Para fritar e fazer plástico

Pesquisa realizada no Reino Unido consegue produzir o material a partir de óleo de cozinha usado. Além de sustentável, a peça resultante da técnica é atóxica e biodegradável

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postado em 20/09/2012 08:00 / atualizado em 19/09/2012 09:57

Com o crescimento da produção de bioplástico no Brasil e no mundo, aumentam também as dúvidas sobre sua vantagem ambiental. Isso porque o uso de vegetais como a soja e o milho na fabricação do produto, apesar de parecer mais sustentável, cria uma competição com o mercado de alimentos e estimula o desmatamento para a criação de plantações. Buscando formas de produção menos agressivas à natureza, cientistas da Universidade de Wolverhamtpon, no Reino Unido, mostraram ser possível fabricar o material biodegradável a partir de óleo de cozinha usado. A técnica se mostra tão eficiente quanto o uso da tradicional glucose e ainda apresenta uma solução para o problema da poluição causada pelo alimento descartado.

Bioplásticos são estudados há mais de 70 anos, mas foi nas últimas duas décadas que passaram a merecer mais atenção dos laboratórios, na buscar por matérias-primas mais baratas e menos poluentes que o petróleo. O que se descobriu foi que, com a ajuda de micróbios equipados com enzimas especiais, se torna possível sintetizar alimentos em grânulos semelhantes ao plástico comum, mas com a vantagem de biodegradável e atóxico — características ideais para a fabricação de produtos como garrafas e implantes médicos criados para ser absorvidos pelo organismo.
“Sabendo que o óleo de cozinha é uma fonte de carbono para o crescimento microbial e vendo a grande quantidade jogada fora de restaurantes e casas todos os dias, decidimos tentar a produção microbial a partir desses líquidos”, explica Iza Radecka, principal autora do estudo. Em sua pesquisa, ela utilizou uma bactéria chamada Ralstonia eutropha H16 para auxiliar na fabricação do polihidroxialcanoato (PHA). Ela também comparou que tipo de óleo de cozinha seria mais eficiente: o usado, o puro ou o puro aquecido (veja arte).

O resultado mostrou que o material mais barato é muito mais produtivo. Em apenas dois dias de cultivo, cada litro de óleo usado gerou 1,2g de plástico, o dobro da quantidade alcançada com a fabricação a partir do óleo puro. Se comparado com a glucose, os resultados são ainda mais animadores: a utilização do líquido descartado produziu mais material a um custo três vezes menor. O processo é o mesmo, e o óleo não precisa nem mesmo passar por um processo de purificação.

As nanofibras do plástico formadas no processo também eram menos cristalinas, o que significa que o material é menos agressivo ao organismo. Essa característica o torna apropriado para aplicações médicas, como a fabricação de microcápsulas para drogas ou implantes. O material também pode ser usado para a fabricação de contêineres e ferramentas de agricultura, mas a pesquisadora acredita que a descoberta de novas matérias-primas pode expandir ainda mais a versatilidade do plástico orgânico e colocá-lo em pé de igualdade de competição com o material petroquímico. “Isso poria um fim no uso do combustível fóssil e daria um fim aos contaminantes ambientais”, resume Radecka.

Versatilidade

Por enquanto, o óleo de cozinha usado só foi testado com bactérias capazes de produzir o PHA, mas a mesma matéria-prima poderia ajudar na obtenção de plásticos mais flexíveis. “São três coisas que influenciam o resultado: a matéria-prima, a bactéria e a enzima que ela usa. Essa bactéria só vai fazer plásticos desse tipo, polímeros com esse número de carbonos. Mas há outras com enzimas que podem juntar seis ou oito carbonos e, à medida que esse número aumenta, o plástico fica mais elástico”, explica a engenheira bioquímica Luiziana Ferreira da Silva, da Universidade de São Paulo (USP).
Com a ajuda da engenharia genética, bastaria desenvolver bactérias com as enzimas corretas, e o bioplástico poderia ser usado em embalagens, sacolas e até mesmo fraldas descartáveis. Essas bactérias teriam a função de quebrar o óleo em moléculas menores, metabolizá-lo até acumularem o material, como gordura. “A célula bacteriana fica cheia de grânulos desse plástico, como se fosse uma fava com várias ervilhas, que seriam feitas de polímeros. Temos de romper a bactéria e dissolver os grânulos”, descreve Luiziana. As bactérias podem ser rompidas com altas temperaturas ou solventes, mas há também pesquisadores que buscam uma forma de criar células que se destruam sozinhas.

A especialista, que trabalha há 20 anos com a produção do material a partir da cana-de-açúcar, ainda alerta: todo o processo precisa ser ambientalmente correto para que a iniciativa valha a pena. No país, é usado o bagaço que resta do processo de uma refinaria de melaço, e o álcool da própria cana serve para romper as bactérias. Por enquanto, a fabricação do plástico criado pela USP continua em escala modelo.

Problema antigo

O novo uso para o óleo de cozinha pode ser um estímulo para a solução de um problema antigo que ainda dá passos lentos em direção à solução: estima-se que, apenas no Brasil, 200 milhões de litros de óleo sejam despejados todos os meses nos rios e nos sistemas de tratamento de água. Enquanto indústrias de todo o país já usam o material para a fabricação de sabão, cola ou massa para vidro, as pessoas continuam se desfazendo do líquido da maneira errada, causando um prejuízo econômico e ambiental.

Cada família consome, em média, quatro litros de óleo por mês. Desses, um quarto acaba indo do fundo das frigideiras direto para o ralo da pia. “Mas não é apenas meio copinho. Somos muitos, e o estrago é silencioso. Cada gota que conseguimos desviar para a reciclagem é um ganho para a sociedade e ainda gera trabalho e renda”, esclarece Célia Marcondes, presidente da ONG Ecóleo, que coleta e auxilia na reciclagem de resíduos de óleo comestível em todo o Brasil.

A adoção do modelo de reciclagem da organização em um bairro paulista representou, em apenas um ano, uma economia de mais de 25% nas despesas de manutenção da tubulação pública do local. Os litros de óleo sujo que entupiam os canos foram para a mão dos recicladores, que conseguem vender o material a até R$ 1 o litro. “O resto alimentar vai para ração, a gordura condensada é destinado à graxaria e derivados, e o mais limpo é usado em biodiesel”, lista Célia, que já comemora o recolhimento de 2,6 milhões de litros de óleo todos os meses apenas em São Paulo.
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