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Correio Braziliense

Ciência

Os primeiros viajantes

Cientistas afirmam que o primeiro povo a deixar o local onde a humanidade surgiu, na Etiópia, e partir em busca de novos territórios foram os khoisan, há 100 mil anos. A etnia vive até hoje no sul da África e quase foi extinta por conflitos com europeus

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postado em 21/09/2012 12:33 / atualizado em 21/09/2012 12:37

Entender os caminhos seguidos pela humanidade desde seu surgimento até a conquista de todo o globo é um dos maiores desafios da ciência. Esse imenso quebra-cabeça da história tem mais uma importante peça revelada na edição de hoje da Science. Em um artigo publicado na revista especializada, um grupo internacional de pesquisadores afirma ter descoberto que os khoisan, etnia que até hoje vive na porção sul da África, foram o primeiro grupo de homens e mulheres a deixarem o berço da humanidade, no sul da Etiópia, e explorar novas terras, há cerca de 100 mil anos. A pesquisa, feita com base em amostras de DNA de centenas de pessoas, deve ajudar a remontar a trajetória percorrida pelo homem ao longo de sua evolução e conquista do planeta.

Depois de cruzar informações de 2,3 mil variantes genéticas de 220 pessoas de diferentes grupos africanos, os responsáveis pelo estudo concluíram que, bem antes de deixar a África rumo à Europa, à Ásia e, posteriormente, à América, o homem seguiu em direção ao sul do continente africano, para uma região onde hoje fica parte de Angola e Namíbia. “A mais antiga separação em populações humanas ocorreu cerca de 100 mil anos atrás, bem antes de os humanos modernos migrarem da África”, explica Carina Schlebusch, da Universidade Wits, na Suécia. “Isso significa que a divisão desse grupo é duas vezes mais antiga que a dos povos pigmeus da África Central e a dos caçadores-coletores da África Oriental”, completa a sueca.

A principal teoria para o surgimento dos humanos é que o primeiro grupo de Homo sapiens tenha sido originado no centro-leste da África, onde hoje é a Etiópia, há cerca de 200 mil anos. Cerca de 50 mil anos atrás, bem depois da migração para o sul da África, alguns grupos começaram a se espalhar pela Ásia. A Europa começou a ser habitada 12 mil anos mais tarde. A ocupação do restante do globo é bastante incerta. Estima-se que a chegada do Homo sapiens à América tenha ocorrido entre 15 mil e 35 mil anos atrás. A conquista da Oceania é outro mistério, já que há dados que sugerem que ela tenha ocorrido há 75 mil anos, antes mesmo da ocupação asiática — nesse caso, uma possibilidade é que os primeiros homens a deixar a África tenham seguido direto para lá, usando a Ásia apenas como um caminho.

 

Heterogêneo
Antes de todas essa levas migratórias, porém, ocorreram circulações dentro da África, e a primeira delas foi feita pelos khoisan. “A população humana foi estruturada por um longo tempo”, afirma Mattias Jakobsson, da Universidade Uppsala, também na Suécia. “É possível que os humanos modernos tenham surgido a partir de um grupo não homogêneo”, completa. Isso significa dizer que não necessariamente apenas um grupo migrou de região em região até conquistar todo o planeta. A diversificação humana iniciada na África pode ter criado várias frentes de deslocamento, fazendo com que conjuntos de pessoas diferentes chegassem a partes distintas do globo.

Os khoisan, por exemplo, formaram ao menos dois grupos distintos ao longo de sua história. Depois de ocupar a região onde hoje ficam Angola e Namíbia, a etnia voltou a se separar, com uma parte seguindo para o território hoje ocupado pela África do Sul, entre 25 mil e 40 mil anos atrás. Foram essas duas frentes as responsáveis pela disseminação do pastoreio pelo sul da África, enquanto os bantus, outro grupo étnico, levou as práticas de criar animais para zonas mais ao norte. Apesar de terem sido quase totalmente dizimados com a chegada de zulus, holandeses e britânicos aos seu território, algumas tribos khoisan sobreviveram e seus descendentes vivem até hoje.

Além de remontar a história da humanidade, os pesquisadores pretendem com o novo estudo ajudar a preservar o grupo que historicamente sofreu com a concorrência de outras etnias e resistiu à dominação do homem branco. “A informação genética está ficando cada vez mais importante para fins médicos. Além de contar sua história, esperamos que os khoisan possam agora ser beneficiados pelos avanços”, explica Carina Schlebusch.

Os pesquisadores pretendem agora levar para os grupos estudados os resultados de suas análises. “Por meio dessa colaboração magnífica, nós temos dado aos povos de África uma oportunidade de recuperar seu lugar na história do mundo”, afirma, em comunicado, Soodyall, especialista da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, na África do Sul. Além da publicação do estudo, os autores visitarão aldeias do grupo e participarão, na próxima segunda feira, das comemorações do Dia do Patrimônio Khoisan no país.

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