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Ciência

Cozinho, logo evoluo

Estudos realizados na UFRJ e divulgados durante simpósio internacional de neurociência, em Belo Horizonte, mostram como a técnica de preparar alimentos no fogo permitiu ao homem tornar-se o mais inteligente dos animais

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postado em 26/09/2012 08:00 / atualizado em 25/09/2012 11:01

Belo Horizonte — Que invenção ancestral teria modificado mais o curso de vida da humanidade? A roda? Ferramentas de caça? Nada disso. Segundo as últimas pesquisas que buscam desvendar o curso da evolução humana, o que permitiu que, hoje, você seja suficientemente inteligente para ler estas linhas foi o surgimento da cozinha: a combinação do carnivorismo com o uso do fogo. Tal explicação, que ganhou força no meio científico nos últimos anos, é compartilhada por um grupo de pesquisadores do Laboratório de Neuroanatomia Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) especializado em investigar a diversidade do sistema nervoso de animais, sua evolução e as origens do desenvolvimento.

Manter um cérebro como o humano tem um alto preço. Apesar de o encéfalo representar apenas 2% da massa corporal, ele utiliza cerca de 25% da energia produzida no organismo. Ou seja, para chegar ao seu estágio atual, o homem precisou encontrar uma forma de ingerir mais calorias. Como fez isso? Levando o alimento ao fogo. “Cozinhar é uma forma de pré-digerir o que se come. Isso facilita a mastigação e a deglutição. Consequentemente, o tempo necessário para ingerir calorias é muito menor”, explica a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, professora e pesquisadora do Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, participante da 2ª Semana Internacional de Neurociências, que ocorre na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na abertura do evento, ontem, Houzel proferiu a palestra O que nos torna humanos: o custo de ter 86 bilhões de neurônios e o valor da cozinha.

Para realizar seus estudos, a equipe da UFRJ conta com uma técnica desenvolvida na própria instituição de ensino chamada fracionador isotrópico. Ela permite determinar de forma rápida, simples e confiável o número de células neuronais e não neuronais em um sistema nervoso. Dessa forma, ao comparar diferentes espécies, os pesquisadores conseguiram verificar que o tamanho do cérebro não é o único fator que faz com que uma espécie apresente uma capacidade cognitiva maior que outra. O número de células nervosas é um fator crucial nessa equação. “Tamanho não é tudo. Basta observar que o cérebro de uma vaca tem o mesmo tamanho que o de um chimpanzé. Ambos têm pouco mais de 400g, mas capacidades comportamentais diferentes”, aponta a especialista.

Assim, mesmo não possuindo o maior cérebro entre os mamíferos, o ser humano se torna notável por ter mais neurônios: cerca de 86 bilhões, conforme constatou outro pesquisador da UFRJ, Frederico Lent. São as células nervosas as responsáveis pela demanda tão alta de energia do cérebro humano. Como forma de comparação, basta observar que o cérebro de um gorila também ocupa 2% da massa corpórea do animal. No entanto, exige apenas 2% da energia produzida no organismo. “Dependemos de tanta energia simplesmente porque temos um número enorme de neurônios”, resume Houzel.

Tempo
Os vários estudos conduzidos no Laboratório de Neuroanatomia Comparada da UFRJ mostram que um corpo maior, portanto, não significará um cérebro maior ou mais habilidoso. Conforme o animal aumenta de tamanho, ele se vê na necessidade de comer mais horas durante o dia para sustentar esse corpo. Em outras palavras, um tamanho maior tende a significar menos neurônios.

O que o homem teria de notável, portanto, na opinião de Suzana Herculano-Houzel, não é especificamente o número de neurônios, mas o que tornou isso possível. “Uma vez que aprendeu a cozinhar seu alimento, o homem não precisou mais passar nove horas diárias comendo. Pode ir a uma lanchonete e consumir 2.500 calorias de uma só vez e cuidar de outras coisas no restante do dia”, acrescenta ela.

Chimpanzés, por exemplo, são forçados a passar seis horas por dia mastigando folhas, frutas e raízes, e precisam mastigar por uma hora para conseguir engolir 300g de carne crua. Um bife mal-passado com as mesmas 300g, por outro lado, pode ser devorado por um humano em cinco ou 10 minutos. Não é à toa que gorilas criados em cativeiro e que comem comida cozida engordam rapidamente. “Se ainda adotássemos uma dieta de alimentos crus, teríamos que passar grande parte do dia comendo para conseguir a energia demandada pelo nosso encéfalo”, diz Suzana.

Contagem de núcleos

O método adotado pela equipe da UFRJ é baseado na premissa de que cada célula tem apenas um núcleo. Assim, os pesquisadores dissolvem as membranas das células e mantêm apenas a membrana do núcleo, conseguindo uma suspensão de núcleos livres dentro de um líquido. Dali, tiram-se pequenas amostras representativas da distribuição dos núcleos na suspensão. “Em 15 minutos temos o número total das células que compõem o tecido de origem”, explica Suzana Herculano-Houzel. Com o fracionador isotrópico, foi possível compreender que o encéfalo de roedores e primatas, por exemplo, não são constituídos da mesma maneira. Até agora, a equipe fluminense já avaliou 50 espécies de quatro ordens: Chiroptera, Primates, Rodentia e Insectivores.


86
Total aproximado de
neurônios presentes no


Avanço mental


sistema nervoso humano

Australopithecus:
30 bilhões
bilhões

Homo erectus:
60 bilhões

Homo sapiens:
86 bilhões

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