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"Um historiador incomum"

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postado em 02/10/2012 16:39

Rodrigo Craveiro

Sassoon (D) e Hobsbawm (E): discussões livres sobre os rumos do marxismo pelo mundo (Donald Sasoon/Divulgação - 01/10/12) 
Sassoon (D) e Hobsbawm (E): discussões livres sobre os rumos do marxismo pelo mundo

 

O historiador egípcio Donald Sassoon, professor da Queen Mary University of London, telefonou para o hospital Royal Free, em Hampstead (bairro de Londres), na noite de domingo. Queria saber notícias do mentor e orientador de sua tese de pós-doutorado — um estudo sobre a estratégia do Partido Comunista italiano entre 1944 e 1964. Um parente de Eric Hobsbawm desaconselhou a visita do amigo. Poucas horas depois, o homem que dominava a história como poucos tornava-se parte dela. “Seu legado intelectual será enorme. Ele não foi um historiador que se especializou em um ou outro tema, foi um historiador incomum”, afirmou Sassoon ao Correio, por telefone, na tarde de ontem. O amigo lembra que, no fim da década de 1950, Hobsbawm debatia com historiadores econômicos sobre a crise agrária do século 18 e se as condições de vida do operário britânico melhoraram durante a Revolução Industrial. Sassoon destaca que os estudos mais marcantes surgiram naquela época. “Ele produziu pesquisas sobre o banditismo social e sobre os rebeldes primitivos. Eram trabalhos bastante originais. Ninguém havia escrito algo assim antes”, diz o estudioso. “Já se passaram seis décadas e, quando as pessoas escrevem sobre esses assuntos, elas ainda concordam com Hobsbawm”, acrescenta. Os dois se conheceram em 1972, quando Sassoon foi até o colega e pediu que ele o orientasse em sua tese. “Escrevi para ele dizendo que eu tinha sido influenciado por Louis Althusser (filósofo marxista francês). Ele me correspondeu, afirmando que não era um admirador de Althusser, mas que aceitava ser meu orientador, porque o tema lhe interessava”, lembra. “O professor Hobsbawm gostava de discutir questões sérias, amava um debate intelectual. Nós almoçávamos juntos e falávamos sobre muitas coisas. Tínhamos conversas interessantes. Era uma pessoa de mente extremamente aberta.” O colega recorda que o pensador tinha uma ligação especial com o Brasil. “Ele era extremamente popular no Brasil, onde seus livros venderam mais exemplares que em qualquer lugar do mundo”, explica. “Também era muito satisfeito com o (ex-presidente) Lula e com o modo como ele governava o país.” De acordo com Sassoon, Hobsbawm era dotado de uma enorme curiosidade. “Até o fim, esteve muito bem informado sobre assuntos que envolviam desde a China até o Brasil”, comenta. Sassoon reconhece que o professor foi alvo de críticas por sua defesa apaixonada do marxismo. No entanto, explica que Hobsbawm deixou claro em seu livro How to change the world: Tales of Marx and marxism (“Como mudar o mundo: Contos de Marx e o marxismo”, pela tradução literal) que ele não defendia uma revolução mundial contra o capitalismo. “Seu marxismo era algo destoante da União Soviética, era algo que ia mais além”, disse. Nos últimos dias de vida, Sassoon conta que Hobsbawn evitava falar sobre sua saúde. “Ele permaneceu lúcido até o fim.”

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