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Ciência

Irresistível

Pesquisa desvenda como o consumo de chocolate age no cérebro e provoca o desejo de comer o doce sem parar. Segundo o estudo, feito em ratos, o processo é desencadeado pela liberação de uma substância opioide natural em uma área chamada neostriatum dorsal

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postado em 24/09/2012 08:00 / atualizado em 23/09/2012 17:55

 

 

 

 

 

Chocolate no café da manhã, depois do almoço, no lanche das cinco e no jantar. Se pudesse, a antropóloga Manuela Muguruza comeria o doce o dia todo. Não há calor que espante o desejo ou horário que pareça mais ou menos adequado para se deliciar. “Eu não gosto muito de tomar café da manhã, então tem vezes que abro um chocolate e como”, afirma. A paixão vem de criança, quando tinha menos de 1 ano e seu pai lhe deu o primeiro pedaço da guloseima. “Ele conta que eu chupei todo o bombom. Depois disso, nunca mais parei”, brinca ela. Para aqueles que perguntam sobre seu fascínio, Manuela lança a comparação com os amantes de cerveja. “Assim como tem aquelas pessoas que, quando dá 17h, ficam loucas por uma cerveja gelada, eu quero um chocolate.”

Há várias outras pessoas no mundo que compartilham, em maior ou menor grau, o desejo incontrolável demonstrado por Manuela. Para compreender por que o chocolate é tão irresistível, pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, realizaram testes em ratos de laboratório e descobriram que a compulsão pelo alimento pode estar ligada à liberação da encefalina, uma substância natural, em uma parte específica do cérebro, chamada neostriatum dorsal.

De acordo com a autora do artigo, Alexandra DiFeliceantonio, o mais impressionante é que essa mesma área foi ativada em experimentos anteriores quando pessoas obesas olhavam para comidas ou quando viciados em drogas assistiam a cenas com entorpecentes. “Parece provável que o resultado que encontramos da ação da encefalina em ratos signifique que ela seja a responsável por conduzir algumas formas de consumo excessivo e dependência nas pessoas”, afirma DiFeliceantonio.

A encefalina é um neurotransmissor narcótico natural secretado pelo encéfalo. Semelhante à morfina, ela se liga a locais de receptores opioides no cérebro. Até então, acreditava-se que a substância funcionava somente como um analgésico natural, entretanto, o novo estudo abriu a hipótese de que, quando liberada diretamente no neostriatum dorsal, pode ser a responsável por levar ao vício.

Um dos pontos centrais que explicam a ligação entre os dois é a capacidade dos opioides naturais de codificar e motivar o consumo de substâncias ligadas à recompensa sensorial. Em outras palavras, é como se o cérebro tivesse um mecanismo que, quando acionado, incentivasse o consumo daquilo que lhe dá prazer e satisfação, iniciando um ciclo de retroalimentação difícil de parar. No estudo coordenado pela especialista americana, descobriu-se que o consumo de chocolate faz com que doses bem mais altas de encefalina sejam liberadas no neostriatum dorsal. Ou seja, comer chocolate ativa o processo que gera mais vontade de comer chocolate.

É assim que a empresária Ângela Marques, 40 anos, se sente em relação ao chocolate. “Sempre fui viciada. Divido até o marido, mas o chocolate não”, brinca. Quando o assunto é a delícia de cacau, ela admite que se torna extremamente egoísta e esconde as caixas que compra no armário para que ninguém as encontre. O problema é quando o esconderijo é tão bom que nem ela consegue se lembrar onde colocou.

A empresária reforça que a dificuldade em encontrar novos lugares para manter o chocolate longe de outras bocas tem se tornado cada vez maior. Isso porque seus dois filhos, Isabela, 3 anos, e Gabriel, 11, assim como a mãe, adoram o doce. Ainda hoje ela guarda a lembrança de quando, sete anos atrás, Gabriel comeu escondido todo o pacote de seu chocolate preferido, trazido dos Estados Unidos. “Ele fez a festa, comeu tudo e jogou os papéis embaixo da cama.”

Travesso, o menino se defende e diz que, na verdade, foi caridoso e deixou ainda dois bombons para a mãe. “Eu nunca bati no Gabriel, mas nessa hora me deu até vontade de dar uns tapas”, conta Ângela. Isso porque, para ela, o chocolate é uma mistura de amor com compulsão. “Quer me agradar? Me dê um chocolate. Sempre falo para deixar as rosas para quando eu morrer. Enquanto estiver viva, pode me presentear com chocolate, que ele não me dá trabalho, só prazer”, ironiza.

Exagero
De acordo com Renato Malcher, professor de ciências fisiológicas da Universidade de Brasília (UnB), o cérebro humano foi desenhado para ter apetites que geram prazer, como comer, fazer sexo e se sentir socialmente apoiado, por exemplo. “Esses apetites existem para que o indivíduo e a espécie sobrevivam”, afirma. Segundo ele, porém, os opioides liberados no consumo do chocolate podem exagerar o poder dos circuitos cerebrais em criar sensações de prazer que motivam a pessoa a buscar repetir a experiência.

“Drogas como a cocaína e opioides fazem isso porque interferem de forma anormal, potente e direta na conexão de circuitos envolvidos no aprendizado de como obter um prazer, na antecipação imaginária deste prazer, na sensação de falta deste prazer e na conversão dessa antecipação e dessa falta em ação”, explica.

No caso dos alimentos, o professor esclarece que, como as fontes com alta concentração de gordura e açúcar eram raras na natureza, o organismo humano evoluiu de forma tal que o cérebro passou a supervalorizá-las. “Hoje em dia há uma abundância de alimentos altamente calóricos e palatáveis, o que contrasta com a realidade na qual nosso cérebro se desenvolveu ao longo do processo evolutivo. Em ambas as situações , pode-se dizer que a maioria das pessoas podem lidar com essa dose extra de prazer sem se tornarem consumidoras compulsivas”, defende.

Amargo é mais saudável

Em doses controladas, o chocolate tem se mostrado um importante aliado da saúde. Pesquisas publicadas recentemente reforçam os benefícios do cacau para o coração e destacam, principalmente, seu efeito na redução do risco de derrames em homens e mulheres. Entretanto, não são todos os tipos do doce que apresentam um resultado positivo. O pesquisador Christopher Reid, da Universidade de Monash, Austrália, ressalta que o chocolate amargo é o que apresenta mais evidências de seu benefício. “Ele tem menos gordura saturada e, em pequenas quantidades, já provoca uma sensação de saciedade”, afirma. Segundo ele, o chocolate escuro auxilia na redução da pressão arterial, na melhora do humor e na redução de lipídios no sangue.

Quanto ao humor, Manuela Muguruza não tem dúvidas. Para ela, não há nada melhor do que um chocolate depois de um dia estressante. “As coisas ficam muito menos horrorosas. Para mim, faz muito sentido os estudos que relacionam o consumo de chocolate com a liberação de serotonina”, brinca. Exigente, Manuela é enfática ao dizer que chocolate e bombom são coisas diferentes. E que, além disso, chocolate branco não é chocolate.

A chocolatier brasiliense Eliane Almeida explica que, assim como os amantes de vinho, os de chocolate, com o passar do tempo, apuram o seu gosto e tendem a gostar mais dos amargos. Ela própria faz parte dos defensores de que, quanto mais escuro for o chocolate, melhor. “Os chocolates hidrogenados, quando você derrete, tem um cheiro forte, enjoativo.” Ela conta que a dica para nunca se cansar do produto, apesar de trabalhar diariamente com ele, é abusar do cacau. Além de gostoso, o produto fica muito mais saudável. (MU)

 

 

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