incidência da doença que ele provoca: a toxoplasmose. Determinados os grupos para o experimento, o primeiro passo foi induzir a enfermidade nos camundogos de um deles. Em seguida, a pesquisadora observou as diferentes respostas dos camundongos afetados.

“Observamos o tipo de célula envolvida. Se havia bactéria fora do intestino e em qual quantidade”, conta. Havia um grupo de controle formado por cobaias não infectadas com o parasita para que a comparação pudesse ser feita. Além de concluir que há a migração das bactérias do intestino para outros órgãos, o estudo descreve o processo.

O trabalho demonstra que a resposta imune a bactérias do intestino é importante porque pode ajudar a proteger o organismo contra parasitas. A resposta é ativada não apenas nesse primeiro contato com o parasita, mas todas as vezes que a célula T entra em contato com a bactéria, devido à chamada resposta de memória, semelhante ao efeito produzido no organismo pelas vacinas.
A pesquisadora também explica que, quando o organismo perde um tipo de bactéria intestinal devido ao uso de antibióticos, toda a resposta imune se modifica. Isso  ocorre porque essas drogas não fazem diferença entre as bactérias nocivas à saúde e as bactérias da flora. Por isso, o uso de antibióticos tem como efeito colateral fragilizar a proteção natural. A bióloga participou da pesquisa quando esteve no NIH em programa de doutorado sanduíche, de 2009 a 2011.

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