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Tecnologia

O fim da picada

Especialistas norte-americanos mostram que ondas de ultrassom podem substituir as agulhas na hora de administrar medicamentos. O estudo pode, no futuro, beneficiar as pessoas que precisam tomar injeções periodicamente, como diabéticos

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postado em 25/09/2012 08:00 / atualizado em 24/09/2012 13:12

A agulha é um dos atalhos favoritos da medicina. Em poucos segundos, o objeto permite que um remédio saia da ampola e caia direto na corrente sanguínea. Essa facilidade, porém, traz alguns problemas, como o risco de infecções e, claro, a dor da picada. Para dar um fim a essa agonia, uma equipe do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) aperfeiçoou uma técnica estudada há anos e mostrou que o ultrassom pode ser a forma de aplicação de medicamentos do futuro. A técnica, garantem os pesquisadores, é segura, mais eficiente que o uso de comprimidos, e — o melhor de tudo — indolor.

Já é sabido há algum tempo que ondas sonoras acima do limite da audição aumentam temporariamente a permeabilidade da pele. Assim, há algumas décadas, os cientistas tentam usar esse poder a favor da saúde. Com os estudos, descobriu-se que essa alteração cutânea acontece porque as ondas de baixa frequência submersas causam a implosão de pequenas bolhas que lançam jatos de líquido em direção ao tecido. E, como tudo ocorre em uma escala microscópica, as ranhuras criadas por esse fenômeno não são visíveis nem deixam cicatrizes aparentes — mas grandes o suficiente para substâncias medicamentosas passarem.

O grande problema, resolvido pelo grupo do MIT, era controlar a força do ultrassom. Sem isso, as bolhas implodidas podem causar um estrago desordenado na epiderme, para longe da área onde se pretende aplicar o remédio. Tentou-se ainda aumentar o tempo de exposição às ondas para obter-se mais poros fabricados na pele, mas o tratamento prolongado frequentemente causava aquecimento e até queimaduras.

O estudante de engenharia química do MIT Carl Shoellhammer se uniu aos seus professores, grandes veteranos nessa área de pesquisa, para encontrar uma solução que tornasse a técnica mais eficiente. Eles resolveram combinar dois tipos de ultrassom, um alto e um baixo. “Se houvesse mais bolhas na solução, mais delas poderiam estourar, o que poderia gerar uma maior passagem da droga. Usamos um segundo canhão de ultrassom, de alta frequência, para concentrar mais bolhas na solução”, explica Shoellhammer.

Porco
A ideia foi testada numa pele de porco submersa num líquido e exposta aos dois aparelhos. Enquanto as ondas de frequência maior agitavam o líquido somente no local de aplicação, as baixas estouravam as bolhas líquidas, causando os jatos que abriram caminho na pele animal. O tecido foi então retirado do tanque e tratado com uma solução de glucose. A substância foi absorvida pelos poros abertos pelo ultrassom e, se o tecido estivesse em um ser vivo, seria levada para a corrente sanguínea.

O mesmo procedimento foi testado com insulina, e ambos tiveram resultados animadores. Enquanto a glucose foi absorvida quatro vezes melhor com as ondas duplas do que com o ultrassom normal, a melhora com a insulina foi 10 vezes maior. E todo o processo seria indolor, já que apenas a parte exterior da pele é danificada. “Os jatos não vão fundo o suficiente para chegarem à região onde estão os nervos. E a pele recupera essa camada superior em algumas horas, então não há um efeito permanente”, assegura Carl. As aberturas no tecido, afirma o pesquisador, permanecem por até 24 horas.

Bastariam, então, apenas alguns minutos sob ondas de ultrassom para deixar a pele pronta para receber medicação durante um dia inteiro. Em outras palavras, as pessoas poderiam ter em casa um aparelho emissor de ultrassom, posicioná-lo sobre a pele e depois colar sobre a área um adesivo — como esses de nicotina usados para deixar de fumar — para que o medicamento penetrasse na pele. Um possível grupo a ser beneficiado seriam os diabéticos que precisam tomar injeções de insulina. As agulhadas fariam parte do passado.

As frequências sugeridas pelos autores da pesquisa, de 20MHz e 1GHz, não seriam muito diferentes das usadas, respectivamente, em sessões de fisioterapia e de obtenção de imagens em exames. “Esse não era o objetivo inicial do ultrassom. Isso foi um efeito que observou-se ao longo do tempo e agora estão tentando se beneficiar dele. E é interessante, porque essa energia é muito pequena. Não existe nenhum indício clínico de que gere algum problema para a saúde”, acrescenta Fábio Kurt Schneider, pesquisador em Engenharia Biomédica na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Barreira
Os medicamentos transcutâneos já são bastante populares, mas têm absorção limitada. Isso ocorre porque eles precisam passar pela camada de queratina da pele, projetada para proteger o organismo do ambiente. Na tentativa de vencê-la, médicos apelavam para o aquecimento, massagem, remoção de pêlos e até mesmo para o abafamento da pele depois da aplicação dos medicamentos. Mas poucas técnicas mostraram um potencial como a fonoforese, como é conhecida a técnica de uso do ultrassom para absorção de remédios pela pele.

“Pesquisadores investiram muito tempo tentando determinar como melhorar esse tipo de aplicação. O desafio vale a pena porque a dosagem transcutânea tem benefícios únicos. O medicamento pode ser administrado por um adesivo focado no local, mas com o potencial de entrar na corrente sanguínea, sem precisar passar pelo sistema digestivo”, lista a especialista Nancy N. Byl, professora de medicina da Universidade da Califórnia.

Acredita-se que o sistema pode ser usado para aplicar medicamentos para problemas na pele, como acne, ou ainda como um substituto do comprimido. Um remédio administrado em cápsulas, por exemplo, seria muito melhor absorvido pela técnica do ultrassom, o que permitiria o uso de dosagens menores por pacientes. Quem depende de injeções diárias de insulina ou de glicose também poderia trocar a agulha por adesivos. A resposta imune criada no organismo pelo ultrassom seria ideal, ainda, para a aplicação eficiente de vacinas.

A equipe do MIT já trabalha em formas de aumentar ainda mais a permeabilidade da pele, além do desenvolvimento de um dispositivo portátil que possa ser usado em campanhas de vacinação em comunidades remotas. A ideia do uso de um só raio de ultrassom já havia sido aprovada pela FDA, a agência encarregada de medicamentos e alimentos nos Estados Unidos, mas ainda não há planos concretos de levar o projeto ao mercado.
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