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Ciência

A busca por um arroz mais produtivo

Pesquisadores chineses isolam os genes que causam a esterilidade da variante índico-japônica do grão, o que deve tornar seu plantio mais eficiente. O alimento já começa a faltar em diversos países

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postado em 14/09/2012 12:36 / atualizado em 14/09/2012 12:38

Max Milliano Melo

Segundo a mitologia chinesa, o arroz surgiu para salvar a humanidade quando ela estava à beira da inanição. “Em uma história, a deusa Guan Yon apiedou-se dos seres humanos famintos e espremeu seus seios para produzir leite, que escorreu para as espigas antes vazias dos pés de arroz e se transformou em grãos”, conta o pesquisador britânico Tom Standage, no livro Uma história comestível da humanidade (Editora Zahar). Agora, porém, a bem-sucedida relação do homem com a planta, que há milênios nutre pessoas em todo o planeta, está estremecida. O crescimento rápido da população mundial, que já ultrapassa os 7 bilhões, e os efeitos das mudanças climáticas fizeram com que a produção do grão chegasse perto do limite, criando um desafio para cientistas e agricultores.

Em um artigo publicado na revista Science, cientistas chineses mostram que deram um passo importante na luta para ampliar consideravelmente a produção de arroz no mundo. Os pesquisadores, da Universidade Agrícola Huazhong, conseguiram isolar os três genes responsáveis pela esterilidade do arroz índico-japônico, uma espécie híbrida maior e mais produtiva que os tipos que lhe dão origem, o zhenshan 97 e o nipponbare (veja arte). A partir do feito, será possível tornar a planta mais resistente e produtiva.

Na natureza, ocorrem outros casos de hibridismo animal e vegetal, ou seja, o surgimento de uma nova espécie a partir do cruzamento de outras duas. É o caso, por exemplo, do burro, surgido após o cruzamento da égua com o jumento. De maneira geral, a espécie resultante traz características positivas das que lhe deram origem — o que na genética é chamado de heterose. Em todos os casos, porém, o resultado do cruzamento é estéril, ou seja, não pode produzir descendentes.

“Essa é uma descoberta muito esperada. Híbridos entre arroz índico e japônico geralmente apresentam heterose forte, que pode potencialmente aumentar o rendimento. Entender o mecanismo que causa a esterilidade dos híbridos nos permitirá desenvolver estratégias para a utilização da heterose forte de tais híbridos para aumentar a produção de arroz”, explica Qifa Zhang, principal autor da pesquisa.

Na trilha de Darwin
“Sempre cultivar a melhor variedade conhecida, semeando essas sementes, e, quando uma variedade ligeiramente melhor por acaso aparecer, selecioná-la, e assim por diante.” Com essa frase, o cientista Charles Darwin, em seu famoso livro A origem das espécies, explicou como o arroz se tornou uma das bases da alimentação humana, a partir de 7.500 a.C., quando começou a ser cultivado na China. O que os pesquisadores chineses tentam fazer é seguir o que Darwin formulou: plantar a melhor variável do arroz já encontrada, continuando o ciclo de melhoramento genético da planta e assim evitar a falta do grão, que já começa a ser sentida.

Na Indonésia, famosa por seus milenares terraços de arroz, a demanda pelo alimento já ultrapassou a capacidade do país de produzi-lo, o que fez o governo estimular a substituição por outros produtos. Por lá, a nova esperança é uma espécie de sagu feito de palma desenvolvida por cientistas do país. No entanto, há uma enorme resistência a outros produtos, como mostra um ditado popular do país: “Se você não comeu arroz durante a vida, você não comeu nada”.

A crise assola também outros países, como o Japão e a Índia, e chegou até mesmo ao Brasil, onde o preço do alimento subiu 75% entre 2005 e 2010. Uma seca destruiu os arrozais dos Estados Unidos e obrigou, no mês passado, a China, maior consumidor do grão em todo o mundo, a lançar mão de suas reservas do alimento, aumentando o risco da falta do produto até as próximas colheitas, que só devem acontecer em outubro.

Os dois países se viram recentemente envolvidos em um escândalo científico depois que o Greenpeace denunciou que 20 crianças foram alimentadas com arroz geneticamente modificado e utilizadas como cobaias em estudos conduzidos por pesquisadores das duas potências. “É incrivelmente perturbador pensar que um organismo de pesquisa americano utilizou crianças chinesas como cobaias para alimentos geneticamente modificados”, disse a ONG. A pesquisa, feita em 2008, tentava desenvolver o “arroz de ouro”, uma variante mais produtiva da planta.
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