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Ciência

Do estresse à depressão

Estudo norte-americano explica por que às vezes uma rotina desgastante leva a quadros depressivos. A pressão, quando exagerada, pode fazer com que o cérebro pare de produzir substâncias relacionadas ao prazer e à motivação

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postado em 21/09/2012 08:00 / atualizado em 20/09/2012 10:47

Marcela Ulhoa

Desde que o estresse passou a ser uma constante na vida de milhares de pessoas no mundo, principalmente das que vivem em grandes centros urbanos, médicos, psiquiatras e psicólogos começaram a notar que a tensão recorrente do dia a dia poderia ter uma relação direta com quadros depressivos. Entretanto, se a ligação entre os dois era relativamente fácil de ser observada, as causas biológicas e químicas por trás do fenômeno continuavam uma incógnita com muitas hipóteses. Um estudo publicado hoje na revista científica Nature apresenta uma nova explicação de por que rotinas estressantes podem causar depressão em alguns casos. A ideia é que, no futuro, a descoberta possa resultar em um tratamentos mais eficientes para o problema.

O ponto principal da pesquisa, desenvolvida na Universidade de Washington, nos Estados Unidos, está no mecanismo de liberação de um hormônio cerebral chamado fator liberador de corticotrofina (CRF, na sigla em inglês). Paul Phillips, autor do artigo, explica que, normalmente, em situações nas quais o indivíduo é submetido a estímulos estressores, o cérebro produz mais CRF, como uma forma de combater os efeitos negativos causados pela situação adversa. Isso ocorre porque o hormônio é responsável por liberar dopamina no cérebro, substância que provoca sensação de prazer e motivação necessária para apaziguar as tensões.

O que a equipe de Phillips conseguiu entender, no entanto, é que há uma situação limite em que essa resposta fisiológica se inverte completamente. Em vez de produzir mais CRF e dopamina para lutar contra o estresse, o cérebro passa a ser aversivo à substância e para de responder aos estímulos ambientais. É como se o corpo entregasse os pontos e desistisse do combate, tamanha sua fadiga frente a tantas e tão fortes situações de tensão. É nesse momento que a depressão toma conta.

Para chegar a essa constatação, os pesquisadores americanos realizaram experimentos em ratos de laboratório. A partir de estudos anatômicos, foi possível modular a quantidade de dopamina e CRF no cérebro dos animais e comparar a diferença de quantidade das substâncias após as cobaias serem submetidas a um quadro de estresse induzido. O resultado: depois de jogados na água e forçados a nadar por alguns minutos durante dois dias seguidos, os ratos produziram volumes menores dessas substâncias. Uma posterior análise do comportamento dos animais mostrou ainda que eles estavam em depressão, pois quase não se movimentavam mais.

“Nós estudamos dopamina por um longo período e sabemos que ela desempenha um importante papel na ativação de resposta a estímulos ambientais. Estudos anteriores do laboratório de Kent Berridge, na Universidade de Michigan, nos deram a pista de que o CRF poderia ser responsável por regular a dopamina. Nós então testamos essa hipótese”, esclarece Phillips. Segundo o cientista, a metodologia que seu grupo utilizou de depressão por indução do estresse é considerado um dos melhores modelos animais disponíveis para estudar essa condição humana.

Apesar de o cérebro humano ser muito mais complexo do que o de ratos, a médica Eliana Melhado, membro da Academia Brasileira de Neurologia, pondera que a resposta hormonal dos roedores é muito parecida com a dos humanos. Dessa forma, o modelo animal possibilitaria uma boa aproximação de como ocorrem os processos químicos desencadeados pelo estresse nas pessoas. “Mas para extrapolar os resultados de forma segura, os pesquisadores terão de replicar a experiência em humanos, respeitando, é claro, os preceitos éticos”, defende.

Remédios
Segundo ela, os remédios atuais de controle da depressão focam muito mais na serotonina, entretanto, se testado em humanos, o novo estudo pode revelar que, na verdade, a disfunção na liberação da dopamina é mais preponderante para o surgimento do transtorno. “O estudo é muito interessante porque, a partir de seus resultados, pode-se cogitar a produção de remédios duais, que atuam tanto na serotonina quanto na dopamina. Hoje, não existe nenhum fármaco antidepressivo que aja na dopamina”, explica Melhado. A médica reforça ainda a necessidade de mais estudos que busquem responder, por exemplo, por que existem pessoas que, mesmo submetidas frequentemente ao estresse, não entram em depressão.

Segundo Raphael Boechat, psiquiatra do Hospital Santa Lúcia, até pouco tempo tempo atrás havia muitas explicações simplistas para o distúrbio. “Hoje sabemos que a depressão é muito mais complexa. Não é só uma questão de serotonina e neurotransmissores. O RNA do neurônio e até o tamanho do cérebro podem estar envolvidos.” Boechat afirma ainda que o estímulo do estresse é necessário para a manutenção da espécie e instinto de sobrevivência, o problema surge quando ele se torna crônico.

A psicóloga comportamental Kelly Gennari divide a mesma opinião de Boechat. “O estresse tem uma certa utilidade na nossa vida. É ele que faz a gente se levantar cedo, se dedicar ao trabalho e aos estudos. Para nós terapeutas, o conceito de depressão surge não com o estresse em si, mas quando há uma ausência de reforçadores, ou seja, daquilo que faz com que nos sintamos recompensados apesar das dificuldades”, diz. Segundo ela, esse é o caso, por exemplo, das pessoas que trabalham muito, mas que, mesmo assim, ganham pouco ou nunca têm um retorno positivo do chefe ou outra forma de reconhecimento por tanta dedicação.
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