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Ciência

Da web para a vida real

Pesquisa comprova que mensagens divulgadas por amigos nas redes sociais podem alterar a forma de agir dos internautas. Os autores do estudo estimam que a disseminação de um aplicativo no Facebook levou 340 mil pessoas a votarem nas eleições parlamentares dos EUA

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postado em 14/09/2012 08:00 / atualizado em 13/09/2012 13:21

Postagens no Facebook podem, de alguma forma, alterar o curso da história? Muitos céticos em relação às redes sociais podem achar que não, mas o resultado de uma pesquisa que ilustra a capa da edição de hoje da Nature, uma das mais respeitadas revistas científicas do mundo, mostra que sim. Pelo menos no campo político, afirmam os autores do estudo, a propagação de mensagens virais tem efeitos muito claros na vida fora da internet. Em um experimento realizado durante as eleições parlamentares dos Estados Unidos de 2010, os pesquisadores conseguiram, apenas com o uso das redes sociais, levar cerca de 340 mil pessoas às urnas. Essa é a primeira vez que se mede de maneira tão direta os efeitos que as ações on-line têm no universo off-line. O poder de convencer uma pessoa a agir de determinada forma, porém, depende muito da participação de amigos próximos a ela.

Como o eleitor americano não é obrigado a comparecer às seções eleitorais, os candidatos precisam, além de ganhar a preferência dos eleitores, convencê-los a sair de casa e ir às urnas. Para verificar se a web poderia ajudar nessa tarefa, os pesquisadores montaram um experimento social para as eleições de dois anos atrás. No dia da eleição, um aplicativo que convidava as pessoas a votar foi enviado a 61 milhões de usuários do Facebook. Além de lembrar sobre o pleito, o mecanismo também permitia que o internauta assinalasse que já tinha votado. A grande maioria das pessoas recebeu uma versão mais simples do aplicativo, enquanto 1% delas visualizou também uma lista de seus amigos que já tinham ido votar.

Passada a eleição, os autores do estudo se debruçaram sobre os registros de votação — disponíveis publicamente na maioria dos estados americanos — e puderam ver quantos usuários com acesso ao aplicativo tinham participado. Eles descobriram, por exemplo, que 4% daqueles que disseram ter ido às urnas tinham mentido. Mas o dado mais importante era outro: enquanto a taxa de participação das pessoas que tinham visualizado a versão mais simples do aplicativo era igual à do público em geral, a do 1% de usuários que puderam ver quais de seus amigos tinham votado foi sensivelmente maior. Dos quase 600 mil usuários que receberam a informação mais completa, os pesquisadores acreditam que pelo menos 60 mil não pretendiam votar, mas acabaram indo por influência da rede social.

“A influência social fez toda a diferença na mobilização política, mas não se trata apenas de ver bottons escritos ‘eu votei’ ou um adesivo. (O que influencia uma pessoa a votar) é alguém ligado a ela”, explicou em conferência à imprensa o principal autor da pesquisa, James Fowler, da Universidade da Califórnia em San Diego.

Os pesquisadores mediram também a influência indireta da ação. Comparando dados de votação dos amigos desses 60 mil eleitores mobilizados com os dos eleitores em geral, os cientistas chegaram a um número de 340 mil pessoas influenciadas a votar. Cada indivíduo que era convencido a ir às urnas por ver as informações no Facebook, influenciava, em média, outras quatro pessoas a agir da mesma forma, ampliando o alcance da ação para muito além dos limites da internet. “Comportamentos mudaram não só porque as pessoas foram diretamente afetadas, mas também porque os seus amigos (e amigos de amigos) foram afetados”, completou Fowler.

Além da política
Estudos anteriores já tinham mostrado que os amigos têm influência sobre os usuários de redes sociais. Faltava, porém, comparar o desejo de realizar algo com a real atitude de sair de casa e agir, indo, por exemplo, votar. Para Sinan Aral, especialista em mídias sociais da Universidade de Nova York, a compreensão de quais elementos fazem a avalanche de mensagens lançadas nas redes sociais efetivamente se transformarem em uma mudança de comportamento tem aplicações que ultrapassam o terreno político. “Esse estudo é o primeiro passo para projetarmos intervenções virtuais que podem promover comportamentos positivos em populações humanas, ou conter os negativos”, comentou. “Contudo, ainda há muito trabalho a fazer, especialmente modelar o grau de contaminação ou vazamento no experimento”, afirma. Isso significa dizer que os pesquisadores terão de aprender a mensurar melhor que outras influências virtuais podem afetar o resultado desse tipo de estudo.

As aplicações, quando esse tipo de modelagem estiver mais afinado, serão as mais diversas, na opinião de Aral. “É óbvio que seja relevante para, por exemplo, publicidade direcionada e marketing viral. Mas essas intervenções também têm o potencial de promover mudanças sociais positivas, como o aumento da taxa de testes de HIV, a redução da violência ou a adoção de hábitos mais saudáveis. Dessa forma, o estudo da influência social pode ter implicações dramáticas para a economia, a política ou a saúde pública”, acrescentou.

 

Doação de órgãos e leitura Mesmo antes de uma comprovação como a realizada pelo estudo divulgado pela Nature, diferentes iniciativas e órgãos governamentais já perceberam o poder de influência das redes sociais. Uma das ações mais recentes nesse sentido feitas no Brasil é uma ferramenta lançada pelo Ministério da Saúde em parceria com o Facebook que permite aos usuários do site expressarem a vontade de doar os órgãos.

Para utilizar o aplicativo, o internauta com uma conta no Facebook deve clicar na opção “evento cotidiano”, localizado na parte superior de sua linha do tempo, e selecionar “saúde e bem-estar”. Lá, verá a opção para se declarar doador. Caso ele manifeste o desejo, a ferramenta o leva a uma área na qual pode selecionar os contatos que deverão receber uma mensagem sobre a opção feita.

De acordo com um levantamento divulgado na última quinta-feira pelo ministério, a proposta tem dado certo: mais de 80 mil brasileiros utilizaram a ferramenta desde 30 de julho, quando foi lançada. Para Heder Murari Borba, coordenador do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), o número mostra a capacidade de o site afetar a sociedade de forma positiva. “A rede social tem sido usada como uma ferramenta para campanhas sérias”, enxerga.

Outra ação governamental que busca apoio na rede é a campanha “Leia mais, seja mais”, do Ministério da Cultura. A iniciativa planeja utilizar diferentes meios, incluindo a web, para estimular o hábito da leitura, principalmente entre as classes C, D e E. No Facebook, por exemplo, os usuários serão incentivados a colocar a capa de um livro como foto do perfil.

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