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Ciência

Compulsão canina

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postado em 12/09/2012 11:28 / atualizado em 12/09/2012 13:08

Engana-se quem acredita que o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) é um problema exclusivo dos humanos em tempos marcados pelo estresse. De acordo com uma pesquisa desenvolvida na Universidade de Helsinki, na Finlândia, a mania dos cachorros de perseguirem o próprio rabo, se repetida de forma excessiva, pode ser considerada também um transtorno neuropsiquiátrico. Após investigar as características e fatores ambientais por trás do ato, os cientistas reforçam a hipótese de que os cães são um excelente modelo animal para estudar transtornos psquiátricos que afetam os humanos.

“O comportamento compulsivo em cachorros e o TOC em humanos dividem muitos fatores comuns, como a natureza repetitiva, o início precoce e a resposta positiva a certos medicamentos, como os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS)”, afirma Katriina Tiira, autora do artigo publicado na revista Plos ONE. Segundo ela, tanto os humanos quanto os cães são afetados por fatores ambientais e genéticos quando o assunto são transtornos neuropsiquiátricos. “Os fatores ambientais que influenciam o cachorro a correr atrás do próprio rabo estão relacionados ao consumo de vitaminas e à esterilização das fêmeas, o que também já foi associado ao TOC humano em estudos anteriores”, prossegue Tiira.

Não faz muito tempo, pesquisadores de diversas regiões começaram a retirar o foco somente dos camundongos e ratos e passaram a enxergar os cães como um modelo eficiente para estudos genéticos de psicopatologias. No caso do entendimento da compulsão, esses animais se mostram ainda mais úteis, principalmente por ser um comportamento facilmente reconhecido pelos proprietários. Além disso, o transtorno ocorre em raças muito específicas, o que sugere um componente genético forte. Segundo Tiira, o objetivo dos pesquisadores na primeira parte do estudo foi avaliar e caracterizar o comportamento compulsivo em bull terriers finlandeses padrão (BT), bull terriers finlandeses em miniatura (MBT), pastores alemães (GS) e staffordshire bull terriers (SBT).

Para realizar a análise, os pesquisadores coletaram amostras de sangue de quase 400 cachorros, além de aplicar dois tipos de questionários aos seus donos. As perguntas englobavam questões sobre os exercícios físicos diários dos bichos, os nutrientes ingeridos na dieta, a socialização dos animais, a idade de cada um deles, quando foram separados de sua mãe e vários tipos de ações estereotipadas. “Para complementar, nós também perguntamos sobre a personalidade dos cachorros e seus comportamentos em diferentes circunstâncias”, explica a cientista finlandesa.

O estudo incluiu cães que perseguiam o rabo diariamente por várias horas, outros que perseguiam o rabo algumas vezes por mês e, por último, aqueles que, de acordo com a observação de seus donos, nunca haviam realizado o ato. Na maioria dos casos, o comportamento começou com a idade de 3 a 6 meses, ou seja, antes de os cães atingirem a maturidade sexual.

Nutrição e ambiente
De acordo com a autora do estudo, uma das conclusões mais interessantes da pesquisa foi a ligação de comportamentos estereotipados com vitaminas e minerais. Tiira explica que os cães que receberam mais suplementos nutricionais em sua alimentação perseguiam menos o rabo. Apesar de alertar que ainda é muito cedo para estabelecer uma relação causal entre os dois, ela ressalta que, curiosamente, resultados semelhantes foram observados também no TOC humano. Ou seja, as pessoas que consomem mais micronutrientes têm uma propensão menor para desenvolver transtorno obsessivo-compulsivo.

Apesar dos indícios, um estudo de acompanhamento ainda é necessário para provar se as vitaminas podem ser benéficas no tratamento de cães que perseguem excessivamente a sua cauda, lambem muito o flanco, ou ficam todo o tempo atrás de luzes e sombras. Todas essas ações foram englobadas pela ciência enquanto compulsão canina (CD) e passaram a ser diagnosticadas por veterinários como transtornos que precisam de tratamento.

Além da dieta alimentar, os pesquisadores também atribuem a separação precoce dos filhotes de suas mães a uma importante causa para a predisposição de comportamento compulsivo. A quantidade de exercícios também mostrou uma forte conexão. Tiira acrescenta que, embora a frustração e o estresse sejam, provavelmente, importantes causas para a ocorrência de comportamentos estereotipados em animais de zoológico, eles são menos significativos em cães finlandeses, por exemplo, que caminham regularmente e fazem muitos exercícios.

Se as causas ambientais relacionadas aos transtornos em cachorros foram bem mapeadas na primeira etapa do estudo, as análises genéticas ainda precisarão de tempo para serem realizadas. De acordo com Katriina Tiira, o próximo passo será encontrar os genes que estão por trás do comportamento compulsivo nas mesmas quatro raças já estudadas por sua equipe.

Em 2010, uma diferente pesquisa descobriu que o gene CDH2 estava associado ao comportamento compulsivo dos dobermans que lambiam muito o flanco. “Em nosso estudo, nós também investigamos se esse gene estava associado à perseguição do rabo em qualquer uma das raças que estávamos analisando. Nós não encontramos nenhuma associação, embora nossos dados indiquem que esse comportamento também seja hereditário”, pontua Tiira. De acordo com ela, o resultado preliminar sugere que pode haver raças ou compulsões relacionados a genes específicos.

Avanços
Para o professor André de Avila Ramos, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), apesar de o estudo não fornecer muita novidade no que diz respeito à genética do comportamento, os resultados trazem avanços nos modelos de compreensão de transtornos compulsivos em animais e humanos. Sobre a vantagem em utilizar cachorros, e não ratos e camundongos, ele diz que todas as espécies têm semelhanças e diferenças com a espécie humana, e, portanto, todo “modelo animal” tem seus pontos fortes e fracos.

“Usamos muito os roedores pela facilidade e praticidade, mas sempre que pudermos estudar uma espécie a mais (por exemplo, primatas ou cães), estaremos acumulando mais informações úteis para a comparação dos estudos com outras espécies. Esse tipo de estudo pode ser chamado de genômica comparativa”, esclarece Ramos, que trabalha no Laboratório de Genética do Comportamento da UFSC. O professor avalia que as linhas de pesquisa que relacionam a genética às psicopatologias ainda estão “engatinhando”, mas avalia que as causas desses males nunca serão puramente hereditárias, uma vez que eles também dependem de muitos fatores ambientais.


Pensamento e ação

O transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) é um distúrbio psiquiátrico de ansiedade descrito no Manual de diagnóstico e estatística de transtornos mentais, da Associação de Psiquiatria Americana, como um problema caracterizado pela presença de crises recorrentes de obsessões e compulsões. Por obsessão, entendem-se pensamentos, ideias e imagens que invadem a pessoa insistentemente, sem que ela queira. A partir desse quadro, muitos pacientes passam a realizar ações que causam um alívio momentâneo da obsessão, que volta logo depois. Dessa forma, os gestos passam a ser repetidos várias vezes, assumindo características de rituais e seguindo regras e etapas rígidas e preestabelecidas.

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