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Informática

As lições de Jobs

Nesta sexta-feira, a morte do fundador da Apple e inventor do iPod, do iPhone e do iPad completa um ano. O Informática analisa como a empresa segue os ensinamentos de seu criador

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postado em 03/10/2012 08:00 / atualizado em 02/10/2012 11:18

"Continuem famintos, continuem bobos. Sempre desejei sso para mim mesmo. E agora que vocês estão se formando para dar início a um novo começo, é isso que desejo a vocês. Continuem famintos, continuem bobos."

 

As palavras acima, ditas por Steve Jobs a uma plateia de formandos da Universidade Stanford, na Califórnia (EUA), em 2005, encerraram aquele que provavelmente se tornaria seu discurso mais famoso. Foi, também, uma das raras ocasiões em que o ex-diretor executivo da Apple falou tão abertamente sobre sua vida particular, que se desenrolou como o lançamento dos vários produtos inovadores: repleta de mistérios, discrição e sigilo, mesmo sob a lupa de todo o planeta.

Os feitos, as manias e as histórias do cofundador da Apple, cuja morte completa seu primeiro aniversário nesta sexta-feira, continuam a exercer fascínio — não somente pela incrível gama de dispositivos importantes do mercado, mas também por sua história de vida, que renderia vários filmes (pelo menos dois estão previstos para chegar às telonas). Para se ter uma ideia, a biografia autorizada do executivo, escrita pelo jornalista Walter Isaacson, ainda é o 13º livro mais vendido da Amazon, e não sai da lista dos 100 mais vendidos há mais de 400 dias.

Entretanto, a grande dúvida restante no legado do inventor paira sobre a Apple, uma das poucas empresas do setor de tecnologia cuja origem, história e até futuro estão intimamente ligados a seu cocriador. Por enquanto, a Apple continua se beneficiando do sucesso dos vários dispositivos. O iPhone 5, o mais recente deles, vendeu 5 milhões de unidades nos Estados Unidos no primeiro fim de semana após seu lançamento, em 21 de setembro, estourando as expectativas de demanda previstas pela empresa.

O temor, claro, é que a história se repita a longo prazo. Quando o executivo saiu da Apple pela primeira vez, em 1985, após desavenças com o então diretor executivo John Sculley (que se juntara à maçã após ser persuadido pelo próprio Jobs), a empresa quase faliu após anos de lançamentos fracassados, e só se recuperou após o retorno de seu criador, que se tornou diretor executivo. Entretanto, pouco mais de um ano após a saída de Jobs das operações da Apple, é possível notar que os planos deixados pelo meticuloso inventor começam a ser postos em prática pela companhia — e essas direções tem a ver com as três histórias que o executivo compartilhou com os estudantes de Stanford em 2005.

Imagem pública

“Seu tempo é limitado e, por isso, não o desperdice vivendo a vida de outra pessoa. Não se deixe aprisionar pelo dogma, que é viver de acordo com os resultados do pensamento de outra pessoa. Não deixe o ruído da opinião alheia secar sua voz interior e, mais importante, tenha a coragem de seguir seu coração e sua intuição”. A terceira história contada por Jobs em Stanford é a primeira das lições assimiladas pela Apple, exatamente por seu novo comandante: Tim Cook.

Nos últimos 12 meses, ficou claro que nem sequer passa pela cabeça de Cook emular o estilo de seu antecessor. Além de não deixar a peteca dos negócios da Apple cair, o novo diretor foi à China em março — algo que Jobs jamais fez — visitar a fábrica da Foxconn, que produz a maioria dos produtos da empresa e é duramente criticada pelas condições de trabalho. A tarefa de ser a imagem pública da companhia também foi muito mais diluída entre a cúpula de executivos.

O iPhone 5, novamente, é o principal exemplo. Em uma hora e meia de apresentação, o palco foi dividido entre 11 pessoas, com trocas de palestrantes entre intervalos aproximados de dez minutos. “Não era só ele, e isso foi algo bom. Ele introduziu várias pessoas para falar de diferentes partes do software e do hardware. É algo que Steve também fazia em suas apresentações”, explica ao Correio o norte-americano Carmine Gallo, autor de dois livros sobre Jobs: Faça como Steve Jobs e Inovação: a arte de Steve Jobs (Editora Lua de Papel), e estudioso das apresentações do ex-diretor da Apple.


Jobs no cinema
Hollywood prepara dois filmes sobre a vida de Steve Jobs. O primeiro, Jobs, já está em fase de gravação e terá Ashton Kutcher, do seriado Two and a half men, no papel do co-fundador da Apple. Já o segundo, ainda sem nome confirmado, é a adaptação da biografia autorizada do executivo. O filme será produzido pela Sony Pictures e escrito por Aaron Sorkin, vencedor do Oscar 2011 com o roteiro do drama A rede social, que conta a origem do Facebook. Entretanto, não é a primeira vez que a vida de Jobs é representada na telona. Noah Wyle interpretou o executivo em Piratas do Vale do Silício, filme de 1999 sobre a história da Apple e da Microsoft.

No caminho certo

Mesmo após a morte de Steve Jobs, a Apple soube manter a inovação e se tornou a empresa mais valiosa do mundo. Apesar das recentes falhas nos mapas e na conexão wi-fi do iPhone 5, time de especialistas deixados pelo ex-CEO é capaz de preservar o legado 

 

“Você precisa descobrir aquilo que ama e isso vale tanto para seu trabalho quanto para as pessoas que ama. Seu trabalho vai ocupar uma parte grande da sua vida e a única maneira de ficar realmente satisfeito é fazer o que você acredita ser um ótimo trabalho. E a única maneira de fazê-lo grandioso é amar aquilo que você faz. Se você ainda não encontrou o que é, continue procurando.”

A segunda história que Jobs contou aos estudantes de Stanford é uma lição que ele próprio colocou em prática antes de deixar a empresa. O executivo se certificou de que as posições-chave da Apple seriam ocupadas por pessoas tão apaixonadas pela companhia e sua visão quanto ele mesmo. A começar por Tim Cook, o incansável diretor de operações contratado em 1998 para reorganizar a cadeia de produção e distribuição de produtos, o que garantiu que milhões de desejados iPods, iPhones e iPads chegassem às mãos dos consumidores poucos meses, ou semanas, após serem anunciados — outra tendência que Jobs iniciou no comando da Apple. 

 

O trabalho de bastidores foi fundamental para a Apple escapar da falência e se transformar na empresa mais valiosa do planeta, capaz de lucrar mesmo em tempos de crise na economia norte-americana. Em seu resultado de rendimentos mais recente, no terceiro trimestre de 2012, a empresa teve renda de US$ 35 bilhões e lucro de US$ 8,8 bilhões. O desempenho de Cook também o colocou como o primeiro na linha de sucessão da maçã ao ser promovido diretor de operações (COO) em 2007, e ao assumir o posto de CEO duas vezes, quando Jobs se afastou para cuidar da saúde.

Confiança
Também estão no time de confiança do falecido executivo Scott Forstall, vice-presidente sênior do iOS, e Phil Schiller, vice-presidente mundial de marketing da empresa. Além de Cook, os dois executivos são as duas principais faces públicas da Apple. Ambos tiveram participação significativa nos últimos lançamentos da Apple, como o novo iPad, o iPhone 5 e o iPhone 4S e desempenham papéis fundamentais dentro da fabricante.

Forstall é o responsável pela criação do sistema iOS desde a primeira versão do iPhone e, assim como Jobs, também é conhecido pela exigência e fascínio que exerce sobre nos funcionários sob seu comando. Entretanto, também é suscetível a falhas, como o fiasco do sistema proprietário de mapas da Apple introduzido na atualização iOS 6, que fez o próprio Tim Cook, em nota, pedir desculpas publicamente e recomendar opções da concorrência, com o Google Maps.

 

Já Schiller é o responsável pelas campanhas de publicidade da empresa — em outras palavras, é quem quebra a cabeça para manter o status descolado e desejado da Apple. É conhecido também por ser um dos mais ferrenhos defensores das decisões da maçã, até mesmo quando elas parecem não ter sentido. Recentemente, ele veio a público para explicar que o novo iPhone 5 não precisaria de carregamento wireless ou tecnologia de campo de comunicação próximo, que são características presentes nos principais celulares da concorrência.

Futuro

Por enquanto, a Apple mantém a estratégia de refinar produtos consagrados — um iPhone maior, ou, de acordo com especulações, um iPad menor. Ainda resta à companhia o teste definitivo para mostrar que pode sobreviver após Jobs: continuar inovando como ela fazia na época em que o executivo estava no comando. O principal rumor está no lançamento de uma suposto aparelho de televisão da empresa. Segundo a biografia oficial de Jobs, o ex-diretor teria dito que havia “solucionado o problema, criando um sistema incrivelmente fácil de usar.

No papel principal da história está o funcionário da Apple em quem Jobs confiava mais: o vice- presidente de desenho industrial Jonathan Ive, co-responsável por praticamente todos os produtos inovadores da companhia, do primeiro iMac ao mais recente iPhone. Segundo a biografia oficial do ex-CEO, Jobs considerava o designer como seu “parceiro espiritual”, e se certificou de que ninguém na empresa teria mais poder de decisão do que Ive — em outras palavras, nem seus chefes poderiam decidir o que ele deveria fazer. Entretanto, o último integrante do time de confiança de Jobs também é o mais enigmático. Discreto e avesso a entrevistas, ele é a única face pública da Apple a não dar as caras em lançamentos de produtos — na apresentação do iPhone 5, por exemplo, ele apareceu em um vídeo. 

 

Tanta descentralização traz uma certeza: será cada vez mais difícil para a empresa manter sua conhecida política de segredos. O lançamento do iPhone 5 é a prova: antes de ser revelado em São Francisco (EUA), em 12 de setembro, já estavam publicadas na internet várias características e até mesmo imagens de modelos idênticos ao que foi apresentado. A maioria delas vazou por meio de sites e fóruns asiáticos, onde a empresa monta a sua extensa cadeia de produção.

Até lá, vale confiar na primeira história que Steve Jobs contou aos alunos de Stanford. “Você não pode ligar os pontos olhando para frente. Só podemos ligá-los quando olhamos para o passado. Você deve confiar que os pontos vão, de algum jeito, se conectar no futuro. Você deve confiar em alguma coisa: em si mesmo, no destino, na vida, no karma, seja lá o que for. Acreditar que os pontos vão se conectar ao longo da estrada vai te dar confiança para seguir seu coração, mesmo que isso te leve para um caminho diferente do previsto. É o que faz toda a diferença.”
US$ 625 bilhões
Valor de mercado da Apple, o que lhe confere o título de empresa mais valiosa do planeta

Três perguntas para

Carmine Gallo,
autor dos livros Faça como Steve Jobs, Inovação: a arte de Steve Jobs e The Apple experience (ainda não publicado no Brasil). Carmine é um dos principais estudiosos das apresentações do ex-diretor da Apple.

Baseado no anúncio do iPhone 5, como o senhor vê as diferenças entre os lançamentos comandados por Tim Cook e companhia, comparados às lendárias apresentações de Jobs?
Jobs era o melhor contador de histórias do mundo corporativo. Após seu falecimento, tenho procurado por alguém que pode herdar esse título. Em relação ao iPhone 5, acredito que ele é uma grande evolução do celular: é mais leve, rápido e tem uma câmera melhor. É um dispositivo melhor. Mas não é possível comparar seu anúncio com a apresentação do iPhone original. Tudo era novo: você podia usar o dedo para rolar sobre a lista de músicas. Por isso, acho que a comparação é difícil.

Como o senhor vê as diferenças entre Steve Jobs e Tim Cook?

São estilos e personalidades diferentes, mas isso não significa que um seja melhor que o outro. Cook está começando a expressar muito mais sua paixão pela empresa. No lançamento do iPhone 5, ele sempre sorria, e dizia que “era uma época extraordinária para se estar na Apple”. Antes, ele costumava ser muito mais contido. Ele está começando a se sentir mais confortável ao falar sobre a marca. Acho que é bem difícil ser comparado a Steve Jobs, que praticou apresentações por três décadas, mas Cook está se transformando em um palestrante muito inspirado.

Como o senhor acredita que a Apple conseguirá manter seus consumidores leais à marca?
Um dos pontos que pode responder a essa pergunta está nas lojas da Apple. Eles olham para os consumidores de uma forma muito diferente. A Apple não quer apenas vender o produto, mas também enriquecer a vida das pessoas. As lojas contratam quem é apaixonado pelos produtos da marca, algo que não pode ser treinado ou ensinado. As Apple Stores também são famosas por ensinar vários truques sobre como mexer nos dispositivos da empresa, por uma taxa irrisória. Com isso, os compradores entendem tudo melhor. E quanto mais você o entende, mais você se apaixona por ele. Isso cria uma conexão emocional. Não é um segredo sobre como eles conseguem novos consumidores, mas ajuda a explicar como eles conseguem deixar as pessoas tão leais à marca.

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